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22/10/2017

Fátima Bernardes: o caso do policial e do traficante


Devemos salvar um traficante ou um policial, se ambos correm perigo? Não foi essa a maneira como Fátima Bernardes apresentou a questão posta no seu programa. Ela colocou as coisas de forma clara: um policial levemente ferido e um traficante à beira de morte dão entrada em um hospital, então, quem deve ser operado primeiro? Chamando artistas convidados para optar, eles se alinharam na resposta óbvia: o traficante.

Caso a situação fosse real e o médico quisesse, infringindo o código de ética próprio e o do hospital, operar primeiro o policial, que estava fora de perigo, este, uma vez conhecedor das regras e sempre pronto para servir a sociedade, objetaria ao médico: “é correto atender o mais ferido primeiro”. Ele próprio, policial, sendo bom profissional (nem precisaria ser o Vigilante Rodoviário Carlos, dos anos 60), deixaria o bandido ser atendido mais rapidamente. Faria questão disso. Médico e policial, então, salvariam uma vida, aquela que estava em risco. Jamais um policial honesto iria passar na frente de qualquer outra pessoa.

Assim, no programa da Fátima, seria uma loucura, ainda mais com um médico presente e mostrando o procedimento correto, alguém dizer que o traficante, ainda que traficante, teria de ser deixado em segundo plano. Mas nas redes sociais, pessoas da direita política, que dizem se passar por amigos da polícia, atacaram Fátima Bernardes dizendo de sua “inversão de valores”, de sua “apologia ao tráfico”, de sua indução para que “a plateia ficasse contra a polícia” etc. Todos conhecem a Rede Globo e Fátima Bernardes. Nem uma das duas, nem a instituição e nem a jornalista, defendem bandido ou a instalação de qualquer caos social. Muito ao contrário! E no caso, nem se tratava de qualquer disputa sobre “Direitos Humanos”, sempre um tema delicado para a mentalidade da parte mais reacionária da sociedade. Era apenas um caso corriqueiro. Na verdade, um caso não polêmico. A polêmica apareceria se alguém viesse a defender veementemente que se deixasse o traficante morrer. Mas ninguém ali estava tão fora de órbita para tal.

Agora, se os que viram aquilo são os que não sabem o que é um policial e um médico corretos, então estes podem, sim, reclamar. Podem ficar ofendidos por ninguém ali enaltecer o policial – pois sempre há os que esperam isso, seja lá qual for o caso! Podem extrapolar e dizer de quanto os policiais salvam vidas e se arriscam. Podem, movidos por emoção, amaldiçoar Fátima Bernardes por ela não ter colocado uma questão que pusesse o policial na situação de herói destacado. Ou seja, gente assim sempre existe, aquele que vê um programa mas esperava outro. Mas Fátima Bernardes não estava fazendo o programa do Datena ou coisa parecida. Ela não é uma jornalista policial. Ela faz um programa de entretenimento. É uma loucura acusá-la de manipulação para que o programa terminasse numa apologia do banditismo – coisa que de fato não ocorreu.

Agora, há mais coisa a se dizer? Sim, em termos de filosofia, sim! Ou melhor, em termos de ética.

Eu concordo com certas pessoas que dizem que a pergunta escolhida, e a própria maneira que Fátima fazia a pergunta, induziu as coisas a trazerem problemas. Ela, Fátima, por várias vezes armou a bomba para ela mesma, dizendo “fica do lado do policial ou do traficante?”, ao chamar seus convidados.  Mas a falha filosófica não foi esta, e sim a escolha da questão. Aí sim houve tropeço.

A questão foi, de certo modo, uma má escolha (teria sido assessorada pelos palestrantes de auto ajuda fingidos de professores de filosofia, que rondam por lá?). Por quê? Ora, porque o que se colocou na mesa foi um falso dilema ético. Aliás, alguns artistas presentes ali invocaram o dilema que seria o correto. Um ator chegou a falar do drama da avó que deixou um neto morrer para poder salvar outros quatro. Nesse caso, sim, há o dilema ético. O dilema ético tradicional e normal seria o de colocar uma vida versus mais vidas, ou uma vida importante de um a perspectiva e outra vida importante de outra perspectiva (coisas do tipo do famoso The Trolley Problem). Da maneira que a questão foi colocada, toda resposta razoável seria uma só, a de atender primeiro o traficante. O que de fato ocorreu. E o subproduto foi, ao final, a sensação, ao menos para alguns, de que se estava vociferando contra a polícia.

Assim, talvez o problema do programa da Fátima tenha sido o de cair em um erro da produção.  Foi mal feita a coisa, e isso por conta de uma fraca assessoria em filosofia. Mas isso não depõe contra a Fátima, nem mesmo contra a Rede Globo, ao menos não do ponto de vista ético. Trata-se aí de melhorar a condições técnicas da produção do programa. Talvez eles tenha de trazer para os bastidores gente com instrução filosófica, ainda que mínima, afinal, o tal drama ético tradicional parece que foi de fato o que eles queriam expor, e não conseguiram.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 20/11/2016.

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13 Responses “Fátima Bernardes: o caso do policial e do traficante”

  1. denis
    28/11/2016 at 06:47

    EU FALO , EU FALO, O BRASIL TA FUDIDO MESMO!! COMO UM MÉDICO PODE ESCOLHER O POLICIAL PRA SOCORRER PRIMEIRO??? E O CÓDIGO DE ÉTICA, A POPULAÇÃO PERDEU TOTALMENTE O DISCERNIMENTO DAS COISAS NAO ENTENDEM MAIS NADA… ELA DISSE LEVEMENTE FERIDO. O MÉDICO SALVA VIDAS!!! INDEPEDENTE SE FOR POLICIAL, TRAFICANTE, MENDIGO, RICO, POBRE, GAY, MACHO, PRETO, BRANCO, INDIO, CAFUSO,

  2. Daniel
    23/11/2016 at 15:12

    A pergunta no programa foi: Quem você salvaria? Um traficante em estado grave ou um policial levemente ferido?

    Tá na cara que quem escolheu o policial é burro. Porque não se salva alguém levemente ferido. Foi uma pergunta maliciosa. Os médicos e os próprios policiais são formados para entender que esse caso não é jurídico e muito menos de gosto, é um caso da vida nua em que vivemos, ou seja, salve a vida biológica que está em perigo e depois a justiça se encarrega do seu papel. A pergunta mais interessante que poderia ser feita pela produção de Fátima Bernardes: Um policial e um traficante estão em estado grave, quem você salvaria? Aí sim daria discussão ética.

  3. Mario de Sá
    22/11/2016 at 11:56

    A dor faz o ser humano crescer, acho que um bandido, ou corrupto ou o que for, tem que se ferrar e sofrer pra dar valor à vida e olhar para seu semelhante com mais respeito. Quando agente faz “merda”(desculpe o palavreado) com o nosso corpo, se alimenta mal, se droga a doença e o sofrimento não nos faz entrar na linha? Se a pessoa não entrar na linha é porque não sofreu o suficiente. ladrões, bandidos ou qualquer um que cometa ilícitos que prejudicam o próximo, tem que paga e tem que sofrer, o sofrimento é importante, não é uma questão de vingança mas uma questão de aprendizagem.

    • 22/11/2016 at 13:14

      Mário de Sá o artigo não é sobre isso, e se você quer passar dor, isso é com você. Não compre analgésicos.

    • LMC
      22/11/2016 at 14:35

      A gentalha que acha legalzinho a
      idéia de Escola Sem Partido é a
      mesma gentalha que acha o
      pessoal dos direitos humanos,
      defensores de bandidos.E
      que o nazismo alemão foi
      de esquerda.BAHHHHHH……

  4. Régis Paleari
    22/11/2016 at 05:58

    Concordo com você Paulo. Com certeza a visão como um idivíduo e a visão como uma sociedade e/ou estado são diferentes. No meu ver, o bandido que se “ferre”, mas a partir do momento que eu enxergo ele como um integrante da sociedade (no caso como um médico deve ver) ele tem que seguir a ética e atender o INDIVÍDUO que está correndo risco de morte.
    Se eu não pensar assim, estaria dando prioridade de um policial ter prioridade em uma fila de espera de transplante de órgãos, por exemplo, somente pelo fato de ele desempenhar um papel de policial?

  5. Fernando Ricardo Gonçalves de Assis
    21/11/2016 at 21:00

    Concondo com vc Roberto. Há sim muita hipocrisia em algumas situações. Não adianta filosofarmos sentados em uma poltrona,sem tentarmos nos colocar na situação. Essa hipocrisia ocorre muitas vezes com tais defensores de direitos humanos,defendem bandidos a “todo custo”,enquanto quando merre um policial ou qualquer pessoa de bem,é apenas mais um para estatística.

    • 21/11/2016 at 23:10

      Fernando não é possível que não tenha entendido um texto simples.

  6. João Paulo
    21/11/2016 at 12:58

    Paulo, por sermos um país com fraca cultura em geral, esse tema ganhou espaço nas redes sociais como ganhou? Ou isso se repetiria em qualquer lugar do mundo, ainda que a população seja mais culta, escolarizada?

    • 21/11/2016 at 13:12

      João Paulo, sim, isso se repete em outros lugares com boa escola. O problema é que em outros lugares um texto como o meu não ficaria sozinho, outros ajudariam. Aqui os mais vândalos falam mais.

  7. Roberto W.
    21/11/2016 at 12:31

    Filosoficamente falando, você está correto; o médico não pode julgar as pessoas e sim assisti-las, observando o código de ética. Todavia se um bandido te assaltasse e te machucasse levemente e, logo em seguida, outra pessoa atropelasse o bandido deixando-o gravemente ferido, vc faria questão de que o bandido fosse atendido primeiro? Poderia esclarecer como que isso contribuiria para uma sociedade melhor ou como que o inverso (deslocamento do bandido pra escanteio) a corromperia?

    • 21/11/2016 at 13:14

      Roberto eu não sou médico e nem policial, eu estaria livre para vingar-me, e só não faria se forte questão moral me abatesse. Infelizmente as pessoas não entendem que o Estado não pode agir com vingança ou com discriminação. Agora, na situação posta, não há dilema: basta salvar o bandido e pronto.

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