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28/05/2018

Pablo Vittar é nossa Pin-up de fim de ano


[Artigo para o público em geral]

Houve um tempo da Xuxa. Houve um tempo da Carla Perez. Agora é Pablo Vittar. Há algo no ar que ordena que se possa caricaturizar a sensualidade de Michel Jackson e de Anitta. Se o verbo “caricaturizar” for ofensivo a clubes de fãs (de qualquer lado), use “estilizar” então. É só isso. O Entertainment é isso.

Figuras de longas botas em corpos esguios e bem definidos, fazendo gestos adrede preparados, quase em forma de dança, lembram prostitutas e super-heróis. Ou melhor, prostitutas e super-heróis são formas pelas quais prostitutas e super-heróis se descobriram como figuras mantenedoras de atração da imaginação adulta e da prática infantil no século XX. O século XXI apenas trouxe tudo isso para o homem e mulher comum, aperfeiçoando a imagem do que nos anos setenta chamávamos de andrógeno. A palavra caiu de moda, mas a silhueta e as técnicas ficaram. Qualquer garota ou garoto sabe disso. A moda atual é se vestir com super herói, de calça colante na rua. Ou de prostituta.

Carla Perez e outras gatas de botas faziam os pais se deliciarem enquanto eles podiam, ao mesmo tempo, ver tudo aquilo “em família”, dado que as crianças imitavam. A indústria do brinquedo não titubeou em fazer de Carla Peres uma boneca. Outras apresentadoras-cantoras-dançarinas-quase-atrizes fizeram o mesmo. Que tal unir Mulher Maravilha, Bat Girl em uma pessoa de carne e osso capaz de ser uma versão da Barbie? É a festa do corpo entrando para a sala de estar da família brasileira. Dançamos todos “na boquinha da garrafa” até mesmo em festa de Natal. Fizemos isso antes, com chacretes, boletes e coisas do tipo. Se agora a sensualidade e a sensibilidade mudaram, que seja então Pablo Vitar a Anita do momento, para uma população que nem de música precisa. Música e entretenimento não são a mesma coisa – putz! É preciso explicar?!

Os conservadores (sim, eles ainda existem, dado que até bolsonarista ainda existe!) têm um imensa dificuldade de entender a sexualidade de todos nós, e o vínculo dela com a imaginação, e não com outra coisa. Sexo é 90% de imaginação, 5% de amor e 5% de prática. E sexo e vida não se separam. Brincar de Batman também. Ser o Batman também. Essa ludicidade que se associa ao sexo é visível e comum nos mamíferos: filhotes de gatos e cães brincam de “luta”, que nada é senão jogo que irá se repetir como jogos corporais sensuais mais tarde. Há um treinamento corporal para a caça, em duplo sentido. É nesse universo que Pablo Vittar, como Carla Peres, fazem o fio condutor da infância se ligar ao nó da idade adulta. Tudo na roupagem que inauguramos há mais tempo, com Flash Gordon. Aliás, que se note aí o nome, sempre no âmbito do relâmpago, da luz, da ideia daquele que é rápido, que vem como Napoleão a cavalo (a Razão, na imaginação de Hegel) para fazer a modernidade vingar, e mostrar que a sua marca é o passar rápido. Passa na velocidade da luz. Também o gozo é rápido. Tudo é rápido na sociedade moderna.

A indústria do entretenimento aprendeu que existe não por causa de que Pascal descobriu que os homens se entretinham com um coelho ou uma bola, mas por causa de que Disney sensualizou a rainha má, trouxe a Branca de Neve para o campo da pornografia, e foi completado pela equipe de desenhistas que ilustraram Stan Lee, de modo a fazer Thor chegasse ao cinema com cabelos sensuais, forçando os seios da Viúva Negra Scarlet Johansson não nas sua mãos, mas para fora da cena. Pablo Vitar faz parte do mundo de Volverine.  E todos sabemos que Magneto é gay. Afinal, quem atrai (ferro)? Gay no filme e na vida real. Mas o que é o real nesse mundo de prostituição, heroísmo e machismo oficializados como o correto?

Sim! Machismo! Pois esse é o mundo em que a mulher mais gostosa, Pablo Vittar, é homem.

A crítica ao Entertainment vinda dos que dizem “prefiro ler um bom livro” nunca será boa, porque os que dizem isso vão ler 50 Tons de Cinza e se acham intelectuais por escutarem não o informativo Jornal Nacional, mas sim a bancada da ignorância do Jornal da Cultura. Essas pessoas não podem viver os tempos de Xuxa, Carla Peres e Pablo Vitar. Essas pessoas são apenas tentativas de motoristas de Uber, mas com a mentalidade de De Niro em Taxi Driver. O Show Business lhes é ininteligível. Imagine algo um pouco mais sofisticado, então!

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

Gravura: desenhista Márcio Ayres

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