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16/12/2017

Não há anjinhos na Internet


Artigo destinado ao público em geral

Virou modinha agora colunista, intelectual, professor, artista etc. virem falar de “linchamento virtual”. Cada um do seu troninho vira anjo e acusa “os internautas” de estarem “polarizando” ou “radicalizando” ou “disseminando ódio”. Todos os outros, fora ele próprio, do troninho, são “agressivos”. O problema é que mais agressivo mesmo são os do troninho. Os chamados “formadores de opinião” são os primeiros a participarem de campanhas agressivas. Aliás, qual campanha na Internet não é agressiva? Quem de nós nunca participou de alguma campanha na Internet que acabou gerando uma ofensa? Quem não repostou algo que parecia inocente e, logo depois, virou um furacão? No mundo de hoje, onde a virtualidade associada à rapidez não nos deixa pensar em consequências, temos condição de posar de inocentes?

A Internet tem se mostrado capaz de fazer atirarmos primeiro e pensarmos depois. Deveríamos refletir sobre esse nosso comportamento, que nunca foi diferente, mas que está agora potencializado pelos meios de comunicação. Já imaginou se com cada celular tivermos uma arma que vai além da rede social, uma arma de fogo? Será que Trump com seu twitter, qualquer dia desses, ainda não causa uma Terceira Guerra Mundial? Será que você, que me está lendo agora, até à noite, já não terá destruído seu casamento por conta de uma curtida na foto da vizinha do Trump pelada? Sabe-se lá quem é a vizinha do Trump!

Estamos envolvidos no olho do furacão do julgamento rápido. E isso não tem volta. A vida privada foi inventada pela burguesia, pela modernidade, e só faz sentido com a burguesia mantendo o espaço público distinto do espaço privado. Mas isso se rompeu pela tecnologia que o capitalismo colocou para funcionar. A Escola de Frankfurt já havia aludido para a potência da metáfora de Disney, colocando Michey como o “aprendiz de feiticeiro”, que fazia tudo funcionar numa mágica alucinante, sem qualquer Abracadabra que capaz de conter as forças soltas. É isso! Antes tínhamos medo dos mísseis, hoje temos medo da nossa língua no Facebook, que pode destruir casamentos e, por conta da raiva disso em época de TPM, tornar o mundo vítima de catástrofe nuclear. E não chamem essa frase de machista – homem também tem TPM. Um dia desses não destruímos só nossos casamentos, mas também o mundo, com uma tuitada!

Estamos vivendo uma época que pessoas inocentes já estão mortas. Entre os vivos não há quem não esteja no fluxo incontido da agressividade, servindo de elo transmissor de alguma bobagem ou de alguma coisa muito útil, mas que irá causar uma besteira. A liberdade sempre foi agressiva. Tornou-se mais ainda agora, quando todos podem formar partidos e ter imprensa ao seu dispor para disparar reclamações contra marcianos, incas venusianos, PMDB, Papa, Xuxa e até mesmo contra o filho do Hiroíto. Claro que a Globo é a preferida do ataque energúmeno. A sanha por memes é a antiga sanha dos que, com troninho, podiam fazer os “bordões”. Todo dia Jô Soares criava um. Era bom! Agora a democratização tosca prevista por Tocqueville fez os bordões entrarem na onda da “guerra de todos contra todos”. Não há Leviatã que nos salve! Quem resiste em não criar um meme ou um bordão nas redes sociais?

Mais engraçado ainda é ver os que se dizem corajosos reclamar disso tudo e ainda por cima vir falar que há “fakes”? Ah! vá! Verdade? Descobriram isso? Só uma pessoa vestida de girafa-gorda-com-pijama-de-bolinha pode trazer para nós a novidade de que na Internet há fakes! A Internet nasceu para proporcionar o fake. Ela é um fake. O virtual é sinônimo do fake, em certo sentido.

Está na hora dos que se acham com asinhas pararem de serem pagos.

Paulo Ghiraldelli Jr,m 60, filósofo.

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One Response “Não há anjinhos na Internet”

  1. Orquidéia
    05/12/2017 at 00:16

    Como eu já briguei na internet, pior que eu nunca sabia como começava.
    Hoje em dia, permaneço sossegadinha no meu perfil do facebook.
    E tento prestar mais atenção às minhas conversas.

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