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17/08/2018

O conceito de verdade do jornalismo nosso é arcaico e improdutivo


[Artigo para o público em geral]

O jornalismo brasileiro tem uma forma de agir e de avaliar o que entende como verdade que precisa mudar. A ideia de verdade do jornalismo brasileiro é “ouvir os dois lados”. A situação é tão ridícula que virou lei. Bonner tem que ficar lendo uma lista de desculpas esfarrapadas, cínicas, feitas burocraticamente, a cada vez que cita alguém acusado de alguma coisa errada. A mídia vai mal e a lei a faz piorar.

Mas o que é que faz a mídia ir mal? O conceito de busca da verdade que a mídia tem é completamente errado. Epistemologicamente chega a ser infantil. É motivado pela pressa, falta de cuidado e espírito de uma sociedade de consumo que não precisaria ditar as regras até esse ponto – é exagero. A ideia básica é que o jornalista ou repórter ou investigador é alguém que só tem credibilidade se fizer o papel de neutro, mesmo que, nessa neutralidade, só mostre o quanto é partidário. A TV prima por isso. Mas a praga já vem dos jornais. O resultado prático, e isso é o realmente ruim, é que as notícias nunca possuem uma continuidade narrativa e, quanto possuem, são apenas repetições. Vou exemplificar com um caso recente, mas que vale alguma generalização.

O Paissandu em São Paulo foi ocupado por famílias vítimas do incêndio do prédio que era da Polícia Federal (edifício Wilton Paes de Almeida). A tragédia foi agora, no primeiro semestre de 2018. De vez em quando a notícia sobre esse acampamento volta à mídia. E aí o Bonner (e outros) repetem: os moradores estão lá, ainda, sem assistência e sem futuro – eis um lado. E o outro lado, o governo: o prefeito disse que já paga o auxílio moradia e os que estão lá ou não eram do prédio incendiado ou simplesmente não aceitaram as moradias oferecidas pelo governo. Pronto. Fim da notícia. Uma semana depois, repete-se a mesma coisa. Eis a verdade, dado que Bonner falou “dos dois lados”. E não se pense que a Folha de S. Paulo, com mais espaço, tempo e com a benefício da escrita, faz diferente. Faz muito igual. A mídia se iguala por baixo.

Não há um jornalista para informar coisas do tipo: por que há gente que não quer sair do Paissandu? Por que há pessoas lá que não são do prédio e, então, por que elas serão desconsideradas? Por que um grupo tão pequeno de pessoas não merece uma visita do prefeito e uma solução do problema? Por que a cidade de São Paulo, que é rica, precisa ficar nesse jogo de empurra para resolver problemas tão básicos? E afinal, quem é o líder dos acampados e o que ele realmente diz? É possível colocar na tela da TV opiniões de outros, de terceiros, de técnicos, sobre o assunto? Nada disso aparece. O que digo não é que acontece ou não, digo que não aparece. Pois a verdade não é obtida pela reflexão sobre uma uma situação com informações melhoradas, mas com o “ouvir os dois lados”. Ouvir os dois lados significa ouvir uma frase da cada lado e pronto. Eis aí a informação verdadeira. É o fim da picada que um jornalista formado ainda ache que informa alguma coisa fazendo isso.

Não adianta culpar o jornalismo brasileiro dizendo que é um jornalismo pobre. A Rede Globo e a Folha de S. Paulo não são pobres. O problema do jornalismo desses órgãos é que ele está viciado em um conceito de obtenção da verdade que ninguém mais pode usar em um mundo em que a noção de narrativa mudou.

Narrativa é algo que ganhou da noção de fato pontual. Antes, a narrativa pertencia à chamada imprensa nanica ou alternativa; na época da Ditadura Militar, ou na época da imprensa operária dos anos vinte, essa mídia criava histórias, enquanto a mídia maior tendia cada vez mais a ser pontual. Ali, no alternativo e nanico, contava-se história. A grande imprensa seguia o fato cotidiano com ansiedade pela manchete. Ora, agora, com a internet, fato cotidiano, manchete vendável, rapidez, não se opõem mais às narrativas com continuidade. Mas a grande mídia continua no ouvir os dois lados, sem aproveitamento da  profundidade, da complexidades, da pluralidade, da capacidade de análise etc. E com uma desgraça a mais: a imprensa nanica e alternativa não mais existe para fornecer o contraponto. É estranho porque também as revistas semanais, que poderiam, em tese, se aprofundar, ou fazem a mesma coisa ou servem de mídia ideológica, utilizando a opinião partidária com falsa investigação.

O resultado que temos é que a fórmula do Jornal Nacional, que é de fato um bom trabalho de equipe e do Bonner, poderia melhorar – e muito. E já não é sem tempo. A Folha de S. Paulo poderia melhorar, da mesma maneira. O conceito de busca da verdade poderia sair dessa conversa infantil, pseudo-neutra, que é ouvir pontualmente os dois lados. Não dá. O Brasil precisa de mais que isso. O jornalismo precisa se integrar na era das narrativas. Faz-se necessário temos jornalistas que se preocupam em criar história com as notícias, ensejar narrativas com o que é manchete, parar de achar que ouvir os dois lados é um modo de encontrar a verdade. É necessário que os jornalistas tenham algum curso de filosofia para entenderem melhor o que significa “grande duração”. Aliás, a ideia do efêmero e pontual está tão arraigada na nossa mídia que até mesmo o Globo Repórter e a Retrospectiva Anual repetem a fórmula da mancheta curta, sem qualquer análise, sem a preocupação de construção de narrativas.

Os jornalistas de cabeça vazia, dominado pelo “tudo que vira um nada” fazem seus programas jornalísticos um nada que parece tudo. Tanto a Rede Globo – Bonner à frente – quanto a Folha possuem condições de fazer isso. Mas a teia de aranha cultural os amarra.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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7 Responses “O conceito de verdade do jornalismo nosso é arcaico e improdutivo”

  1. LMC
    24/07/2018 at 11:33

    Quando houve o caso da Escola
    Base,a imprensa não ouviu o
    outro lado-dos acusados.Eram
    “pedófilos” e ponto final.

    • 24/07/2018 at 11:42

      LMC não meu caro, você realmente tá por fora do que ocorreu e continua teimando sobre um assunto (verdade) do qual você não sabe a verdade.

  2. LMC
    16/07/2018 at 12:03

    O problema é a tal da verdade
    absoluta que existe-principalmente
    naquelas TVs que pertencem a
    políticos que retransmitem a
    Globo e suas concorrentes.

  3. LMC
    16/07/2018 at 11:48

    Antes,nem ouvia o outro lado.
    Aliás,quem não escuta o outro
    lado é aquela imprensa tipo
    Fox News ou Carta Capital.
    E esta lei ridícula é de autoria
    do senador Requião que acha
    a Globo um demônio como Brizola.

    • 16/07/2018 at 12:50

      “Outro lado” é a burrice meu caro. Todo energúmeno quer “o outro lado” exatamente porque ele imagina que a verdade é um lugar de lados. É preciso ser um completo energúmeno para achar que alguém é informado por conta de uma lei que obriga alguém publicar a resposta completamente formal. É o país da burocracia. O país da burocratização até da informação.

  4. 15/07/2018 at 08:12

    Pois é esta é a merda, Gerson. Essa lei é burra, ridícula, cafona e acaba com o jornalismo.

  5. Gerson Sabbá
    14/07/2018 at 23:58

    Perfeito quanto aos jornalistas, a busca pela verdade e a construção de narrativas. Apenas na parte logo no primeiro parágrafo onde fala de “ouvir os dois lados”, essa provavelmente é uma recomendação jurídica justamente para evitar que aquele veículo seja acusado de ser tendencioso ou de ter algum interesse escuso em divulgar aquela notícia. Ou seja, dá voz ao outro lado para se defender evitando assim que ele vá a justiça clamar por direito de resposta ou alegar perseguição.
    Quando não conseguem contato com os envolvidos dão a notícia e colocam “A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto para manifestação”.

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