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17/12/2018

Por que o fake news funciona?


[Artigo para o público em geral]

Para um filósofo todas notícias são fofocas, e quem as lê e as edita são mulheres velhas durante o chá.  Henry Thoreau.

Toda literatura é fofoca . Truman Capote

A coqueluche do momento é dizer que o fake news não é só uma praga, por conta do número, mas uma praga eficaz por conta de que a mentira é mais fácil de ser absorvida que a verdade, e se espalha mais depressa. Sociólogos e psicólogos querem mostrar o quanto isso é novo e perigoso. Jornalistas querem mostrar o quanto isso nos leva de volta a só confiar em órgãos tradicionais de informação. Palestrantes aproveitam para falar da “era da pós-verdade”, e até arriscam escrever livros sobre o assunto. O senso comum, no qual eles chafurdam, fala em “natural curiosidade humana”. Nunca vi tanto fake news sobre fake news. Que boataria!

Já passou da hora de ficarmos espantados com fake news, como se fosse novidade. E mais ainda: tomar isso como o caos do mundo contemporâneo e até inventar um “conceito” chamado de “pós-verdade” para tal denota ignorância. Se a filosofia vai se debruçar sobre o assunto, é bom quer traga hipóteses, para diminuir o auê de chilique que tomou conta do baixo clero.

Não é difícil analisar as mentiras no campo da informação em diversos percursos históricos. Sabemos que a mentira bem contada é aquela que é dita em forma de segredo. O status de verdade, o que se chama a Verdade, é sempre algo da revelação para alguns. Tanto a religião quanto a ciência se valem desse status para se porem na ordem do dia dos transeuntes urbanos. Um mentira que possa ser transmitida como se fosse a contragosto, mantendo-se como segredo revelado, recebe o manto sagrado da Verdade e tem uma vantagem a mais, pode ampliar o elemento fantasioso de quase toda informação exatamente para qualificar sua condição de segredo. O segredo da coisa toda é que ela é contada como segredo!

É necessário jamais esquecer a observação do sociólogo Simmel: “o segredo põe barreiras entre os homens, mas ao mesmo tempo oferece a sedução da quebra de barreiras por meio da confissão e da fofoca”.

Quando Moisés encontrou o arbusto ardente em fogo e que nunca se consumia, recebeu a palavra Daquele-Que-É como sendo um segredo. Nunca se viu o rosto de Deus! Nas vezes que conversou de novo com Deus, este o recebia de costas – uma posição típica de quem vai fazer revelações, contar segredos, fazer fofoca. A voz vem de todo lugar, mas se vem com o rosto, sai da boca, é unidirecional, perde-se na objetividade. Assim, se havia o que ser absorvido e contado da fala de Deus, ela não apareceu para muitos, mas somente para Moisés, e mantendo-se sempre na estrutura do segredo. Além disso, foi dado a ele, Moisés, para além do que deveria ser contado, a ideia de que ele sabia mais do que foi contado, caso contrário o que foi contado no teria eficácia. O mistério é irmão gêmeo do segredo, e ambos são parteiros da verdade e parteiros da estrutura da verdade que dá status à mentira. O segredo cria uma topologia do poder que, por sua vez, potencializa a disseminação do segredo. Nesse sentido, Deus foi o primeiro e maior marketeiro da história. Não à toa a Bíblia, até hoje, é de longe o livro mais vendido no Ocidente. Não é a verdade e a mentira que fazem sucesso, mas a ideia de que o livro tem mistério e conta um segredo de como se salvar. A medicina dos pajés de todos os tempos sempre foram usadas assim. Pajé é um animal que fala baixo, ao pé do ouvido, sempre em posição da fofoca.

A comunicação feita por comunicólogos bons sabe disso. Sabe que o segredo é o sucesso da fofoca, e que se há fake news ganhando de truth news é por causa de que o segundo é contado como notícia, e o primeiro é contado como a verdade era contada,  isto é, como segredo. O meio chamado fofoca, por ele próprio, carrega a aura de segredo. Tudo que feito em ritmo de fofoca vai longe, e vai rápido – mesmo sem Internet. Aliás, a Internet não faz diferente. Ela produz fake news aos borbotões e é bem sucessidade porque conta de forma nada secreta algo que se apresenta como uma fofoca de um segredo. Todo fake news guarda a ideia de que traz para o leitor alguma coisa que os meios tradicionais de informação, a imprensa profissional e a escola, ou não sabem ou, melhor ainda, escondem. Não à toa o fake news pega primeiro, sempre, os menos inteligentes, os que são propensos a cair em teorias da conspiração e coisas do tipo. São os desescolarizados ou os amantes do autodidatismo ou os que atacam a rede Globo (ou a TV em geral, em outros lugares), são as verdadeiras mulheres na hora do chá, de Henry Thoreau.

Podemos levantar outras hipóteses, mas esta minha não deixa de ser uma que merece estar na mesa de observação. Eu poderia contá-la como um segredo, fazendo fofoca, mas trairia a filosofia. A filosofia é arte que vai no sentido contrário do que fazem os marketeiros e palestrantes. Ela não tem segredos a mais do que já tentou ter, nem quer participar da fofoca.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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