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18/11/2017

Estamos no “tempo” da pós-verdade?


Verdade é a concordância entre o que se diz de uma coisa e a tal coisa. Grosso modo é isso. Mas os tempos modernos trouxeram uma segunda maneira de se pensar a verdade. Ela se tornou algo distante entre checar um enunciando com aquilo para o qual  ele aponta, e se constituiu em uma questão de certeza. Tornou-se algo do âmbito do eu, do âmbito que nós, pós-cartesianos, chamamos de subjetivo. Foi o primeiro passo para chegar onde chegamos. Mas, onde chegamos?

Fazer da checagem da verdade algo do âmbito da evidência subjetiva, ou seja, a certeza, aquilo que experimentamos no cogito ergo sum  (pelo, existo; ou seja, sou uma coisa pensante, ao menos, e sempre sou isto quando penso), foi a maneira moderna de se tomar o que se quer por verdadeiro. Mas, junto disso, veio também a antropologia nos dizendo que somos homens e ao mesmo tempo somos diferentes ainda que nos mantendo humanos. Diferente a ponto de não podermos falar o que Descartes supunha, que a “razão é a coisa mais bem distribuída entre homens”. Começamos a falar em lógicas e razões diversas, e então admitir que até mesmo a certeza, a evidência subjetiva, poderia ser tomada de modo diferente para cada povo e até mesmo para cada um. Entramos na era do relativismo contemporâneo – ora fundamentado, ora banal. Do modo banal e midiático: cada um pode ter lá a sua impressão da verdade. Cada um pode estar certo do que acredita, sem que exista um tertius, um terceiro termo superior. A verdade então se tornou aquilo que Alfredo Bosi chamou de “a verdade dos jornalistas”, ou seja, o método ensinado na faculdade de Comunicação: ouça as duas partes e terá o máximo de verdade que pode ter – as opiniões de ambos os lados. Não se diz para o jornalista que o mundo não é formado por partes, muito menos por duas! A Terra é redonda, não tem lados.

A era da pós-verdade é um desdobramento da deterioração do moderno na linha do estampado pelo jornalismo criticado. É a ida a um subjetivismo que nada tem a ver mais com a modernidade cartesiana, mas sim com o sentimentalismo da cultura de massas. É certo ou verdadeiro aquilo que mais condiz com o que sinto, dentro do tamanho da minha mediocridade. Com esse descritério de verdade, estamos no centro da era-pós-verdade. Agrupa-se a isso a frase menos filosófica de todos os tempos: “gosto não se discute”. Sendo assim, cada um tem o seu gosto e este expressa a sua verdade que deve ser respeitada pelo outro, ou seja, o outro deve ficar calado, não criticar, pois cabe à democracia liberal – estranhamente – ser respeitoso. Respeito virou isso, o silêncio diante do poder do que tem “ibope”. A era da pós-verdade então, cala a todos. Cala não mais pela razão e sim pelo poder político ou pelo lacaísmo ao poder da mídia que, obviamente, não raro fica sedenta de lucro fácil e se dispõe contra si mesma a médio prazo. A era da pós-verdade é a era dos gurus, dos palestrantes midiáticos. Eles podem falar, e eles calam todos os outros, pois reiteram a ideia de que verdade é algo do sentimentalismo.

Os palestrantes midiáticos atuais estão nessa: tudo é questão de sentimento: criticou? então é “fracassado”, “infeliz”, “fez isso porque é mal amado”, “é um fofoqueiro que só sabe falar mal de quem tem sucesso” etc. O psicologismo e o sentimentalismo baratos ocupam todo o espaço de conversação, ou seja, da não-conversação. A era da pós-verdade é a mais propícia para tal prática, e é isso que está ocorrendo agora.

Por que mesmo sabendo disso, alguns seguem os gurus midiáticos que falam de tudo e não sabem de nada? Simples: quando cada um tem sentimentos que dão o tom para a verdade, é claro que há aí uma desconfiança geral em torno de si mesmo. Será que no limite sei mesmo o que avaliar? Será que não estou caindo num buraco sem fundo? Surge então a busca da opinião. A opinião vem grupal, vem pela maioria, vem então, claro, pelo que escuto de aparentemente mais forte – que soa como uma nova razão – que é a voz da mídia. Como que alguém está na mídia se não soubesse o que fala, não é? Além do mais, fala muito do que eu já concordo, então mostra que eu não estava errado, e que sou inteligente. É o truque do guru midiático. Este é sempre uma pessoa vazia. Mais fala que estuda. E se antes tinha alguma cultura, logo a perde e se torna igual ao seu público. Pois o esquema exige que ele, para ter sucesso, continue dando a imprensão ao senso comum de que este não está sendo contrariado, e sim confirmado. Cada um é confirmado na sua verdade, que não é nada senão seu gosto idiossincrático ou o senso comum mesmo, mais banal.

Esse círculo vicioso não cessa. Ele enreda todos que participam dele, como espectadores ou como papagaios midiáticos. Não pensem que só os antigos autores de auto-ajuda podem estar nisso. Professores universitários entraram nessa. Falam para grandes grupos que, ao verem seus sentimentos avalizados, se acham o máximo, e começam até a pagar para tais palestrantes, de modo a verem seus verdades, ou seja, seus gostos, reiterados. A era da pós-verdade é um um buraco negro. Em países como o nosso, de escola pública básica capenga, isso se torna uma praga. O resultado é uma baixa geral da criticidade da nação junto de uma crescente virulência verbal em redes sociais e atitudes grupais. Isso não tem a ver propriamente com o fascismo, embora em alguns momentos, pela virulência verbal de todos contra todos, possa parecer.

Paulo Ghiraldelli Jr. 59, filósofo. São Paulo, 03/02/2017

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15 Responses “Estamos no “tempo” da pós-verdade?”

  1. LMC
    10/03/2017 at 11:47

    Pelo menos o Karnal não é igual
    ao Pondé que vive puxando o
    saco do Trump em suas colunas.
    Trump,segundo Karnal,é uma
    mistura de Collor com Mussolini.
    E é mesmo,infelizmente.

    • 10/03/2017 at 11:47

      Karnal ou Pondé tanto faz, não há diferença. Ambos falam do que não sabem, e reiteram o senso comum.

  2. Vinicius
    16/02/2017 at 20:28

    Algumas palestras são realmente enjoadas, para não dizer do “peru” para assistir. Lembrei uma de Clóvis de Barros. Ele falando como algumas pessoas não conseguem resolver uma equação simples de Pitágoras? Não ter o brio para encarar o desafio de uma leitura mais complicada como a obra de Kant? O cara simplesmente pegar a obra e esforçar-se ao máximo para entende-lo. Botar aquilo na cabeça. Como o Kant escreve aquilo e eu não consigo entender. Então eu me sinto um burro. Então vá atrás do conhecimento e se esforçe! Não seja um acomodado! Na minha parte, a resposta é simples. Quanto as obras de Kant, falta de escolaridade e/ou um preparo maior para uma leitura mais refinada. Evidentemente, não se faz isso sozinho. Quanto a equação de Pitágoras, ainda mais preocupante. E já estamos nesse nível com a má qualidade do ensino básico.

    • 17/02/2017 at 08:32

      Vinícius, o Clóvis nunca conseguiu ler o Kant. É um advogado. Não fez filosofia. É um curioso.

  3. kelton
    08/02/2017 at 00:13

    E tbm das “meias verdades”. A palestra é uma fotografia, não há mergulho, tridimensionalidade,
    Caras como o Karnak e o Clóvis parecem ter percebido isso e vendem boas fotografias, Mas saro somente fotogrqfias

    • 08/02/2017 at 08:05

      Kelton eles não perceberam, eles fazem parte de uma onda, são espelhos de um público ruim, com escola ruim, o Brasil.

  4. 05/02/2017 at 11:58

    A verdade é o verdadeiro, foram as últimas palavras de Max Weber em seu leito de morte. Para ele, um relativista convicto, a chave explicativa do mundo moderno, não estava no trabalho, mas no “conflito entre deuses” quando se trata de valores. As crenças formam um labirinto de modo tal que ninguém está seguro em dizer qual a linha que leva ao verdadeiro valor, ainda que todos saibam que o sentimentalismo seja o único guia nessa confusa trajetória. Seria a verdade também um valor?

    • 05/02/2017 at 12:23

      Sérgio, Weber era um neokantiano, o termo relativista é um tanto esquisito para ele. Ele aspa o termo objetividade para contrastar com a escola francesa, mas não para aboli-lo. Ele opera no registro de quem acha que as ciências do espírito tem sua própria objetividade e, portanto, não permite “cada cabeça um sentença” como válido.
      Sobre a verdade como valor, aí é com Dewey-Rorty-James. Dê uma olhada nos meus livros sobre eles.

    • Sergio Fonseca
      05/02/2017 at 14:58

      A teoria da ação de Weber não me parece nada objetiva. Mas, eu conheço seus livros, gosto muito da forma como você traz aos brasileiros a discussão americana do pragmatismo. É um debate riquíssimo.

    • 05/02/2017 at 18:40

      Sérgio o que eu disse é o que ele escreveu, não o que eu penso dele. Ou seja, pelo critério de objetividade dele, que ele aspa, é assim. A sociologia alemã se acha tão ou mais objetiva que a francesa, pois redefine objetividade para além do naturalismo francês.

  5. Joao Pedro Doriga
    03/02/2017 at 22:55

    Acredito que compreendi o curso filosofico que desaguou na era da pos-verdade.

    O que parece faltar no texto é o impacto hipnótico que tais “metodos” causam nos interlocutores, muito embora houve clara explicação da feição do público.

    Entre mortos e feridos, qual a solução para o problema? Existe mesmo um problema?

    O Ponde até tem uns textos que com um esforço imterpretativo podemos transforma-los em um personagem de ficção e compreender o que ele quer passar. Mas, o Karnal e o Barbudo que foi secretário são parachoques de caminhão que não amedronta nem um pre-adolescente.

    Não é melhor deixar o joio com eles? Há salvação nessas alturas? Há uma utopia a ser perseguida?

    • 04/02/2017 at 00:47

      Lembrei do Heidegger em sua última entrevista: “só um deus pode nos salvar”. Mas eu acredito nos meus livros e nas minhas aulas. Sempre acreditei. A formação de elites é o que fazemos contra eles.

  6. Tony Bocão
    03/02/2017 at 16:46

    isso me lembra o comediante Reggie Watts, acredito que isso não deve ser um fenômeno brasileiro, mas esse cara resolveu fazer humor em emular a aparência das falas inteligentes, relevantes, significativas, roupa, entonação, um simulacro estético de relevante, mas sem ter nada dentro. Mostrando o péssimo hábito a igualar a aparência(no nosso caso os títulos acadêmicos dos palestrantes) com o conteúdo, sem associação. O desavisado “não pensante” se torna acolhido neste discurso e se sente inteligente, então ele escancara esse engano produzindo um tipo de ironia. Mas fique bem claro é tudo um Show de comédia, já os nossos Reggie Watts…

  7. Nicholas Wilson
    03/02/2017 at 15:44

    Professor, diante de uma época afogada em dizeres relativistas, gostaria de saber qual é a diferença entre o relativismo contemporâneo e a ideia de perspectivismo presente nas obras de Nietzsche.

    Obrigado.

    • 03/02/2017 at 20:06

      Nicholas! Aí andei fazendo textos tanto no blog quanto em livros.

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