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17/08/2017

Os estúpidos do marketing são estúpidos comuns


A é o conjunto de pessoas que resgatam animais na rua. B é o conjunto de utilizadores de celulares no trânsito. C é o conjunto de pessoas que já mataram alguém (pessoa ou animal) por conta de distração no trânsito. W é a intersecção desses conjuntos. Como na figura:

A é o conjunto que uma certa propaganda do governo federal (figura de capa) qualifica como “gente boa”. “Gente boa” não mata, por definição. Mas W, que é A, mata! Então W precisa desaparecer. Mas por que chegamos a W? Ou ainda: por que A, do qual foi escolhido W, é o protótipo de “gente boa”?

Foi por consenso? Não! Qualquer pessoas que quisesse criar um impacto visual por meio de associação entre “gente boa” e morte, para gerar o efeito do não uso do celular no volante, deveria colocar na berlinda o usuário do celular em geral, não um grupo especialíssimo (vejam o tamanho de W na figura). Colocar um grupo de usuário típico, comum, em situação capaz de gerar um bom estrago – pode-se variar tal ideia e ter mil boas chances de fazer bom cartaz, boa campanha. A escolha dessa parcela W aparece como aleatória demais – e de fato é. O resultado soa discriminatório. Poder-se ia consertar isso, caso os dizeres fossem: “você resgata animais na rua, mas se usa celular no volante, você mesmo pode colocá-los em risco, matá-los”. Isso faria mais sentido. Todavia, ainda assim, seria uma campanha com um foco restrito.

É verdade que, em certas circunstâncias, “gente boa”, ou seja, gente que tem tudo que achamos nobre, mode matar. Homicídio culposo, aquele no qual não há intenção de matar. Mas escolher a “gente boa” como ela foi escolhida na propaganda em questão, é algo de quem não sabe lidar com a verdade. Faz uma escolha tão específica, ao menos por conta dos dizeres da campanha, que a questão do celular, da morte, do trânsito etc., cai logo para segundo plano. Vem para o primeiro plano o grupo escolhido, que emerge como discriminado, e mais ainda que isso, entra em cena na atenção de todos o publicitário que fez campanha: ele é alguém que não podia ser publicitário, ele pensa errado, se é que pensa. Tanto é verdade que é isso tornou a campanha famosa: todos querem saber quem é “o cara” – para não contratá-lo!

Lembram quando denunciei aqui aquelas pessoas que fazem relações de implicação lógica que são falaciosas? É mais ou menos parecido com isso, isto é, com o serviço desse publicitário governamental incompetente. Aquele tipo de pessoa que cai como colunista de jornal e então, sendo o sabichão que fala de tudo, diz “protege animal, mas defende o aborto”; ou então, “se diz protetor de animal, mas mata baratas” etc. Ou ainda aquele que fala “não mata seres vivos, mas se esquece da cenouras”. Tem até aquele que insiste em coisas do tipo: “você fala que o PT rouba, mas o PSDB também rouba”. E por aí vai. Implicações que não implicam e frases que recortam o desnecessário ou simplesmente gente que evoca que se deve falar do que não se está falando. Ora, não se está falando de alguma coisa e, não raro, do que não se está falando não se está falando – e ponto final. Não é o caso.  Essa coisa de achar que gente que comprou um vestido preto tem que, logo, elogiar e comprar um vestido branco, não é raciocínio, é produto de uma mente estragada.

Chega hoje ao posto de trabalho gente que não sabe trabalhar com o nosso português, gente que não percebe o que é e o que não é uma implicação lógica, gente que não sabe lidar com teoria dos conjuntos de um modo simples, pessoas que perderam as técnicas simples de criar causas que façam efeitos desejados, não os indesejados. E por aí vai. É uma geração inteira, que já está até para além dos 40 anos, que deve ter feito o ensino médio na periferia de Cataguatirituba da Serra, uma cidade que é provável que fique lá em algum sul do país, numa fronteira com a Terra do Nada, mas com metrô direto para São Paulo e Rio de Janeiro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 04/01/2017

PS: a figura da mulher na propaganda é mais uma coisa tola: as companhias de seguro de automóveis fazem o carro de mulher pagar menos seguro que o dos homens, pois as pesquisas mostram que elas cometem menos infrações no trânsito, são mais cuidadosas e atentas. Até nisso o tal publicitário conseguiu errar!

 

 

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5 Responses “Os estúpidos do marketing são estúpidos comuns”

  1. Samuel
    28/01/2017 at 23:49

    Mas e se se tratar de uma série de cartazes? cada um enfoca uma certa classe de pessoas, geralmente consideradas “gente boa”. “Quem faz trabalho voluntário pode matar”; “quem doa para asilos pode matar”; “quem cuida de seu jardim pode matar”. A mensagem fica óbvia, como óbvio é o texto do cartaz. Mesmo gente boa mata. O óbvio aqui é que não há nada de específico “contra” seja lá quem for.

    • 29/01/2017 at 00:41

      Samuel, não é possível que você não tenha sentido do que é lógica.

  2. Paulo
    04/01/2017 at 15:54

    Pela sua lógica B deveria esta contido em C, favor corrigir

    • 04/01/2017 at 16:48

      Sim, você estava correto, mas eu não errei no desenho, eu escrevi errado. O desenho representa a ideia do marqueteiro sim, eu é que na hora de escrever a ideia dele errei. Mas já corrigi o conjunto C.

    • Alguém
      28/01/2017 at 05:41

      Temos um Xeroque Rolmes aqui.

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