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20/02/2020

O youtuber é ele próprio a fake news


Youtuber é um animal jovem. Jovens têm problemas. Eles não sabem que “juventude” é algo que precisa acabar o quanto antes. Aliás, existia uma pichação na Av. Rebouças, em São Paulo, que dizia tudo: ” ‘a juventude é uma só’ – ainda bem, ninguém aguentaria duas”. Há, no entanto, aqueles que chegam aos trinta anos e quarenta anos e querem ser jovens de cabeça. Ou seja, fracos cognitivamente e inexperientes. Falam não como sabidos, mas como sabichões.

O erro de nosso tempo é fazer como Hitler: invocar a juventude como meio e fim para tudo. E nesse  movimento, vem o segundo erro, o de acreditar que o youtuber tem o poder que ele acha que tem. Não tem. Boa parte dos estudiosos do assunto já está convencida daquilo que os filósofos há algum tempo estão dizendo: os grupos de seguidores de youtubers e de canais na Internet não mudam de opinião por conta deles, apenas se aglutinam como seguidores para escutar o grande eco do que acreditam – do que já acreditavam. Esse saber filosófico é, agora, algo do saber empírico de várias universidades, por conta de pesquisas. O resultado é este: os formadores de opinião continuam sendo os meios mais tradicionais. Grandes escritores, jornais confiáveis por tradição e eficiência, intelectuais incisivos – estes formam opinião. As fake news podem ter alguma influência em pleitos eleitorais, mas não tão mais que aquelas lançadas pelos próprios candidatos em suas falas de campanha, quando de antes da Internet.

Se hoje alguém diz que um candidato vai distribuir um livro nas escolas que irá transformar todas as crianças em homossexuais perigosíssimos (a espécie pode acabar!), e se há quem acredite nisso, tal coisa não vai ser mais poderosa do que foi a pergunta de Boris Casoy a FHC no Roda Viva, em 1985: “o senhor acredita em Deus?”. FHC ficou sem saída, titubeou, e há quem diga, até hoje, que ele perdeu a eleição para Jânio ali, naquele dia. Boris Casoy também acredita, pois é um trunfo, um troféu, que todo jornalista quer ter.

Mas, cá entre nós, nunca saberemos ao certo se FHC, na época ainda “Fernando Henrique”, perdeu mesmo por conta da pergunta. Temos a impressão que sim? Não mais do que hoje ficamos com a impressão de que sabemos que Haddad perdeu por conta de fake news. Claro que o PT prefere dizer que a derrota foi por conta de fake news e não por conta do antipetismo derivado da corrupção do PT. Aliás, o PT fala da corrupção como também fake news!

Todavia, hoje, temos sim pesquisas que mostram que, talvez, fake news não possam ser postas como mais decisivas do que ontem. E isso está correlacionado com o falso poder de youtubers. Eles são ponto de chegada, raramente ponto de partida. São lugares que aglutinam tarados fanáticos por política e, claro, sabujos de candidatos. São lugares em que há uma juventude carente de trabalho, sem emprego, pessoas que querem virar astro. Uns têm realmente talento. Mas os que se imaginam jornalistas e analistas, raramente possuem algum talento. Alguns se imaginam jornalistas ou intelectuais, não o são mesmo. “Ah, tenho meu canal, não sou um ninguém, com o meu canal virei gente”. Triste isso. Gente sem profissão, no estilo Olavo de Carvalho. Aliás, é significativo que muita gente assim viva não no Brasil, e tenha canal voltado para o Brasil – não conseguem emprego no lugar que moram. Possuem dificuldade com a língua de lá, e possuem um currículo mais pobre que suas próprias ideias. Eta olavismo!

A política não vai ser decidida por youtubers, mas pelo intelecto e pela sorte dos agentes reais do embate político nos partidos. Nisso, uma Tábata está correta. E os jovens da esquerda festiva do youtuber estão errados. Mas, o que não se pode negar é que alguns youtubers usam da desgraça de lugares para fazerem política – a política de pedirem dinheiro e, com isso, conseguirem o “primeiro emprego”. É um tipo de profissionalização do desprofissionalizado.

A grande máquina-empresa Youtube pode empregar você como aquele que nunca será ninguém, e então você tenta a sorte como youtuber. É uma maneira de realizar dois sonhos do capitalismo atual: gerar pseudo-empregos de pseudo empreendedores, os patrões de si mesmo. Na época do capitalismo financeiro é necessário manter a ideologia de que o capitalismo de empresas industriais ainda manda! Mas, um conselho: é melhor ter um papai e uma mamãe bem de vida, que lhe dê real sustentação para tal, enquanto você ainda não arrumou uma “treta” com alguém famoso, para roubar deles seus seguidores. O youtuber é, ele próprio, não raro, a própria fake news.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo. Autor, entre outros, de Dez Lições de Peter Sloterdijk (Vozes 2018)

54 Responses “O youtuber é ele próprio a fake news”

  1. Thompson
    24/12/2018 at 01:07

    Paulo, poderia me informar as referências das pesquisas que afirmam o Youtube como “meio de aglutinação”? Sou estudante de comunicação e seria bastante proveitoso.

    • 24/12/2018 at 05:30

      Procure nas pesquisas das universidades americanas sobre eleição Obama e Trump. Não tenho em link, só em publicação de papel.

  2. andré lima
    24/12/2018 at 00:48

    Professor Paulo e Carlos.

    Infelizmente, esse ethos youtubiano já invadiu a universidade. Meus “professores” de filosofia, na USP, pertencem à primeira leva de pessoas formadas por youtube. Imagine o que eles passam de bibliografia para nós, alunos?? Acreditem, eles passam vídeos de youtube meramente opinativos ou de militantes de partidos políticos. Agora sim eu entendi o que o Paulo vem dizendo sobre “resistir ao anti intelectualismo… Abraços.

  3. Estácio
    24/12/2018 at 00:09

    Esse comentário merece um vídeo!

  4. Paulo Roberto
    24/12/2018 at 00:04

    Ótimo texto professor!

    Algumas pessoas tem usado o senhor como trampolim!
    São fanáticos nessa coisa de ser um YouTuber de muitos views e seguidores!

  5. Ítalo Belinelli
    23/12/2018 at 23:51

    Parabéns pelo vídeo professor!! Seu canal presta serviço à intelectualidade e aos interesses realmente públicos. Faz nos percebe a realidade dramática que se aproxima. Ao contrário dos demais que só têm intere$$e$ pessoais! É o único com lucidez!

  6. Batista
    23/12/2018 at 23:33

    Ótimo texto e video, porém se vc quiser ficar postando vídeos no YouTube não desvie do foco do canal que, na minha opinião é incentivar a formação do senso crítico. Se vc observar, youtubers com milhões de seguidores estão na situação que vc menciona no texto. Como tudo é uma guerra de monetização, esses youtubers vivem de difamar todo mundo que entra no caminho deles, pq afinal de contas ninguém é santo, todos fazemos burradas e esse povo ganha seguidor de duas formas: fazendo vídeo idiota ou difamando pessoas e esses caras são bons nisso, afinal de contas, eles vivem disso. Quanto a política, tanto esquerda e direita estão cheios de oportunistas esperando uma vaguinha, olha o Frota, aquela “adevogada”, Damares, Kim, Joice, Holyday……..Não caia nessa de dar atenção a esse povo, pois o objetivo deles é manter o povo ignorante. O seu canal, por si só é muito bem conceituado, mais de 100 mil inscritos. No fim das contad isso incomoda. Já lhe disse no video da aberração dos Bolsonários, se vc cair na onde desses youtubers, o que na realidade querem, seu canal vai morrer, pois será MAIS DO MESMO, e sinceramente será um desperdício. Firme na luta, muda o foco e deixa os pseudo-tubers pra lá, ignorar é a melhor arma. Abraço

  7. Jordan Bruno
    23/12/2018 at 22:32

    Sim… os videos incentivam ao estudo da filosofia…
    Ora! mas quem ta acompanhando desde o hora da coruja já sabe… comecei a estudar filosofia (UFPI) por causa dos programas e para estudar richard rorty…

    Quanto ao clima youtuber invadir a universidade? já invadiu, mas o olavismo chegou muito antes! os professores descuidaram porque não levavam a sério!

    Abraço!

  8. christian bale
    23/12/2018 at 14:27

    Professor a infantilidade dos formadores de opinião da esquerda não atrapalha a própria esquerda?

    “Seremos resistência”
    “Golpistas”
    “Coxinhas”

    • 23/12/2018 at 19:24

      Sempre atrapalhou. Veja meu artigo sobre o BBB, sobre a moça que professora, que foi a primeira a sair do BBB

  9. Evans Mith Leoni
    23/12/2018 at 12:46

    Querido Professor, saudações.

    Outrora o Sr. me indagou acerca da resistência, penso que esta é a única atitude plausível nos dias de hoje.

    Nesse sentido, suas explanações são altamente elucidativas.

    Com isto, Professor, o Sr. poderia falar acerca da recente medida anunciada pela futura ministra da agricultura, consistente no completo afrouxamento da inspeção em frigoríficos.

    Além disso, a medida da Ministra possibilita também alterar o regime de dias e horários aos quais são submetidos os funcionários dos frigoríficos, poderão trabalhar “direto”, isso por si só pode ser causa de grandes desastres!

    Sinceramente, sem exageros, vemos se descortinar o circo de abominações que o governo Bolsonaro apresenta para nós, até mesmo carne podre podem acabar oferecendo para a gente!

    Caro Professor, penso, enfim, que ultrapassada essa época de excepcionalidade e demência, a qual estamos convivendo, esses agentes públicos deverão ser responsabilizados, de forma penal, civil e administrativamente, pelos danos causados ao País, à população e, sobretudo, à natureza.

    Um grande abraço Professor!

  10. mathaus
    23/12/2018 at 09:04

    Quem está tentando torna a internet um “lugar serio” são as empresas de TI. alias, o ultimo esquema de pirâmide dessa galera são as criptomoedas ou “dinheiro de mentirinha”.

    sim , eu sei que o dinheiro do nosso sistema financeiro não tem lastro, mas agora a coisa ficou extremamente metafisica, deixamos de acreditar em alma para acreditar em numeros em uma tela.

  11. Orquídea
    23/12/2018 at 08:41

    Esse pessoal do YouTube é tão barulhento (kkkkk…), agora estou sempre lá, Professor, para ver seus vídeos e os de ciência- dos poligonautas.

  12. João Batista
    23/12/2018 at 00:48

    Ótimo professor não há porque pedir desculpas sua análise está na medida certa e dose mas por mais você fale eles não vão entender pois são tapados

  13. Nathália
    22/12/2018 at 23:00

    Sou resistência e suas ideias me fortalecem cada dia mais, Paulo!

  14. Sandra
    22/12/2018 at 22:11

    Ótimo texto professor!

  15. Jovenita
    22/12/2018 at 21:39

    Aprendendo sempre gostei do que li

  16. 22/12/2018 at 21:29

    Primeiro via o YouTube como um potencial de nova ‘ágora antiga’ grega, radicalmente mais inclusiva.

    Vendo superchats de lives, patreons, supostas doações de canais como Mbl e de partidos como Pco avalio que se trata mais da lógica do Cassino de Las Vegas do que da ágora Grega.

    Por que?

    A cidade antiga tinha problemas (guerras, obras, justiça local)e os seletos cidadãos discutiam saídas para seus dilemas. Parece que o único problema atual é se auto-promover por meio de dinheiro. E que é esse o único problema a se resolver por meio da utilização de qualquer outro tema particular ou público.

    Bolsonaro e suas oposições foram obrigados a adaptar-se a esta nova lógica que tem como máxima aberração a robotização de comentários e views para o logaritimo do youtube colocar seu video como destaque e gerar mais acessos para ter mais grana e proeminência.

    Na ágira grega á a crítica que nem todos são inclusos por não serem cidadãos, nas formas digitais de debate é mentita a horizontalidade, pois existe uma possibilidade de um jogo sujo comprado pelo dinheiro que define qual é a regra do jogo e os vencedores.

  17. Ionara Nunes
    22/12/2018 at 20:56

    Olá Professor Paulo Ghiraldelli,

    Já venho acompanhando seus vídeos há algum tempo e confesso que fiquei estupefata com tamanha realidade em nossos jovens. Não querem ler livros, querem acompanhar youtubers. Isso me preocupa, tanto quanto fiquei preocupada quando falei para um ex-professor da faculdade de Direito que Olavo de Carvalho não é filósofo. Ele começou a tentar me desqualificar por isso. Outros grosseiramente também tentaram, mas segui firme na crítica. Assim como eu procurei ler e aprender na escola, respeito quem o fez. Fui chamada de tola. Percebi a irritação de um homem só porque não concordei com ele. Também por ter feito muitas perguntas que ele não aceitou…enfim…a burrice parece estar sendo glorificada. Pensar, nem que seja um pouquinho, virou lugar de subversão. Acompanho seu canal justamente por isso.

  18. Joseilson Moisés
    22/12/2018 at 20:42

    Mesmo descrente de que alguém se dê ao trabalho de realmente aprender algo diferente e de ter o gesto de humildade de rever conceitos e posicionamentos assistindo vídeos como os seus que sao de um conteúdo raro de se ver no YouTube, tenho a fortíssima impressão de que por acompanharem seus vídeos muitos já se sentem incentivados a estudarem filosofia, a ter um maior respeito pela figura do professor e respeito pelo aprendizado formal e, por último mas não menos importante, o senhor certamente desperta em muitos recalcados inveja por não terem investido mais em sua formação acadêmica. Esses últimos esquecem que devem ter a humildade de trilhar seu próprio caminho não esquecendo que a capacidade didática e carisma que o senhor demonstra não se aprendem tão facilmente. Não tome minhas palavras como bajulação e sim admiração sincera. Me acostumei a acompanhar seus vídeos e acho muito proveitosa a mescla de temas políticos atuais e conceitos filosóficos didaticamente esmiuçados. Abraços.

    • 23/12/2018 at 13:29

      Moisés, a ideia minha é sempre essa: incentivar. Os que me agridem não conhecem a palavra “motivo”.

  19. mARISTELA nUNES
    22/12/2018 at 20:41

    aH! ia ME ESQUECENDO: O CANAL( SERIA CANAL RETAL?) DA MOÇOILA NO yOTUBE, CHAMA-SE eTINIA bRASILEIRA.

    • 23/12/2018 at 11:45

      Canal retal! Maristela, acho que você aceertou!

  20. mARISTELA nUNES
    22/12/2018 at 20:36

    O professor, por acaso, conhece uma tal de Lívia Zaroitti que, à semelhança de Olavo de Carvalho, mora encastelada em Milão, na It´lia, de donde ela, ex-modelo fracassada tal como o ex-astrol´gogo, destila, palavrão após palavraão, todos o seu besteiro estúpido?E O SENHOR, AGORA É A SUA MAIS NOVA PRESA, NA QUAL ESSA MOÇOILA DESCARREGA TODA SUA RAIVA, TODA SUA BOÇALIDADE.

  21. Guilherme dias. Santos
    22/12/2018 at 19:51

    Gostei professor, belo texto, repensar o sentido do trabalho trans historico.

  22. ISABELA DO NASCIMENTO NOGUEIRA
    22/12/2018 at 19:37

    Eu fiquei pasma com os ataques no YouTube ao Ghiraldelli. Ótimo artigo. Professor, avisa para essa turma feminista do YouTube que vamos enfrentar gente asquerosa e mentirosa como o Cabo Anselmo, que entregou a própria noiva grávida para ser torturada.

  23. Rody Cáceres
    22/12/2018 at 19:04

    O youtube é a evidência de que estamos bem abaixo do esperado como civilização. Não só o YT, mas o Facebook e todas redes sociais. E o Brasil, até onde sei, é um dos maiores usuários e criadores de conteúdo do mundo (em quantidade). Ou seja, o que tá ruim no mundo, aqui tá pior kkkkk

  24. Neide Franceschi
    22/12/2018 at 17:47

    Muito bom texto , professor ! Eu e meu filho gostamos muito de seu s textos
    São meus 2 canais q me alimentam .do saber . Ele cursa filosofia na Unicamp .Foi ele que me apresentou a você.

  25. Hugo
    22/12/2018 at 17:37

    São bem covardes muitos desses youtubers, quando o bixo pegar, batata, serão os primeiro a fugir. Uma pessoa não aguenta um “burra”? Imagina quando começar as cacetadas do governo

  26. érico
    22/12/2018 at 17:34

    Gostei muito.
    Professor, o senhor precisa se vestir de tartaruga e preparar o casco. essa molecadinha vai se unir pra bater no senhor. abraços.

  27. Fi Zinho
    22/12/2018 at 17:27

    Com todo respeito. Este texto é FODASTICO! Paulo você é o kra. Sabe muitooooooo!

  28. Juliana Oliveira
    22/12/2018 at 17:02

    Excelente professor!!!Firme na resistência!!!

  29. Leandro
    22/12/2018 at 16:50

    Obrigado pelo texto, Prof. Paulo. Nevrálgico!

  30. Carlos
    22/12/2018 at 16:41

    Tenho certo receio dessa ethos youtubiano invadir o campo universitário e, por consequência, difamar ainda mais a verdadeira e árdua intelectualidade.

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