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16/12/2017

Mário Sérgio Cortella e a demonização da Internet


Artigo indicado para o público em geral

Pascal e Nietzsche filosofaram por aforismos. Posts no facebook são aforismos. Podem não ser filosóficos, claro, mas são o que se pode fazer com a cultura que temos, com a escola pública que temos ou, melhor dizendo, não temos. Escritores brasileiros foram brilhantes com aforismos. Quem nunca se deleitou com Ponte Preta ou, mais terrível ainda, Millôr? Na Internet encontramos hoje gente sem fama, mas com muito talento – tão bom quanto esses dois. Não são poucos não!

Meu amigo Mário Sérgio não acerta ao dizer que a Internet favorece a imbecilidade por conta de ser um rio de frases que não são fundamentadas (veja aqui na Carta Capital). Já houve épocas que jornalistas e professores publicavam textos de três páginas no Estadão, e eram fundamentados. Mas eram lixo puro. Não é por conta de fundamentos e grande tempo de reflexão que se faz bom texto. E não se pode dizer que todo repentista é uma besta. Alguns são geniais.

Cortella é, como eu, da velha guarda. Somos do lápis e do livro impresso. Somos do falar pensando. Mas o problema é que ele já se acostumou com a fama e com o fato de ter seu trono na mídia. Aliás, uma boa parte de nós, professores, por termos sempre alguma plateia, não entendemos que a raiva das pessoas que não tem plateia, contra nós, é proporcional ao fato delas acharem que nós, ao falarmos, impomos nossas verdades, e elas não. Em parte isso é  correto da parte delas. E nisso se apegam os populistas quando atacam a mídia, como a Globo, ou atacam a nós, os intelectuais, para angariar apoio desses que ficam ressentidos por termos nossos palcos. Termos os nossos palcos cativos, agora, pela Internet, fica ameaçado, não é verdade. Vemos gente imbecil com palcos e começamos a achar que isso é o mal do mundo – o palco para imbecil. Mas a presidência da República vive tendo imbecil, é uma baita palco.

O palco do Cortella, hoje, é maior do que de outros. Maior que de muitos. Ele já não é mais um professor, é um showman. Ele faz um bom trabalho: induz grandes públicos a boas ações com uma retórica humanista. É um dos poucos dos palestrantes atuais que não cede ao banal, como o seus amigos fazem, ou ao pessimismo blasé, como seus adversários na direita arrotam. Mas a visão dele da mídia está calçada, ainda, pelo preconceito que todos nós temos um pouco. A Internet está competindo com ele, todos falam como ele fala, todos tem troninho, e isso assusta. Há muita gente do meio dele e meu que resistiu à Internet.

A Internet assusta aos que não se acostumam com mudanças que, em geral, são democratizadoras, se considerarmos o vagalhão ininterrupto da modernidade (mesmo sob regimes autoritários, tipo fascismo e comunismo, a modernização não parou). A democratização faz com que a patuleia fale, possa falar, e ela faz aforismos que não são os de Pascal e Nietzsche. Mas que são, também, até melhores às vezes. Muita gente só conseguiu trabalhar porque, com a Internet, furou o bloqueio natural da mídia tradicional. Não, não estou louvando imbecilidade de youtuber, estou apenas  dizendo que vivemos num mundo onde todo mundo lê a Bíblia na sua língua, e não mais no latim, entendem?

Até Umberto Eco já cometeu o erro de Mário Sérgio, de achar a Internet um poço de fluxo dos imbecis. Portanto, Mário Sérgio está em tão boa companhia, que está perdoado. Mas que está errado, está. Aliás, um erro que muitos, à direita e à esquerda, estão cometendo também ao ficar falando que vivemos num clima de ódio fomentado pela internet (me contrapus a tal tese em outro  artigo: Não há anjinhos na Internet)

O que ocorre com a Internet é que ela é, como o próprio nome diz, uma rede. Cada nó da rede é um produtor mas, ao mesmo tempo, um retransmissor de mensagens. No conjunto geral a autoria se desfaz e a colcha de retalho produz monstros. Mas a monstruosidade do mundo apenas reflete a nós mesmos, e isso é uma questão de graus. Se olharmos a imprensa em geral do passado, aquela que supostamente tinha tempo para refletir sobre o que fazia, veremos linchamentos não jornalísticos somente, mas a provocação de linchamentos reais. Ou as pessoas acham que sem jornal andando por aí Vargas teria metido um tiro no peito? Ou as pessoas acham que sem rádio os grandes líderes fascistas teriam tido ascensão. Ou alguém ainda acha que sem o sistema de cartas  do correio americano a West Point teria massacrados os índios?

Mário Sérgio se esqueceu que Remington é nome de rifle e máquina de escrever, e não à toa. A história disso diz muito de nós.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: espero que ninguém leia esse texto e diga, em resposta: a internet tem coisas boas e coisas ruins – não escrevi essa mediocridade, literalmente, a media.

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3 Responses “Mário Sérgio Cortella e a demonização da Internet”

  1. LMC
    06/12/2017 at 12:06

    E as merdas que Trump
    diz no Twitter são o quê?
    Um poço de imbecilidade,PG.

  2. Tony Bocão
    05/12/2017 at 16:19

    Essa filosofia do estranhamento sempre me jogando água na cara.

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