Go to ...

on YouTubeRSS Feed

24/10/2017

Karnal & Cia Midiática quer impor o silêncio do psicologismo. Conseguirá?


O truque de virar “queridinho da mídia”, nos Estados Unidos, é simples e recomendado por experts de lá: deve-se falar besteiras aceitáveis. Ou seja, nada de inteligente deve ser dito, mas a questão central é selecionar as bobagens segundo o senso comum. É desse modo que tanto o bom mocismo quanto a crítica fácil se instauram. No coração de ambas, o autoritarismo da nova chave de defesa: o psicologismo. Tudo isso foi falado pelos americanos no passado, mas agora, cinquenta anos depois, chega ao capitalismo brasileiro, só agora receptivo a tais fórmulas.

Do que se trata?

Nos anos oitenta comecei a denunciar em alguns escritos o objetivismo marxista. O marxismo havia retirado do mundo a discussão ética. Qualquer avaliação moral era tida como “moralista”, em sentido ruim, pois não se estava levando em conta a “história”, “as estruturas”, “as relações objetivas da sociedade e da economia” etc. Tudo tinha que ser “objetivo”. E o objetivo aí era sinônimo de “explique tudo pela teoria, e de preferência que ela seja alguma vertente do marxismo, contanto que seja a minha vertente”. Objetivismo barato, ruim. Às vezes um disfarce para seu oposto, o mais completo subjetivismo idiossincrático.

Criticamos isso, esse tipo de objetivismo sociologizante, mas não fazíamos ideia que viríamos para um mundo pior. Ou seja, hoje não estamos mais estragando Marx, mas agora estragando Nietzsche. Após os anos noventa surgiu a onda, que agora está num clímax, de dizer que tudo é “ressentimento”. Nietzsche jamais usou “ressentimento” como sentimento psicológico de um indivíduo empírico. Ele sempre falou em ressentimento segundo forças cósmicas, na interpretação do tipo da Scarlet Marton, ou de uma metafísica da vontade de potência, na interpretação heideggeriana. Mas o que não dá para dizer é que Nietzsche tenha criado um mecanismo de derrubar as teorias ditas objetivas por meio de uma não-teoria, por meio da descoberta de um mal estar interno à psiquê de João ou Antonio. Todavia, é isso que agora os autoritários da vez, os palestrantes midiáticos, inventaram. Se alguém fala contra eles, vira “ressentido”, vira mesquinho.

Criticar é proibido pois, antes de tudo, já se define parâmetros de crítica. Só falta virem dizer aquelas frase espertalhona: “façam críticas construtivas”.

A modinha dos palestrantes midiáticos é o psicologismo. Tudo eles “explicam” por “disposições psíquicas afetivas”. Se recebem críticas, então é “inveja” de quem criticou; se recebem notícias que os contrariam, então é “infelicidade” de quem mandou ou de quem participa, se alguém não compactua com o regime político que acham o máximo, então é “fracasso emocional” e por aí vai. Ou seja, criaram uma forma de blindagem. Sabem que o apelo ao psicológico, nesse sentido, é irrespondível. Apelam mesmo! Sinceramente, nunca vi um grupo de gente na mídia, até com diploma de professor universitário, de tamanho autoritarismo e ignorância. Parece que a TV Cultura de São Paulo, incentivando essa gente, gerou monstrinhos. Se eles impregnarem a universidade com isso, aí sim, o pensamento social brasileiro vai pelo ralo. Mas não pensem que não vou dar exemplos! Vou sim!

Poderia citar vários exemplos desse psicologismo que nada tem a ver com psicologia, mas com artimanha autoritária. Mas um estudante me mandou por esses dias um ótimo exemplo. É o texto do professor de história Karnal (aquele sobre o qual eu escrevi aqui que estava deslumbrado por escrever gratuitamente no Estadão!), mas podia ser também do Pondé, que pensa metodologicamente bem igual a ele. Vejam: “Tanto a maestria pode estar presente num indivíduo detestável como a mediocridade pode aflorar no mais engajado lutador dos direitos dos filhotes de foca.” (“Insulto, logo existo”, no Estadão). Vejam a estratégia do autoritarismo, como explico abaixo, em quatro parágrafos.

Primeiro, ele escreve durante um tempo, no começo do texto, que os ataques virulentos não valem. De onde ele tirou isso? De quem nunca leu um debate filosófico dos clássicos. Um dos mais virulentos, inclusive com adjetivos pesadíssimos, foi o de Hume com Rousseau. E o de Proudhon com Marx, então? Meu Deus, não falta coisa assim, e altamente significante, na história da filosofia. Karnal não é filósofo. Mas sendo historiador, deveria ter tido uma matéria na escola, que fez lá no sul do país, ao menos informando sobre isso.

Segundo: ele diz que não responde a críticos virulentos porque não tem tempo ou porque não pode responder pois estes não se prendem a argumentos. Ora, os alunos dele dizem que ele não vai dar aula, que falta muito. Como não tem tempo? E mais, todos nós sabemos que um crítico feroz, que pode nos atacar e xingar, pode sim ter razão. Nisso, concordo com o Calligaris, que foi criticado e falou na Folha: o crítico deveria sim falar meu nome, eu estou aqui mesmo sem ele ter falado, já que sou eu! Essa coisa de evitar a resposta, eu conheço bem. Ela é uma forma escapismo do tipo “não respondo, assim evito de me expor e ter de admitir que errei”.

Terceiro: aí vem o argumento-Pondé. Funciona assim: sempre pego como ironia alguém que defende um causa nobre, mas que ridicularizo, para então fingir que ele pode estar errado. Karnal falou na sua página no Facebook contra protetores de animais e levou troco de todo tipo, apagou a conversa na página dele e, agora, na história dos protetores de foca, tenta ridicularizar os que o criticaram. Pegou o exemplo da foca propositalmente.

E por fim, o quarto ponto, aí sim invocando o psicologismo. Karnal joga no artigo todo, e na frase escolhida por mim também, com a questão da disposição psicológica: quem crítica, pode estar só com sentimentos, sem razão. Aliás, ele vocifera essa lenga lenga no início do seu texto, usando do positivismo chulo: o sentimento erra. Ele chega a dizer que tenho que afastar sentimentos para poder ter crítica fundamentada! Ora bolas, imagine eu, sendo um judeu, tenho de me afastar dos sentimentos diante do Holocausto, para só então poder fazer história desse evento! Karnal pede o que ninguém com formação boa de historiador pediria. Muitas vezes só a raiva, a compaixão, a orgulho nos fazem capazes de uma boa análise. Aliás, dizemos isso no cotidiano: “não trabalho sem paixão” – ouvimos isso das pessoas, e concordamos! A objetividade não se atinge pela falta de paixões, mas pela capacidade de criar argumentos que podem ser refutados. Não tenho que ser objetivo por ser absoluto, mas justamente porque o caminho que faço pode ser percorrido pelo outro e, então, em algum detalhe, me contestar. Isso é a objetividade científica pós-positivista e pós-historicista. Ou seja, a objetividade é justamente o oposto do que Karnal pensa que é.

O que Karnal fala é o que os palestrantes de auto-ajuda falam. Eles criaram a cultura da não-crítica. Falam demais, pois estão em todo lugar. Falam sem ler e sem estudar. Falam apenas por dinheiro fácil. E então, nessa situação, claro, falam asneiras. Ora, então, a maneira de sobreviver nessa vida louca de falar e falar e falar, é usar a defesa prévia: antes que me critiquem, já deixo tudo preparado para que, caso o façam, imediatamente já saibam onde estarão enquadrados. Isso intimida. E essa intimidação funciona. Não comigo, claro. Mas que funciona com outros, funciona. Principalmente com os colegas de universidade, que não querem enfrentar quem está na mídia.

O Brasil não deve entrar por essa via. Nos anos oitenta, debates entre Gianotti, Marinela, Bento Prado, Rouanet e outros professores, estavam na imprensa abertamente, em mútuas respostas. Os professores participavam da imprensa, mas não como jornalistas, não como diaristas sem salários, pois não descumpriam suas funções de professores, e isso enriquecia o país. Agora estamos nessa situação de uma tentativa de cala-boca geral. Ora, faço como a Janaína Paschoal no célebre episódio no Senado, contra uma senadora petista: “eu não me calo”.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 01/02/2017

Foto: Karnal se achando um Hamlet!

 

Tags: , , , ,

16 Responses “Karnal & Cia Midiática quer impor o silêncio do psicologismo. Conseguirá?”

  1. 13/02/2017 at 00:09

    Pois é, Professor, desde o começo, quando vi o Pondé e depois o Karnal na mídia, com frequência, me perguntava, mas, qual o tempo que esses caras têm para ler e estudar? Eu estudo religiosamente todos os dias, cerca de 5 horas e 30 minutos. Leio livros impressos, os jornal valor e o Estadão que assino, mais alguns sites na internet. Ainda assim, acho que leio pouco. E esses caras, quantos horas que eles estudam por dia? Vejo o Pondé citando autores clássicos que eu tenho em minha biblioteca, Espinosa, por exemplo, com um ar de dominio, como alguém que parece que esgotou os argumentos do clássico, e ai eu me pergunto, esse cara tem todo esse tempo? Mas, ele só faz é falar e falar, sem parar? No jornal da Cultura, semana passada, estavam os dois, Pondé e Karnal, incrivelmente eles pareciam o oráculo de Delfos, tamanha era a sapiência, de ciência jurídica a legislação de transito, de medicina a mudanças climáticas, e.t.c. Tenha paciência!!!

    • 13/02/2017 at 08:23

      Sérgio, viraram dois tontos. Eu acho que nunca foram outra coisa. Pondé nunca leu nada do que cita. Agora, o problema é que a gente não pode esmorecer, tem que falar, tem que tirar o aluno disso. Deixa para o senso comum tolo.

  2. sonia l. sousa
    02/02/2017 at 22:02

    Uma simples frase sobre a matéria : Inveja mata.

    • 02/02/2017 at 22:49

      Sonia você aprendeu bem a lição que ele inculca nas pessoas que não conseguem pensar. É exatamente isso: tudo ele reduz ao psicologismo, e você caiu nessa.

    • Pedro
      03/02/2017 at 13:08

      Potássio potássio potássio. Sou ‘pondéradamente’ ‘karnavalesco’ .
      E antes de matar faz muito mal.

  3. José fernando
    02/02/2017 at 21:36

    Bravo Ghiraldelli!!! Parabéns. Esses sofista contemporâneos que se vendem numa embalagem “sofosticada” e são absolutameante destituídos de qualquer pretensão mais séria (não passam de “mestre” da espwtacularizaçao da “filosofia”) têm que ser desmascarados.

  4. LMC
    02/02/2017 at 10:59

    O careca da Unicamp no ano
    passado escreveu no Estadão
    que Trump e Hillary são a
    mesma coisa.kkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • 02/02/2017 at 11:21

      Agora ele fabricou um fake para me atacar no facebook. Só que ele se esqueceu e no nervoso se chamou de Karnal.

  5. Solange soares
    02/02/2017 at 06:30

    Os três com conversinhas de compadres, é de dá dó, perca de tempo…rs

  6. Joao Pedro Doriga
    01/02/2017 at 22:16

    Paulo, odiamos Olavo de Carvalho por sua filosofia alheia à escola, mas, na briga contra esses germes, Olavo de Carvalho ajuda e muito.

    Porque ignora o Olavo? Acho que apostar na clientela dele é mais interessante que tentar furar a cabeça dos animais que seguem os midiáticos.

    • 01/02/2017 at 22:18

      João, Olavo não terminou o ensino primário, é apenas um débil mental fanático de direita. Um tonto. O cara que acha que adoçante de Pepsi é feito de feto. Tem dó! É uma piada nacional.

  7. Frederico Vilas Boas
    01/02/2017 at 20:31

    Foi apenas uma força de expressão. Nunca atirei nada na cabeça de ninguém. Até mesmo porque prezo pela liberdade de expressão, ainda que não concorde em absoluto com o que estou ouvindo ou lendo. E por mais estúpida que seja a fala do outro, também. Mas, tenho o direito de criticá-la. Apenas isso.

  8. Frederico Vilas Boas
    01/02/2017 at 20:09

    Tony Bocão! Falar mal do meu Machadinho, o genial autor de “O Alienista”, aquela primorosa crítica à psiquiatria do século XIX e ao cientificismo positivismo, entre outras obras maravilhosas dignas de um Prêmio Nobel de Literatura, é pior que xingar a minha santa mãezinha! Sinceramente, eu no seu lugar, teria, sem dó, atirado o sanduíche e o refrigerante na careca lustrosa dele! Pior que esse meliante tem, agora, um quadro na rádio Bandeirantes de São Paulo um chamado “Careca de Saber”! É a premiação da mediocridade!

    • 01/02/2017 at 20:52

      Karnal falando mal de MACHADO é digno de tomar uma lambadas. Estamos no fim do mundo.

  9. Tony Bocão
    01/02/2017 at 15:02

    É duro esses padrões de palestrante, parece que querem é subverter algo só por falar o contrário. O cidadão da foto o vi palestrando em uma bienal aqui da cidade, estava lotado, até que tive o erro de prestar atenção, enquanto estava em uma fila para comprar um cachorro quente, escutei então a bomba, o maior des-serviço que uma bienais de livro pode sofrer, o camarada falando mal do Machado de Assis, e falando mal do seu estilo, junto o Machado, tão generoso em sua escrita. Vejam só, você está em uma bienal onde as palestras mais disputadas são de Youtubers, e não de autores de livros, e o cara me fala mal do Machadão? Que espécie de mídia e platéia, dá atenção a esse tipo de bobo ? até esqueci do cachorro quente…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *