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27/04/2017

Por que devemos cometer suicídio?


Caso estivéssemos nos anos 80, Jô Soares seria o mais indicado para dizer algo como “é claro que dá vontade de cometer suicídio após ver 13 Reasons Why na Net Flix, mas não só adolescentes, qualquer um!”.

Vi só um pedacinho. Não é lá coisa boa. Mas filósofo crítico de arte não é o que sou. Não é minha praia. Sou um filósofo que pego a cultura por detrás. Só por essa via chego, pela crítica da cultura, nos homens e mulheres, e  no que me interessa: como se comportam diante da mídia, que é atualmente é mais do que simplesmente parte da vida, é quase toda a vida de cada um.

O suicídio após um filme, peça, livro ou cena real comunicada a outros, não é incomum. Afinal, quem negaria que somos seres miméticos? Se um vai, muitos vão. Por isso mesmo, quando esse assunto é tratado por psicólogos e psiquiatras, em geral para o lixo que é a produção do didatismo aos pais, o que se faz é sempre pior que a peça cultural detonadora de tudo. Psiquiatras e psicólogos, quando não são muito acima da média, trabalham de maneira reduzida. Em geral fazem o seguinte discurso: “fatores do suicídio são complexos, mas é necessário os pais estarem alertas, manter o diálogo …” O diálogo virou o Jesus e a fogueira da modernidade. Jesus salvava muitos nos tempos medievais, a fogueira da Inquisição salvava outros, a fogueira das guerras religiosas salvava mais outros e, por fim, quando veio os tempos modernos e o liberalismo junto do mercantilismo, estava lá na ponta o novo deus, Habermas e o tal diálogo. Os psiquiatras e psicólogos não sabem disso, mas como bom seguidores meio que inconscientes do teólogo alemão, possuem esse recado que qualquer Padre Fábio e qualquer professor da Unicamp de auto-ajuda fala. Bendito diálogo – resolve tudo!

A filosofia vai por outro caminho. Ela trata o suicídio como macho deve tratar. Todos nós, por mais estúpidos que possamos ser, atravessamos alguns momentos bem observados por Heidegger, os de notarmos, ainda que por meio de alguma variação, uma pergunta central: “por que existe algo e não simplesmente o nada?”. Essa pergunta é filosófica. Heidegger a trouxe para o palco por meio de Leibniz. Os filósofos recuperaram o sentimento própria da filosofia ao se espantarem com tal questão. Mas os não filósofos não ficam longe dela quando, mesmo que brevemente, entram por questões paralelas do tipo “qual o sentido disso tudo, da vida?”. Quando a falta de significado nos invade, não estamos, como gostam alguns, doentes. Estamos mais sadios do que nunca. Claro que há na praça a depressão patológica de quem não consegue levantar da cama, aquele para qual tudo perdeu a sua razão, como resultados somatizadores. Mas a maior parte de nós, mesmo não somatizando tudo de modo radical, passa pelo sentimento de que não há sentido em existir. Talvez não exista nenhum sentido em toda e qualquer existência. E então, isso está em paralelo à pergunta central de Heidegger, que inclusive deveria ser retomada se queremos de fato fazer filosofia: “qual o sentido do Ser”?

Quando disseram para Heidegger que essa pergunta era tola, estavam pensando o verbo Ser como sendo simplesmente um verbo de ligação, um pedaço de som capaz de ajudar na comunicação, no diálogo, na performance linguística. Mas Heidegger nunca deu ao Ser somente essa função. Ele entendia que Ser tem a ver com o que é que permeia tudo que existe, e que é o possibilitador de tudo. Entender o sentido do Ser é ver como que tudo existe e tentar ver se cabe falar ou não em destinos postos por sermos os que não submergiram no nada. Qual o sentido do ser? Essa questão filosófica irrompe o peito dos não filósofos através da mordida que pega cada um, principalmente adolescentes, ao se depararem com a corrosão da ideia de que o Ser é desprovido de razões. Qualquer pessoa normal, um belo dia, é invadida por tal sentimento. Na adolescência isso parece ser até marca registrada.

Por que a adolescência? Por uma razão simples: só os adolescentes são, em princípio, livres da rotina. A rotina é bem aceita por cães, mulheres, cavalos, crianças e adultos que trabalham. A adolescência é o único período da aventura. A rotina não pega o adolescente. Quando pega, é justamente uma rotina terrível, do tipo esportivo, que é justamente uma reação abrupta quanto ao sem sentido da falta de rotina. A rotina engana a pergunta sobre o Ser. Ela cria uma sensação de que vida tem sentido. O esporte faz isso. Drogas fazem isso. Dedicação à música faz isso. Adolescentes que se apegam à rotina estão respondendo à proximidade de terem ficado sabendo que há a pergunta “qual o sentido do Ser?”, e que a resposta para ele pode não ser agradável.

Heidegger nunca respondeu essa pergunta. Acreditou mesmo que não haveria resposta para ela, e que a filosofia era justamente isso, continuar a perguntar, continuar se aprofundando nessa questão, mesmo que se pudesse afirmar, aqui e ali, que jamais haveria resposta. Mas em contrapartida, há os não-filósofos, aos montes, que não estão dispostos a suportar essa ideia de que não havendo rotina para falsear a vida, então o melhor é experimentar o nada. O suicídio é essa experiência que, enfim, cessa toda experiência. Matar-se deveria ser a coisa mais comum do mundo, sem precisar qualquer empurrão de uma série de TV que nos incentiva a morrer por outras razões, que é a decepção quanto à qualidade da mídia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 15/04/2017

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15 Responses “Por que devemos cometer suicídio?”

  1. Eduardo Rocha
    19/04/2017 at 20:51

    Paulo, é possível ver o jogo Baleia Azul a partir de Sloterdijk e Byung Chul Han em uma sociedade contemporânea? Principalmente na questão do excesso de leveza, da reoneração e em adquirir peso de sentir os pés no chão de sair das nuvens e descer à realidade? O jogo é um “fazer acontecer” e trazer outros ao acontecer. Pequenas missões que vão aumentando de level. A vida virou vídeo game. Matar e morrer perdeu o peso. Tudo ficou mais leve até as refeições. Isso funcionaria como quem recupera onerações identitárias como realizadores de destinos. Autenticação e reoneração no mundo midiático passa a ser a realidade do homem contemporâneo. E seu impacto de espetáculo se torna realidade e faz dele próprio alguém real. O mundo real é imagem, mas nesse caso uma representação especial. Autenticação e reoneração agrupadas à mídia fazem ele sair do vazio e do entorpecimento e retorne de onde estava para a vida real. É preciso que em algum momento se sinta a própria presença, dizer-se autêntico, ou mostrar-se com algum peso social, daí a busca por algum escândalo ou alguma dor relativamente geral. Hoje em dia cada um tem sua rede social, sua nuvem, seu enxame para assim agir e seu círculo de “realidade”. Como no caso do jogo existiria uma espécie de auto recrutamento. De certa forma isso não seria um pequeno terrorismo de si mesmo? O jovem precisa “fazer acontecer” de modo a ser autêntico, por uma via, ou ter peso, “cair na real”, detonar no jogo, “botar o terror”, ter uma certa relevância ou buscar um certo reconhecimento-performance. Uma típica sociedade contemporânea misturada com o mercado “neoliberal” de Han.

  2. Alceu
    18/04/2017 at 08:48

    Paulo, obrigado pela resposta. Para minha surpresa (boa) finalmente entendi suas críticas aos midiagogos e me deu luz sobre o que é filosofia. Também percebi que minha pergunta sobre “diretrizes filosóficas” está muito mais ligada às minhas questões existênciais.

    • 18/04/2017 at 09:39

      Alceu! Veja, os filósofos do período helenista e, claro, também Sócrates, inventaram algo chamado “medicina da alma”. Davam o nome a isso de filosofia. À primeira vista, para nós modernos, isso é o que procuramos em gurus e midiagogos e terapeutas: um modo de viver ser feliz. Também era assim para eles. Mas veja: Sócrates meu tomando cicuta, obrigado ao suicídio. Sêneca também, e por Nero, seu aluno. Ora, eles teriam aprendido então nada sobre o que pregavam? Ou o que pregavam não era uma bula moderna? Tenho um livro com o título “Filosofia como medicina da alma” (Manole). Dê uma olhada. Acho que vai me entender ainda mais.

  3. Alceu
    17/04/2017 at 14:42

    Paulo, desculpe a insistência,não estou interessado em soluções médicas, terapêuticas ou pedagógicas, mas sim em diretrizes filosóficas que orientem a reflexão desses adolescentes.

    • 17/04/2017 at 21:07

      Alceu filosofia não feita para isso, para dar “diretrizes para jovens”. Isso é coisa de midiagogo, de tipo Pondé ou Karnal e outros pseudo intelectuais. A filosofia é uma investigação conjunta, não tem nenhum pretensão de salvar alguém. Integrar-se na filosofia pode levar as pessoas a ter uma vida filosófica, mas isso é a prática de uma vida, não é feita por lições.

  4. Alceu
    17/04/2017 at 09:40

    Professor, li seu texto e voltei várias vezes para entender o que está dito. Como adulto, e com DNA avançado, me satisfaz, teoricamente, seus argumentos e esclarecimentos. Entretanto, não consegui, talvez por falta de compreensão clara do que escreveu, ao me colocar no lugar do adolescente, ou de mim mesmo quando adolescente, achar pistas para vencer a angústia que nos assola nessa época de vida. O senhor poderia comentar mais essa questão?

    • 17/04/2017 at 11:11

      Alceu o texto não é de médico ou terapeuta ou pedagogo. Não sei o que fazer com angústia de adolescente.

  5. Bruno
    16/04/2017 at 17:51

    O único modo de não existir mesmo é não nascer? Porque uma pessoa, mesmo morta, de certo modo, ainda continua a existir.

  6. Bruno
    16/04/2017 at 03:31

    Heidegger chegou a conhecer a crítica que Carnap lhe fez, no ensaio “A eliminação da Metafísica pela análise lógica da linguagem”?

    • 16/04/2017 at 07:53

      Heidegger respondeu aquela crítica e outras antes delas existirem. Cá entre nós, a crítica de Carnap só impressiona que não leu Heidegger.

  7. Clóvis
    15/04/2017 at 17:58

    Não tenho dados precisos, mas sei que o número de suicídios é maior entre mulheres. A mulher é bem fazeja na rotina, talvez numa abordagem evolutiva, mas a contemporaneidade tem a chamado para sair desta mesma rotina. Uma mulher empoderada quer sair da rotina (sem sair dela), ou seja, quer um homem/mulher que a realize não ontologicamente mas como uma personagem épica em busca da catarse (que nunca chegará).
    Sobre a ética dialógica proposta por profissionais, o argumento é auto-anulador – o jovem não quer ”diálogo” mas construir a própria percepção de mundo. Aliás, a ética sempre está como bisbilhoteira, mesmo que seja renegada até por profissionais da filosofia (vide a musa Marcia Tiburi que classifica o suicídio como ”anti-ético).

    • 15/04/2017 at 20:08

      Clóvis tomar a Márcia Tiburi como profissional na filosofia é algo que eu não tenho coragem de fazer, é muita falta de pudor e respeito com a filosofia. De resto, eu faço filosofia, não ciência, não lido com estatística. São irrelevantes para o que escrevo.

    • Orquidéia
      16/04/2017 at 07:38

      Ao Clóvis.

      Tive depressão quando menina,e me deparei com a “falta de sentido”.
      Nessas horas,por mais que a criatura queira completar a própria experiência,ela precisa ser ouvida e ouvir as pessoas.
      Foi doloroso não poder dividir o problema com ninguém.
      Enfim,me superei e estou aqui.

  8. Guilherme Picolo
    15/04/2017 at 11:22

    O estudo sobre a sociedade da leveza de Sloterdijk, sobre esse tema, poderia confirmar as conclusões de Durkheim sobre o suicídio, motivados pelo que o francês chamou de anomia, intensificado na pós-modernidade?

    • 15/04/2017 at 11:44

      Durkheim disse que o suicídio vem do tédio? A sociedade da leveza recria o peso, em algum nível, visa se livrar da “insustentável leveza do ser”, e com isso equilibra as coisas. O velho Luhmann na cola de Sloterdijk. Isso é um dado, agora, sobre o resto da sua frase, hpa um erro eu acho: anomia é algo com o Haiti, onde a polícia já é internacional, ou Serra Leoa etc., isso não tem nada a ver com pós-modernidade. Durkheim viu a anomia como situações de completa desorganização social, fim do estado etc.

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