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18/11/2018

Filosofia, alteridade e mídias sociais


Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico

“Menina dos olhos” ou “boneca dos olhos”. O nome é dado para a forma de espelho mais antiga do mundo. O espelho séculos antes do espelho. Olha-se nos olhos do outro e o que se vê é uma pequena figura lá no interior, “eu mesmo estou lá” – pode-se dizer. Só me vejo pelo olhar do outro. Literalmente. Depois, de modo mais metafórico: só sei de mim por meio das opiniões do outro, pelo olhar que ele tem de mim de aprovação ou reprovação.

Sócrates aparece utilizando desse recurso em uma obra chamada Alcibíades I. Ele lembra a Alcibíades que podemos utilizar o olho do outro para vermos a nós mesmos, mas aí ele abre duas possibilidades: vermos a nós mesmos como indivíduos, com nome e RG e CPF, ou vermos a nós mesmos como “humanos”. Abre-se aí uma psicologia e uma antropologia. Não à toa esse livro, que ainda não sabemos se é ou não de Platão, se tornou um dos principais manuais de filosofia durante todo o período do Helenismo e da Idade Média.

A filosofia antiga deu importância ao outro. Aristóteles chegou a usar aquilo que se transformou em fórmula: “o amigo é um outro Eu”. E Jesus foi além, pois disse, na parábola do Bom Samaritano, que o possível homem mau teria de ser tratado como um eu. Não só o amigo seria um outro eu, mas também até o inimigo.

Sartre transformou essa situação, tão alvissareira na filosofia, exatamente no que qualificou como o inferno. Na célebre peça Entre quatro paredes os personagens estão no inferno, e este nada é senão um recinto sem espelhos. Todos só se vêem, forçosamente, pelo olhar do outro. Também literalmente. A cena hilariante, filosoficamente criativa e realmente infernal, é a de Inês tentando arregalar o olho para que a vaidosa Estelle possa se ver. Ela se vê, mas está muito pequena. A vaidosa e egocêntrica se vê pequena, nem pode se ver corretamente! Do tamanho da “menininha dos olhos”.

Essa ideia de que o Outro é necessário para que o Eu se ponha como de fato um eu tem diversas narrativas. Hegel fala na “dialética do senhor e do escravo”, tendo como centro a questão do conflito e do reconhecimento. Heidegger muda o foco, põe de lado a perspectiva do conhecimento e trabalha mais ontologicamente, fala então do “ser com”. Comentando Heidegger e Hegel, Sartre lembra que a situação que Heidegger expõe não é a de conflito, mas de equipe – o “ser com” tem a ver com a imagem de uma equipe de remo adquirindo velocidade pela sincronização.

Os que adotam a relação eu-outro como a de conflito, na esteira de Hegel, vão filosofar de modo diferente dos que adotam a postura de Heidegger. Seguindo este último caso, Sloterdijk fala da boa alteridade, a do alter-ego como produto de esferas (surreais) de ressonância em diversos níveis, inclusive no âmbito pré-pré-línguístico, puramente sinestésico, entre um Cá e um Lá no  Ser-Com, ou seja, o meio líquido e vibrante de convivência entre feto e placenta.

Se o outro é um espelho onde nos vemos crivados por algum nível de julgamento desse outro, como no inferno sartreano onde não temos espelho e nos vemos pequeninos como uma diminuta menina dos olhos, ou se o outro é um parceiro colaborativo como a placenta para o bebê, associada em seguida à equipe (Sloterdijk fala de uma banda: mãe, pai e depois amigos etc.; um exemplo mais sonorizado e que reclama para sinestesia, melhor portanto do que a da equipe de remo), encaminhamos perguntas diferentes e, então, nossa pesquisa filosófica busca respostas de assuntos díspares. Se a situação é de conflito, temos respostas para nossos distúrbios sociais. Se a situação é de harmonia, temos respostas para o fato espantoso de nos vermos sempre em conflito e, ainda assim, produzirmos algo chamado solidariedade. Sartre e Sloterdijk procuram coisas diferentes.

De qualquer forma, por um caso ou por outro, o problema todo ganha uma dimensão interessante quando o outro se afasta de vez ou quando se torna presente de vez, mas sem sua característica de outro. Se pais, estado, esposa, mãe e companheira do inferno desaparecem e são substituídas por algo de mil faces, mas maquinal, como é a Internet e suas redes sociais, como fica a produção do eu, do self, que sabemos que é dependente do outro? O que é o outro quando ele é uma rede social e só ele faz o papel de outro? É exatamente essa questão que a filosofia não tem enfrentado quando se debruça sobre o “fenômeno das mídias digitais”. As mídias digitais simulam um outro. A TV e o rádio simularam um tipo de outro que nunca conseguiu de fato substituir o outro – mesmo no tempo que os pais ficaram preocupados com a chamada “babá eletrônica” ou, mais concreta e pitorescamente,  quando ficaram às turras com a Xuxa. A Internet e suas redes sociais realmente se põe no lugar o outro. Elas dão as meninas dos olhos de volta para nós. Já temos uma geração inteira criada a partir desse tipo de outro.

Seria apressado e inapropriado lançar mão de Lasch e voltar a falar em narcisismo. Narciso precisa de espelho. Fica paralisado com sua imagem. Mas a situação da Internet como outro é uma situação sem menina dos olhos. Sem espelho humano, e o espelho maquinal posto, o Facebook, não é um espelho. Não nos devolve o que postamos – nem literalmente e nem como outro. Não nos conflitua como na guerra entre senhor e escravo, não nos dá um útero ou uma banda ou uma equipe de remo.

O outro, nesse caso, não faz nenhum esforço para arregalar o olho para Estella. Esse outro não é Inês. Ele é um outro para qual mostramos tudo, mas nem sempre temos devoluções efetivas que um outro daria, ou então temos devoluções abruptas, impensadas, ou simplesmente o que Byung Chul Han chama pelo sugestivo e mal cheiroso nome de shitstorm. É um outro que não dá retorno humano. Nem conflito e nem colaboração. Não dá para falar dele como inferno, nem como relação senhor-escravo, nem como equipe de remo e nem como bandinha. Ele é um outro de pseudo-alteridade. Mas que é um outro, é.

O que se impõe agora, entre nós filósofos, é o de não sermos afoitos. Há muita gente falando sobre a Internet. Mas há pouca gente com instrumental filosófico se debruçando sobre a alteridade reduzida ao mundo do “like”. Uma filosofia das novas mídias iria por essa via. Mas uma filosofia das novas mídias não seria das mídias, mas de nós com elas, de nós nelas, de nós sem o outro tradicional.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Brad Pitt for wired magazine

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3 Responses “Filosofia, alteridade e mídias sociais”

  1. Diego
    31/01/2018 at 05:02

    Professor, como Freud e Lacan poderiam contribuir nesse contexto?

  2. F
    08/12/2017 at 20:22

    vê o vídeo do Caio matando Lula.
    Será q Huck vai ganhar dele?

    • 08/12/2017 at 20:28

      E eu com isso? O que tem isso a ver com meu texto cara?

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