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23/06/2018

Maurício Stycer e a Rede Globo como TV Alternativa


[Artigo indicado para o público em geral]

Imagine a CNN falando para o mundo e, principalmente, para os Estados Unidos, algo assim: “mande vídeos dizendo que mundo você quer para o futuro, mas não deixe de filmar uma situação crítica, degradante, miserável e horripilante do local onde vive”. O que iria ocorrer? Nada além do que já faz a TV no seu dia-a-dia. Ela recebe cotidianamente vídeos de calamidades de todo tipo: do cara que chuta um cachorrinho ao que corrompe milhões, do cara que rouba a velhinha até o monstro ditador fazedor de guerras. O jornalismo hoje, nas grandes empresas, incorporou os vídeos de anônimos, uma vez que todo mundo possui um celular que filma e bota em seguida o filmado em uma rede virtual. Inclusive aquele que faz uma live e põe sua morte num campo de protestos no momento em que ela ocorre, é reapresentado na TV com grande sucesso de público.

Este é um dos principais motivos pelos quais a Globo não pediu que se mandassem vídeos de malfeitorias pública e privadas. Evidentemente que o jornalismo da Globo é profissional e competente o suficiente para saber que viriam vídeos de lixões e coisas do tipo. Evidentemente que Bonner estava preparado para decidir colocá-los no ar. Ninguém é ingênuo no comando do Jornal Nacional. Mas, é certo, ele não pode mudar o teor da campanha, e isso pelos motivos que disse. Seria reiterativo e fora do lugar. Mas há mais. Só uma rede alternativa, mambembe, poderia optar por uma campanha do tipo “mande seu vídeo falando da desgraça da sua cidade”. Seria a opção da Globo no sentido de se tornar um pasquim. Os pasquim são as outras TVs, com João Cleber e similares. Seria a anti-TV na TV. Seria simplesmente a opção, na melhor das hipóteses, de ser acusada de uma campanha de pessimismo crítico injustificado em ano eleitoral. Nenhuma rede de TV grande, de entretenimento e de venda de entretenimento, pode abrir uma campanha desse tipo, induzindo a população a uma denúncia sem fim. Ao final da campanha, estaríamos todos exaustos, inclusive da própria TV. A frustração posterior seria incalculável. Uma rede de entretenimento e jornalismo não pode arriscar criar um país frustrado demais. Ninguém frustrado de mais compra horários para vender mercadorias secundárias agregadas à mercadoria-propaganda.

A melhor opção foi realmente a de Bonner: “se você quer mandar uma situação crítica da sua cidade, dizendo que não quer mais ver aquilo no Brasil do futuro, tudo bem, ótimo”. “Mas nós, aqui, vamos continuar com o padrão normal de pedidos para que você dê o seu recado, sem induzi-lo ao ato de denúncia”. De novo: qualquer vídeo de denúncia é bem vindo para jornalistas, da Globo e de qualquer outro lugar. As TVs, inclusive, sustentam na Internet páginas para que tal coisa ocorra espontaneamente no dia-a-dia.

Maurício Stycer é excelente jornalista apreendedor sagaz da mídia. Mas, ao tentar falar de um livro sobre a TV, acabou por fazer uma crítica à Globo que não cabe (Folha, 28/02/2017). Fez também uma crítica geral à “grande mídia”, que não é apropriada. Dizer que a grande “mídia” não está sabendo lidar com o participacionismo de nossa época, já não cabe mais. A capacidade da “grande mídia” de, em vinte anos, se adaptar à existência da Internet, veio pelo modo que teria mesmo que vir. Todos falam e, por todos falarem, a mídia mantém seus profissionais da fala, e precisa se destacar para poder vender seus minutos, e por isso o seu entretenimento e a sua informação têm de captar o que os indivíduos falam nas redes sociais, mas devolver a estes de maneira mais crível, mais organizada, melhor editada e, enfim, no padrão que nossos olhos e ouvidos já se acostumaram. A era do fake news devolveu à TV o seu monopólio da verdade – ainda que nenhum monopólio seja bom e ainda que o conceito de verdade da “grande mídia” seja ingênuo (o conceito de verdade da mídia em geral, o de “ouvir os dois lados” ou de confiar em estatística é uma imensa tolice).

Como no mundo todo, a Globo, a nossa TV, capengou para aprender a lidar com o participacionismo desenfreado. Passou dez anos incerta. Errou demais no começo da interação. Quase caiu na pobreza daqueles programas, feitos pelas outras TVs, de mera reprodução de vídeos – como se as “videocassetadas” já não fizessem isso há trinta anos. Mas a nova versão do jornalismo da Globo, que nasceu de uma nova direção da TV e da reformulação do aparato físico-tecnológico, encontrou sua fórmula ideal e se tornou, de novo, uma referência. Inclusive, uma referência internacional. A própria campanha da Globo, ensinando o uso do celular, já faz parte dessa nova visão, onde todos nós seremos empregados da Globo, fazendo vídeos, mas não terceirizados, e sim como voluntariado. Na conta de sermos cidadãos, seremos trabalhadores sem nenhum salário. Coitado de Peter Parker, querendo viver de vender fotos para uma grande mídia!

A Globo está nadando na sua capacidade recém adquirida, mas eficiente, de devolver ao público o que este mesmo faz com seus celulares. McLuhan disse que “o meio é a mensagem”, e outros emendaram dizendo que “o meio é a massagem”. Sim, é a massagem. Fomos massageados pelo modo da TV de apresentar imagens, e nossos celulares e os blogueiros não vão substituir isso. Eles aparecem e rapidamente são absorvidos por sistemas como o da Rede Globo, no mundo todo.  A massagem já foi feita. A TV tem anos de vida pela frente, e a interação com a população é um capítulo dessa história, apenas um capítulo. O capítulo de mais uma vitória da “grande mídia”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “Maurício Stycer e a Rede Globo como TV Alternativa”

  1. Hugo Lopes de Oliveira
    29/01/2018 at 18:02

    As críticas à mídia parecem sempre partir do pressuposto de que ela – a mídia – é um animal louco e desenfreado, e precisa ser contido custe o que custar, senão o estrago será grande. É preciso pensar a mídia e a imprensa a partir de novas bases.

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