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16/08/2017

A imprensa na era da “pós-verdade”


Com o desenvolvimento da Internet, a partir de 1995, não demorou muito para que se notasse a perda de assinantes dos principais jornais do mundo. O filósofo alemão Jürgen Habermas chegou a anunciar o fim dos principais jornais alemães, que iriam perder a independência financeira e ter de ceder a alguma ajuda do Estado. Alguns notaram tal situação com preocupação enorme, outros menos. Este últimos pois diziam que todos nós informaríamos uns aos outros, e que a notícia apenas sairia das mãos do tão temível “quarto poder”, a imprensa. Lembro-me de ter escrito artigo para o Estadão (14/12/2007), preocupado com a situação (Quanto poder tem o quarto poder?).

No atual momento em que vivemos, em que não há mais sentido em falar que o tempo real é mais veloz que o tempo virtual, cresce o poder da “sociedade da transparência”, como a nossa época é chamada pelo filósofo germano coreano Byung-Chul Han. Trata-se da sociedade onde impera a visão de todos contra todos. Ninguém mais sabe o que é a vida privada. Mas, paradoxalmente, estamos agora muito mais longe do que imaginávamos que estaríamos a respeito da não importância da imprensa tradicional. Ninguém esperava que a Internet se transformasse no reino da mentira, como é o caso atualmente, mesmo no âmbito das imagens, e que a imprensa, então, viesse a recuperar a importância, como é o caso.

Há dez anos, os jornais eram avaliados como não confiáveis. Agora, diante da proliferação da mentira ensaboada espalhada por todos nós nas redes sociais e por meio decisivo de forças políticas que pagam blogueiros vagabundos travestidos de jornalistas, os jornais tradicionais voltaram a ser procurados e ganharam um direito ainda maior do que já possuíam. São o porto seguro que nos restou para podermos verificar se há alguma credibilidade no que nos chega rapidinho, em primeira mão, pela rede de fofocas do Facebook e blogs. Todos nós tratamos de dizer: “isso que você me contou, saiu em algum jornal de respeito?” Nunca se precisou tanto da chamada “grande imprensa” como agora. Por isso mesmo, nunca os políticos reclamaram tanto da imprensa como agora. Choram aqui e acolá falando que estão sendo maltratados pelos jornais.

As pessoas individualmente não conseguiram, por meios baratos, propagar informações e com isso adquirir credibilidade na Internet, quando de trata antes do noticiário comum que das notícias acadêmicas. Os blogs cederam ao pagamento de políticos. Os grandes patriotas que denunciaram sacanagens de seus governos, por meio de blogs, se viram, em algum momento, como sendo avaliados como não mais seguros e confiáveis. A imprensa maior que conseguiu sobreviver, então, ainda que tenha se tornado mais opinativa e também devedora da fofoca a Internet – e eis aí a situação da chamada “pós-verdade” – reapareceu como sendo a única instância com alguma mobilidade financeira para promover a checagem de notícias. Os jornais, ainda que no modo virtual, voltaram a ser consultados. Essa recuperação da grande mídia é visível no mundo todo. O Brasil não ficou de fora.

Um outro fator ajudou os jornais, além da generalização da mentira. Foi a própria proliferação das fontes de informação. Se todos podem fazer transmissões diretas, cada possuidor de celular ser transforma num potencial dono de TV, e a exponencial informativa força, por ela mesma, que existam os canais que trabalhem profissionalmente, que se importem com a  credibilidade. Ou seja, houve uma repentina revalorização do trabalho do editor profissional. Um professor pode ser bem visto na sua transmissão direta ao se restringir ao campo de sua especialidade. Mas qualquer notícia mais popular, de interesse geral, volta para as mãos da imprensa dita tradicional. No frigir dos ovos, só os muito tolos ainda acreditam nos espalha brasas, nos midiagogos de auto-ajuda e nos inúmeros fakes de facebook.

O liberalismo, que agora parece ser o único destino à vista, continua precisando de seu mais fecundo pilar, aquilo que Lênin chamou um dia de “imprensa burguesa”. Atualmente, não vamos a lugar algum sem ela. Não à toa, continuam morrendo jornalistas sérios no mundo todo, por trabalhos ousados bancados pelos seus jornais, contra ditaduras, ações desumanizadoras, políticos e, claro, mercenários de guerra.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. Autor entre outros de Para ler Sloterdijk (Via Véritca, 2017).

Foto: estátua “O pequeno jornaleiro”, Rio de Janeiro.

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5 Responses “A imprensa na era da “pós-verdade””

  1. josé fernando da silva
    21/05/2017 at 10:38

    Pondé não é sério. Ele é uma prova viva do quanto titulação acadêmica, considerada isoladamente, diz muito pouco sobre o vínculo alguém mantém com a realidade, e mostra também o quanto as pessoas são infantilizadas nesse país (uma vez que muitos olham para Pondé como se este dissesse algo relevante). Você está corretíssimo: há jornalistas sérios, inclusive nos grandes meios de comunicação. No entanto, estou convicto que a tal “liberdade de imprensa” é comprada por um jogo de interesses não muito idôneo, o que faz com que o grau de liberdade de atuação permitido a quem é sério se torne muito estreito, provavelmente cirurgicamente controlado.

    • 21/05/2017 at 12:01

      José há liberdade de imprensa. Claro que há. Agora, seria maluco quem quisesse fazer da liberdade algo acima de nossos próprios interesses humanos. Agora, veja a história do Nassif, como ele foi empurrado para fora da imprensa, e então entenderá o quanto os jornais precisam de credibilidade.

  2. Orquidéia
    21/05/2017 at 08:49

    Eu me diverti muito ontem ao sair,prof.Ghiraldelli,ir a um shopping e ver um jovem senhor lendo numa mesa da praça de alimentação…não algum celular ou táblet,mas um jornal !!!

    [Kkkkk…

  3. josé fernando da silva
    20/05/2017 at 18:18

    Você vê algum vínculo entre o que fazem os jornalistas (estes homens “eruditos” capazes de discorrer num mesmo texto sobre aspectos da relatividade geral, a genialidade antropofágica de Neymar expressa na nova dancinha com que comemora seus gols e a descoberta de uma nova galáxia nas bordas do universo…) e os sofistas da Athenas socrática? Afinal, eles não apenas VENDEM mentiras, mas também, ao fazê-lo, fixam paradigmas que instituem a mentira e o modo de propagá-la.

    • 20/05/2017 at 19:36

      Há muitos jornalistas sérios, competentes, com boa formação, outro diploma além do jornalismo etc. Sofista é outra coisa. Agora, há palhaços tipo Pondé, que também é outra coisa.

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