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24/10/2017

O banco que comprou Fernanda Montenegro e Pondé, e pagou pouco!


Adoro mulher nua. Mas, confesso, sinto um certo orgulho ao ver uma atriz passar uma vida toda sem aceitar posar para a Playboy. Já vi atrizes fazerem isso e confessarem, discretamente e, por isso mesmo, de modo louvável, que assim agiram por não se dobrarem ao dinheiro. Não vai aqui nenhum elogio ao moralismo barato, todos sabem o quanto sou avesso a isso. Nem está aqui alguma crítica banal, feita na base do jargão tolo, ao capitalismo. Todos sabem que tomo o capitalismo historicamente, como mensagem de suavização de relações por meio do mercado. O que digo é que sinto certo orgulho quando alguém é sobriamente “do contra”, alguém que por decisão própria se põe contra o vagalhão de Netuno e, com barquinho da madeira, diz ao deus do tridente: “vou navegar contra o seu desejo!”. Há algo de heroico nisso. Há algo de brioso, timótico, nessa atitude.

O capitalismo diz: “tire a roupa, eu pago”. E uma mulher, sem feminismo e sem qualquer doutrina anti-capitalista responde: “não tiro”. Isso me dá força. Querem alguém mais comprometido com o capitalismo que Pelé? Foi garoto propaganda para viver. Até hoje faz isso. Mas jamais aceitou fazer comercial de bebida ou cigarro. A capacidade de dizer “não”, mesmo nas horas que precisou de dinheiro, valem mais, eu creio. O preço da alma é um preço que para alguns poucos sóbrios, não é pagável. Um vegetariano íntegro vale mais que todo o patrimônio, em dinheiro, da Friboi. Quem veste azul, bate no peito pelos animais, e depois come carne, é um lixo para mim.

O capitalismo hoje não é representado pelo setor industrial ou comercial. O capitalismo hoje não é mais o lugar de empresários e trabalhadores. O capitalismo é jogatina e sistema bancário. Os bancos são os donos da perversidade capitalista. Qual perversidade? A de obrigar a todos a fazer o que não querem. Ou de se degradarem e, então, se desculparem dizendo “fiz por dinheiro, quem não faria?” Significativamente, a degradação máxima que o banco pode promover é quando ele, cinicamente, define metafisicamente o tempo, e o faz em nome de uma suposta bondade bancária. O tempo agora é de propriedade não do homem, mas do Itaú. O tempo é uma mistura de Fernanda Montenegro, Luis Felipe Pondé e as frases pseudo-intelectuais de ambos (ela na TV e ele no jornais, em propaganda imprensa), apoiando a ideia de que tudo é feito para você:  “Itaú sendo digital, par você ser pessoal” (texto pobre do publicitário Nizan Guanaes). O Itaú lhe poupa o tempo, definido por Fernanda e Pondé, esses meninos que não conseguiram não se despir diante do mando do capitalismo bancário. O banco só rouba o tempo, servir a outras definições e corolários, falando o contrário, é ser desonesto intelectualmente. Participar da vontade do Itaú de se mostrar com face “intelectualóide” para servir gente “de nível” (nível da Casa do Saber, é isso?) é talvez algo pior que fazer propaganda de fraldão geriátrico.

O tempo é do Itaú, não mais de Deus ou de Newton ou do Cosmos ou de Kant. E os filisteus da cultura, denunciados por Hannah Arendt, são sim Fernanda Montenegro, que se diz atriz, e Pondé, que se diz filósofo. Uma atriz que recita o nada na TV, encarnando ridiculamente a voz do tempo! Um cara que se diz filósofo, e que aparece com um texto de garoto de colégio nos jornais, no espaço pago do Itaú, falando sobre o tempo. Realmente, a sensação que fica é só esta: por que o Itaú não jogaria na sarjeta os filisteus Montenegro e Pondé se, enfim, conseguiu comprar para si o próprio até mesmo o tempo? O capitalismo realmente é a compra do tempo. Mas quando o Itaú encarna isso e age mesmo, escancaradamente, definindo o tempo, aí sim temos a dimensão da degradação total. A degradação total é quando Pondé, o rei do cliché, se torna ele próprio um cliché ao servir ao banco dos clichés (se virem a foto que acompanha o texto, ficarão chocados, é a foto de um grande sapo num terno branco). O Itaú anuncia: “leia sobre o tempo, leia o texto do filósofo Pondé”. A palavra “filósofo”, nesse caso, é manchada, comprada, vira parte de um freak show em que o pior ainda está por vir, pois imagino que daqui a pouco veremos, sim, Fernanda Montenegro e Pondé nus na Playboy, talvez numa ceia de Natal com o Karnal. Todos brindando e definindo para nós o tempo, e o quanto vale um selfie com o Menino Jesus num presépio na casa do Karnal. Acreditem, a degradação imagética está só começando. Teremos saudades, um dia, do tempo que nosso estômago ainda revirava só com o filme dos anos sessenta, Mundo Cão.

A palavra “filósofo” podia ser poupada. Mas não será. Como a palavra “ator” ou “atriz” nunca foi. O Itaú trouxe o mundo ao prostíbulo máximo, e escolheu suas garotas. Realmente, o café da manhã que tomei … voltou!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 16/12/2016

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18 Responses “O banco que comprou Fernanda Montenegro e Pondé, e pagou pouco!”

  1. Everton Pacheco
    24/06/2017 at 22:43

    Brilhante artigo, foi direto na ferida. Lembro de um video no qual alguém pergunta ao Luciano Huck se ele acha que realmente ajuda os pobres ao fazer merchandising de uma financeira em seu programa de auditório. Resposta: “preciso pagar o leitinho das crianças”. E todo mundo achou bonito. Agora imagina um pretenso filósofo assumindo esse papel.

  2. Rita Hayworth
    19/12/2016 at 16:23

    João Batista, o senhor já deve conhecer a história de João Batista na Bíblia, não é mesmo? E o senhor já deve ter assistido ao filme “Salomé”, EUA 1953, não é mesmo?

  3. bony
    18/12/2016 at 04:37

    Uma vez uma empresa de traducao me procurou pra traduzir um manual de rifles de guerra. eu disse nao.

    • 18/12/2016 at 11:04

      Bom retorno Bony! É Bony, é isso. Às vezes quero encontrar “consciência” em texugos.

  4. Roberto W.
    17/12/2016 at 10:41

    Qual a relação entre o Pondé com o comercial 2017 do itaú? O texto é daquele?

    • 17/12/2016 at 11:05

      Ele fez texto, ou seja, o que ele tenta chamar de texto.

  5. João Batista
    17/12/2016 at 00:26

    Viva, Paulo! Estou sempre por aqui mas não tenho participado com comentários. Falta-me coragem e sobra-me a capacidade de ver minhas limitações filosóficas para tecer um comentário que possa contribuir com algo e não apenas encher linguiça.
    Tens ai paciência para ler este pequeno conto com algumas reflexões sem pretensão alguma e que poderiam ser melhor contadas numa conversa? Lá vai:
    Numa reunião de 10 anos de formados de medicina eis que chega o melhor aluno da turma, roupa surrada, chega num fusca de escapamento estourado acompanhado da sua mulher com vestidinho simples, duas crianças também modestas e logo à seguir chega o pior aluno da turma num carrão importado, esbanjando roupa, relógio e acompanhado de uma mulher com suas roupas e jóias caras, com uma beleza “de parar o transito” (como era permitido dizer na época, e que dizia muito) mas que hoje poderia causar algum tipo de reação alérgica numa feminista carcomida. Tendo em vistas que os dois eram melhores amigos na faculdade sentaram juntos na mesma mesa e depois de uns copos o primeiro toma a liberdade de perguntar ao outro como foi possível ele ter tido sucesso financeiro tendo em conta ele ter se formado sem saber o mínimo de medicina e que ele tinha colado o tempo todo, tendo aldrabado os professores e as avaliações do curso. O pior, ele mesmo sabendo tudo sobre tudo, mal conseguiu até a data adquirir bens básicos como dava às vistas ali mesmo.
    A resposta foi que isso não era questão de medicina, disse o aldrabão, e sim uma questão “matemática”. Esta resposta deixou o médico integro estupefacto. Concluindo, o malandro perguntou a outro que se considerava inteligente, qual a porcentagem de pessoas inteligentes ele calculava haver numa população, tendo definindo como inteligentes não os meros reprodutores de textos decorados, mas sim os que conseguiam pensar, ter discernimento, olhos vivos e ponderar com alguma clareza sem serem enganados ou levados como “Maria-vai-com-as-outras” (outro termo das antigas, não é, Paulo?). Após pensar, o primeiro disse que talvez uns 1 ou 2% das pessoas fossem assim inteligentes deste modo.
    O “senhor esperto” então concluiu o raciocínio: pois bem! estes 2% da população conseguem perceber que você é bom médico e eu sou um enganador e vão ao teu consultório! Sobram-me 98% que eu engano com a maior cara de pau, tiro-lhes a grana todo, invento diagnósticos e tratamentos dos mais malucos que sempre me enchem os bolsos e eles me adoram, pensam que sou o maior, que sou o melhor e mais inteligente médico do mundo, como é óbvio. E….no pior das hipóteses quando alguém tem alguma doença mais séria eu encaminho para ti que arca com coisas complicadas e que rendem pouco (fim).
    Paulo, acho que esta história que ouvi de um colega bem mais velho encaixa-se bem em qualquer outra profissão, como tu citas os midiagogos “filósofos” e “historiadores”, (entre aspas): há degradados aldrabões por todos os lados e também há tolos “a dar com pau”(mais uma expressão de outrora). Como dizia uma minha ex namorada: “é foda!, alias: NÃO É FODA NÂO!” e explicava sempre que se fosse foda seria bom, portanto como era uma merda não era foda. Eu concordava porque com ela era sempre bom!
    Deixando este devaneio de lado, acho que estes aldrabões e degenerados com a sua platéia, clientela e patrocinadores são feitos uns para os outros e casam-se na perfeição, não é foda e vai fazer o que!
    Agora concluindo com um provérbio português: quem não sente não é filho de boa gente.
    Você sente, se indigna e não se cala porque é filho de boa gente, Paulo…e eu também.
    Beba agua, e muitíssimo obrigado sempre pelos teus textos e tua lucidez.
    Eternamente grato.
    J

  6. Emisson
    16/12/2016 at 11:19

    Professor veja como o pseudo-filósofo(nem merece tal denominação porque não é nem pseudo e nem filósofo),é simplório e o que diz acaba se rebelando contra ele.Ele afirma em seus shows de stand-up,que esquerda fica criando um mundo que não existe(o que é relativamente verdade),e não conseguem entende o mundo.Todavia,o senhor pondé salienta que “o mundo dele”,seria melhor se a sociedade de mercado tomasse conta de tudo e de todos.Eis o “paraíso” do intelectual.O pior de tudo é que eu tive que escutar este cara para mostrar sua auto-contradição.Ele faz as mesmas coisas que se diz “contra”.Figuras como pondé e karnal fazem stand-up(e muito ruim por sinal),não estão nem aí para o conhecimento e para reflexão filosófica,os seus textos “cômicos” e seus shows “humorísticos” demonstram muito bem isso.Eu tenho pena como o termo “filósofo” é usado para denominá-lo e outras figuras midiáticas.Assassinaram a semântica do termo.Estão banalizando-a,como fazem com a palavra “machismo”.Os intelectuais de mercado não sabem olhar o mundo como ele é,complexo e hermético,para não se angustiarem com tal complexidade.Um sujeito diz:”o mundo é assim”.Ainda bem que a realidade está aí para esmagar essas falsas convicções.

    • 16/12/2016 at 11:25

      Emisson, quanto ao Pondé e tua trupe, tudo bem, é isso mesmo. Agora, nesse texto, aproveitei para notar o quanto o banco, o símbolo do capitalismo, dominou a palavra “tempo”, o que é duplamente irônico.

    • Emisson
      16/12/2016 at 13:19

      Realmente.Excelente observação professor.Poderíamos conversar sobre esta tentativa do capitalismo e suas intituições de transformar tudo em produto, e conceituá-lo como neste caso.

  7. 16/12/2016 at 11:07

    Professor, eu devo dizer que o senhor tem uma verve literária. Essa imagem do bonde do Karnal me arrancou um riso áspero.

    • 16/12/2016 at 11:26

      Cássio, da medo de pensar que pode ocorrer, um trenzinho entre eles, e alguma Casa do Saber publicar um selfie!

  8. 16/12/2016 at 10:36

    Sr Paulo Ghiraldelli. De um tempo para cá venho visto a Filosofia como algo tão importante quanto Português, Matemática e outras matérias. Após reflexão, conseguir concluir o motivo que realmente não dão a devida atenção nas Grades Curriculares no Ensino Médio, mas não pretendo gerar polêmicas ou debates sobre esse assunto. O Professor Pondé já deixou bem claro que é conservador e possui direcionamento político pela Direita, sendo assim o texto que escreveu não faz sentido. A atriz Fernanda Montenegro depende da imagem para sobreviver, e como sabemos, nossa sociedade é em grande maioria capitalista, sendo assim, tanto Pondé, quanto Fernanda, não se venderam barato, simplesmente atuam de forma correta para conquistar ascensão em nossa sociedade, coisa que realmente conseguiram com louvor. Peço desculpas ao não concordar com Vosso texto ao citar ambos e afirmo que temos algumas convicções parecidas, sendo que o resto do texto é muito bacana.

    • 16/12/2016 at 11:01

      Italo ser de direita é um problema, principalmente sendo filósofo. Ser de esquerda também. Agora problema maior é ser degradado e degradar. Agora, problema maior ainda é você achar isso normal. Se você gosta de gente degradada, é problema seu, eu não gosto. Achar que “eu preciso sobreviver” e então me degrado, não é ser de direita ou esquerda, é ser degradado, e quando uma pessoa posa de intelectual, com atriz ou filósofo, e faz isso, perde o título de atriz e filósofo. Essa avaliação minha é uma avaliação que todos que leram Hannah Arendt, no famoso textos sobre filisteus da cultura, concordam. Se aceitamos facilmente a degradação dos títulos, jogamos nosso mundo fora.

  9. Pedro Possebon
    16/12/2016 at 10:28

    Há um trecho de uma música da Taylor Swift que descreve maravilhosamente o Pondé:
    “New money, suit and tie”
    “I can READ you like a MAGAZINE”

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