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25/09/2018

A ontologia de Renata Vasconcelos ou Da Mídia como praxis


Texto para a profa. Heloiza Matos e seu Grupo de Pesquisa
“Comunicação Pública e Comunicação Política” daECA/ USP

A palavra “mídia” deixa claro nossa propensão em falar do fenômeno comunicacional como alguma coisa “entre”, que ocorre “por meio de”. Nossa intuição linguística, nesse caso, revela que notamos a comunicação, que hoje não vive sem a palavra a mídia, como o que é mero canal entre polos. Mero canal. “Isso é meramente fenômeno de mídia” – dizemos. “Isso é só midiático” – completamos.

O preconceito contra o que é meio, mídia, é atroz. Temos de nadar de um ponto a outro. Viajar de um ponto a outro. Temos de alcançar objetivos, e para isso escolhemos alguns meios. Fins são importantes, meios são secundários, nessa nossa maneira de pensar. Ora, McLuhan tentou mostrar que essa intuição nossa estava nos enganando. Para tal ele lançou a expressão “o meio é a mensagem”. Um escritor do movimento piagetiano, célebre nos anos setenta, Lauro de Oliveira Lima, escreveu: “o meio é a massagem”. Infelizmente, ainda não levamos a sério isso, o fenômeno que é meio, a mídia.

Dizer que a mensagem é o próprio meio é dizer que talvez estejamos nadando para chegar a lugar algum, mas para manter a água da piscina balançando. Manter a água da piscina funcionando como água, enfim! A mensagem não deve sair de um polo e chegar a outro. Talvez a mensagem nunca tenha querido fazer outra coisa senão viver por aí “ao léu”. “Mensagens ao léu”. Esse é o recado de McLuhan. A mensagem deve apenas estar presente e causar ausências. Ela é a protagonista. Entender a mídia assim é participar do universo dos filósofos pragmatistas (Richard Rorty à frente), que nunca viram os polos, mas sim a comunicação, nunca viram os portos, mas os navios que nunca aportam, nunca viram “o Homem”, mas a práxis.

Em outras palavras: Renata Vasconcelos não está num polo e nós em outro, e o que ocorre entre nós dois é a emissão e o recebimento de uma mensagem, uma informação, um “dado”, uma “interpretação”. Renata Vasconcelos são boca-cabelo-sobrancelhas-narrativa. Essa narrativa empacotada somaticamente é um dos nós da rede que, agora, realmente recebe o nome corretamente: Internet ou WWW. Em suma, somos corpos que se tornaram estações de transpassamento de setas de todos os lados, e segundo nossa constituição corporal retransmitimos essas setas, algumas delas levam pedaços nossos, outras só mudam de direção, outras setas somos nos mesmos que criamos e lançamos. Somos estações de produção e retransmissão de mensagens que estão “ao léu”. Assim, a própria mídia ou a rede se torna uma figura de mil rostos. Formam o Principal Habitante da Terra. Qual a sua prática? Ser meio, ser mídia, e ao mesmo tempo viver. Viver para esse monstrengo é fazer com que a rede, cujos nós são cada indivíduo no Planeta, respire, continue fazendo seu sangue correr por todo esse grande corpo que forma a própria integração TV-Internet-Rádio-lmpresso-Renata. Somos parte desse corpo do monstro. Cada um de nós é um renatóide em potencial e em atividade.

Retratos da vida desse monstrengo? Três deles: o filme Her, o recente caso dos robôs que criam notícias eleitorais ou fakes, e finalmente a Tay, a Inteligência Artificial criada pela Microsoft que se tornou fascista. São rostos que a práxis deste ser que é a mídia adquiriu para chamar a atenção, mas que escondem – e fazem aparecer – milhares de outros rostos aqui e a acolá a cada minuto. Em todos eles a prática significa: a vida privada chegou ao fim. Em outras palavras: finalmente e realmente chegamos a uma situação pós-moderna. A modernidade criou e fez valer a separação entre esfera pública e privada, mas a situação atual – pode-se chamá-la de qualquer outra coisa se o termo pós-moderno for datado demais – é a de fim dessa separação pela eliminação de uma das esferas.

Se Marx estivesse entre nós ele falaria algo assim: “a missão civilizadora do capital” está atrelada “a um espectro que ronda” os continentes, o espectro da mídia. A imagem de espectro é boa. Não sabemos onde a Internet está. O virtual não é o real mas, ao mesmo tempo, é não só o real como produtor dele. Há um espaço virtual que é surreal. Produtor em um sentido do Mickey Mouse de Disney, no filme Aprendiz de feiticeiro. Os filósofos frankfurtianos viram Mickey como a imagem do capitalismo: um acontecimento que desperta forças que ninguém mais controla, muito menos os capitalistas e seus arautos em universidades e puteiros. Nunca a ideia de Nietzsche de ação sem sujeito foi tão clara agora. A ideia de uma práxis impessoal que põe tudo para andar e não chega a lugar algum, pois é andar é para andar somente. Andar para que todos que andam vejam que estamos todos andando. A ideia básica aqui é de Guy Debord, a de que que não vivemos mais, na sociedade da mercadoria que é a “sociedade do espetáculo”, uma situação da dicotomia “ter versus ser”, pois o centro da práxis hoje é o aparecer. Nosso ontologia atual que, enfim, os pragmatistas poderiam chamar de práxis, nada é senão o aparecer. É preciso que o espetáculo não pare. Aparecer é parecer.

Como criarmos uma agenda de leituras para essa sociedade em que a ontologia se faz pela mídia?

Sloterdijk nos dá a chance de ver as origens da solidariedade em nossa sociedade, lembrando que somos frutos de um plus –  o “mimo” de uma “sociedade da superabundância”. Mas também ele fala do mimo como “leveza”. A sociedade ligeira e leve é um campo sociológico descritivo de Lipovetsky. Junto disso talvez tenhamos de olhar um pouco essa nossa sociedade por meio da noção de transparência – e aí os estudos de Byung-Chul Han podem ser uma boa pedida. Essa agenda de leituras nos ajudaria a compreender a práxis de nossa racionalidade-irracionalidade atual? Não sei. É um caminho.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 06/12/2017

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One Response “A ontologia de Renata Vasconcelos ou Da Mídia como praxis”

  1. Thiago Dantas Fajardo
    20/12/2017 at 08:19

    Professor, obrigado por nos trazer boas reflexões e bons livros. Seu trabalho é importante para nós.

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