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19/08/2017

O irmão gay-heroi de Vladimir Nabokov


Imagine uma mulher dando à luz ao fruto de um estupro. “São gêmeos!”, dizem as tias a respeito do que têm em mãos. Então, em meio ao sangue elas notam que algo saiu errado. Não são propriamente gêmeos, mas alguma coisa com um corpo e duas cabeças. E vive! Não sabendo direito o que fazer e horrorizadas terminam por seguir a praxe, mostrando o recém-nascido à mãe. Uma mãe pode amar o filho vindo de um estupro, talvez até mesmo gêmeos grudados, mas um monstro é um monstro – é sempre um monstro. Então, a mulher não aguentou e sucumbiu. Morreu ali mesmo, na cama que acabara de gerar uma vida, ou melhor, duas. Ou uma?

Foi assim que nasceram Lloyd e Floyd. Eles seriam os personagens de Nabokov para um romance centrado na vida amorosa e sexual de gêmeos siameses. Mas Vera, esposa do escritor, interrompeu o escrito. “É melhor não!” – pensou ela.

Nunca saberemos o que fez Vera, crítica primeira de Vladimir Nabokov, segurar as mãos do marido. A vida amorosa e sexual de uma menina nas mãos de um professor adulto bem mais velho, isso já não seria um escândalo suficiente para América? Para que mais monstruosidade, não é verdade?

Não sei se Vera pensou assim. Talvez ela tenha pensado em outro tipo de dissabor desnecessário, posto ali no horizonte do marido. Escrever algo sobre uma criança dupla, sobre um jovem duplo, pessoas ligadas por uma ponte que é o corpo comum, seria tão doloroso quanto viver sob tais condições, ao menos para Vladimir. Vera certamente sabia isso que os scholars só agora começam a dar mais importância: a relação de amor e distanciamento entre Vladimir Nabokov e Sergei Nabokov.

Vladimir Nabokov fugiu da Rússia em 1917, com seus pais, com parte boa da fortuna da família. Fez Cambridge e se tornou um dos mais famosos escritores do mundo. Um ano mais novo, Sergei esteve junto dele durante esse tempo, e também fez Cambridge. Mas não se tornou conhecido. Quando veio o nazismo, ele, que era gay, não fugiu da Europa. Talvez tenha ficado por causa do namorado. Iniciou uma campanha de ajuda aos que sofriam pela guerra, mas então, acusado de atividades homossexuais, foi preso e morreu em um campo de concentração, muito provavelmente submetido aos experimentos bárbaros ali desenvolvidos.

Diga-se de passagem, para que o horror possa não ficar debaixo do tapete, o campo de concentração em que Serguei faleceu não foi outro senão o que abrigou experiências específicas com homossexuais. Não se tratava apenas de receber vírus da tuberculose, como os outros prisioneiros cobaias, mas passar por todo tipo de invencionice bárbara, ligadas às hipóteses dos nazistas a respeito de homossexualidade – “cura gay”, certamente. Talvez a cura que o próprio Hitler procurava para o que sentia dentro de si.

Vladimir só soube disso bem mais tarde, na América. Não fez de Sergei um herói. Ele amava o irmão, mas, ao mesmo tempo, a homossexualidade do jovem nunca foi algo palatável para Vladimir. Não era realmente algo que deixava Vladimir Nabokov à vontade. Os scholars nabokovianos, atualmente, falam de homofobia. Não, eu não diria isso. Diria apenas que Vladimir tinha reservas para com homossexuais. Homofobia é uma palavra de nosso tempo, e não faz justiça a um filho de um liberal rico, deputado, na Rússia do passado.

Há scholars que dizem que Vladimir pode ter ficado com um pé atrás por conta de ter sido abordado, ainda pequeno, por um tio seu, que ultrapassou os limites do carinho de simples tio em relação a ele. Especulação meio tola, eu acho. Todavia, o certo é que Serguei aparece recomposto em vários personagens nabokovianos, e também na figura de Lloyd, nos siameses Lloyd e Floyd, no conto “Cenas da vida de um duplo monstro”, que nada é senão o primeiro capítulo do livro abortado por Vera.

Esse conto é um dos mais empolgantes de Nabokov. Além disso, expõe uma narrativa em que a impressão que fica ao leitor é que o autor ou é realmente um xipófago ou é um estagiário da casa de Abigail e Brittany Hansel, as famosas gêmeas loiras que, agora mais crescidas, participam de reality show na TV americana. Mas, não é nada disso, a perfeição se deve ao simples fato de que o texto é do gênio Nabokov.

Uma das passagens mais belas desse conto diz tudo da vida de Vladimir e Sergei. Eis Floyd narrando sua vida, ou seja, a vida com Lloyd, e de que modo se relacionavam:

“(…) nunca falávamos um com o outro, mesmo quando estávamos sozinhos, porque os breves grunhidos entrecortados que trocávamos às vezes (quando, por exemplo, um tinha cortado o pé, que estava enfaixado, e o outro queria ir andar dentro do riacho) dificilmente poderiam passar por um diálogo. A comunicação de simples sensações essenciais eram realizadas sem palavras: folhas caídas flutuando na corrente do sangue comum” (Contos reunidos,Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008, p. 745).

Ora, diante de uma tal passagem, é difícil dizer que Nabokov, se teve algum sentimento que hoje chamam de homofóbico, o sufocou com o amor que sentia pelo irmão. Lendo essas palavras que descrevem a estranha comunicação silenciosa entre Floyd e Lloyd, o amor aflora como pura poesia: eles podiam se comunicar sem palavras, “folhas caídas flutuando na corrente do sangue comum”. É sem dúvida uma das passagens mais lindas que já vi na literatura. Curiosamente, algo que encontramos, não raro, na literatura gay.

Esse amor fraterno enfrentou um possível nariz torto diante da homossexualidade, escapou da revolução bolchevique e, enfim, não sucumbiu diante do nazismo, ainda que a parte-Lloyd, Serguei, tenha ficado em uma vala qualquer da bestialidade da direita política.

Depois, com Sergei morto, sua memória enfrentou a censura de Vera. Mas, convenhamos, ela estava apenas querendo proteger Vladimir. Não de mais um escândalo, como havia sido Lolita, mas de um desgaste que não seria pequeno se ele fizesse o que certamente iria fazer, descrever Lloyd e Floyd em peripécias nas mãos de um tio que … que nunca saberemos o que poderia fazer. Pois a história não continuou. Seria esse tio da história algum pervertido que iria fazer o que o tio verdadeiro talvez tenha feito com Vladimir? Haveria aí o homossexual adulto, o tio, a devorar os meninos, enquanto um deles seria o homossexual herói, o que lutou contra o nazismo? Ou melhor e mais nobre que tudo isso: um tio que cuja perversão era de fato perversão, e não meras peripécias sexuais, um vendedor de corpos que são minas de dinheiro, uma vez monstros?

Na verdade, quem lê “Cenas na vida de um monstro” e não sabe nada da história dos irmãos ou de que se trata de um capítulo de um livro interrompido, irá se maravilhar com o conto. Ele parece ter fim! Todavia, quem deixa de lado por um instante a literatura, para estar junto com a filosofia, como é a minha sina, não há como não pensar nisso tudo como uma história explicativa da Rússia que hoje persegue os homossexuais. Não há como não ver como as leis contra gays, hoje na Rússia, remontam às raízes de uma cultura velhíssima, que considerava o casamento gay não algo não válido, mas um crime. Isso, depois, os comunistas nunca mudaram. Putin, que duvido que não faça na cama o doggy style para forçudos siberianos, tem feito renascer uma tal bobagem.

Há de se compreender o que é a Rússia e sua relação com o mundo gay, se vemos que mesmo um homem culto como Nabokov teve, a vida toda, dificuldades em lidar com o irmão homossexual, mesmo sendo ele próprio amigo de gays na América. Na América tudo pode!

Talvez estejamos vivendo uma boa hora para que um cineasta de mão certeira coloque Sergei Nabokov nas telas, contando uma história que agora tem vindo à tona. Uma história de amor, heroísmo e estilo literário. Uma história também de xipófagos!

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo 11/11/2016

Elena Ivanovna Nabokova with children Sergei, Olga, Elena and Vladimir

Elena Ivanovna Nabokova with children Sergei, Olga, Elena and Vladimir

 

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5 Responses “O irmão gay-heroi de Vladimir Nabokov”

  1. Rodolfo Peroche
    02/12/2016 at 11:47

    Excelente texto para trabalhar literatura com alunos do ensino médio .

  2. William
    18/11/2016 at 20:48

    O correto é xiFÓpago.

    • 19/11/2016 at 07:21

      William, a rigor, você está correto. Mas preferi manter o termo usado pelos textos da história, o que também é permitido no Português, com alguma condescendência, claro. Agora veja a Thaís Nicoleti explicando, que legal: “Os irmãos siameses, conhecido caso de gêmeos presos na altura do tórax, acima do apêndice xifoide eram “xifópagos”. O nome do apêndice, por causa de seu formato, deriva do grego “xifo”, que quer dizer “espada”. O elemento “-pago”, também do grego, refere-se àquilo que está solidificado. Assim, “xifópago” é o que está preso acima do apêndice “xifoide”.”

  3. Fernando
    11/11/2016 at 23:10

    Belíssimo texto, não conhecia esse lado do Nabokov. Impressionante a cisma dos russos com a homossexualidade, veja que até hoje tentam transformar Tchaikovsky em heterossexual.

  4. Paula Tejano
    11/11/2016 at 10:11

    Excelente texto, Paulo. Eu lhe confesso que não sabia que logo o Nabokov torcia o nariz para homossexuais. Logo ele, que não gostava de Freud, porque a psicanálise era um instrumento de domesticação do ser humano? Interessante.

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