Go to ...

on YouTubeRSS Feed

18/11/2017

Entender o BBB-17 é fundamental para entender a modernidade segundo Heidegger


O teatro não era teatro, era vida. Festas religiosas não representavam deuses e suas histórias, eram vividas como apresentação e manifestação dos deuses. Quando os gregos deixaram essa prática e criaram o teatro de palco, a apresentação deu espaço para a representação. Desde esse tempo, o sonho da representação é voltar a ser apresentação, mas estando isso bem distante do horizonte de possibilidades, o esforço nesse sentido produz um monstrengo: forma-se a promiscuidade entre a representação institucionalizada como representação, a do palco, e a nossa vida cotidiana, que se pensa como sendo não representação. O BBB-17 deu o exemplo máximo dessa situação.

O rádio foi o primeiro meio de comunicação que realmente criou a confusão entre vida e ficção, entre rua-casa e palco. A TV ampliou seus poderes. A Internet revolucionou esse caminho, o de definitiva fusão dessas instâncias. O trajeto foi este: a TV levou a ideia do cinema às últimas consequências, ou seja, transformou o instrumento chamado tela como sinônimo da situação ficcional par excellence. O que está na tela é ficcional, mas muitas vezes, real no sentido de representação que aspira à fidedignidade. Aprendemos isso. A TV vem se reordenando para participar dessa fusão criada por ela e potencializada e aperfeiçoada ao extremo pela Internet.

O primeiro passo da TV foi a criação do “reality show”. O importante era jogar para a tela pessoas comuns vivendo suas vidas, tirando o público do folhetim convencional, do livro ou da novela televisiva, para colocá-lo no folhetim agora vivido por personagens definidos como não-atores. O segundo passo logo veio quando a vida comum, a chamada realidade, passou a entrar na tela já no funcionamento do “reality”, no mundo todo, por meio da Internet. Isso não só pelo voto, mas pela interação entre pessoas exteriores ao jogo, inclusive alheias ao jogo. Assim, o reality que poderia já não ser sentido como real, por um público cansado do mesmo, se tornaria ainda mais imiscuído na ficção que prometia ser real. isso reporia as forças do programa. Foi o que ocorreu no BB-17, e em grande estilo, para sorte de Tiago Leifert e sua equipe. Tiago não só melhorou muito o BBB, mas também sempre tem sorte, e esta não lhe faltou nessa estréia. Tudo ficou como o diabo gosta. O que ocorreu?

A insuportável Emily iria criar a explosão na Casa, mais cedo ou mais tarde. Todos estavam pelas tampas com ela, dado que ela é a fácil frágil. Uma cobra. E isso, a explosão, ocorreu em prévias, em vários momentos, mas o decisivo foi com Marcos, como estava previsto. A tal da agressão de Marcos a ela deu chance para que uma delegada aparecesse no saguão de entrada da Globo. Todos na TV vibraram. A realidade batia às portas, para entrar novamente, tornando o reality, que já poderia estar soando ficção, em algo novamente real. A representação já estava se parecendo representação, mas com a delegada, ela ganhou ares novamente de vida, de apresentação. Os deuses parecem terem podido sair do palco e voltar às ruas. Esse é o objetivo da TV integrada na Internet numa grande rede de entretenimento em que a vida cotidiana é o show e a promiscuidade entre ficção e não-ficção é, enfim, o que vamos chamar de realidade. A ideia é que tudo vire uma grande “ficção real” –  permitam-me aqui o termo paradoxal. É o caminho inexorável de um mundo em que não é possível mais ter os deuses nas ruas, em apresentação, pois tudo de fato é palco, tudo é representação.

O êxito da Globo nesse episódio foi incrível. A sorte também. E a participação de Tiago no grupo de escolha dos perfis para integrar a Casa foi decisivo. O jovem sabe o que faz num meio de Entretenimento, parece ter nascido para isso, bem diferente de seu antecessor. O BBB estava prestes a deixar de existir, mas o sucesso deste número 17 vai colocá-lo no ar por mais uma década. E a fórmula de gerar a confusão entre ficção do reality show e o que chamamos de realidade irá progredir para situações cada vez mais inusitadas. A evolução da mídia eletrônica e a integração entre máquina e corpo humano irá proporcionar situações psicológicas que irão arrebatar o gosto popular. Aguardem, vocês verão. O folhetim nascido no século XIX irá dar seus passos decisivos!

Para a visão filosófica, o que vale destacar é que essa situação é aquela já anunciada por Heidegger, quando ele notou que o mundo da modernidade é “imagem de mundo”. Não vivemos apresentações, mas sim representações. Pois se tudo é crivado pelo homem, como é nos tempos modernos a partir do Humanismo, então o palco é o homem e o espectador é o homem. O homem, como aquele que traz tudo pela mão e pelos olhos, representa. Então,  num mundo assim, tendo o homem como centro e como sujeito (hypokeimenon, subjectum, fundamento), base de tudo, só pode ser representação, imagem. Ora, o reality é a promessa, claramente falsa, é óbvio, de terminar com a representação. Se a representação está associada à ideia de palco de imagens e tela, pode-se trazer a vida comum com pessoas que não são atores para a tela, como a internet faz hoje (e assim educa os jovens), com cada vídeo que postamos, e então criar a ficção de que a ficção é a realidade. Deu certo. E com a intervenção da delegada caçando e cassando o Marcos, a coisa toda fechou com chave de  ouro. Se alguém duvidava que tudo era realmente real, ela deu a palavra final: o poder externo está aqui e vai entrar na tela – declarou ela, para alegria da Globo. Entrou. A fusão tela-mundo se fez novamente. O mundo da imagem que é já produto do tempo da imagem de mundo encontrou seu nicho apropriado para se fazer passar por realidade, tornando-se realidade. A Rede Globo deve muito à delegada que resolveu participar do programa por dever do ofício. Sem saber e não podendo fazer de outra forma, a delegada teve de virar personagem do reality. Ora, personagem do reality não é personagem, não exemplo de verdade. Afinal, trata-se de reality!

A fusão completa entre imagem projetada e vida fora das telas perde sentido. Tempo de tela e tempo dito real não se separam. O mundo como representação se realiza materialmente. A modernidade, segundo Heidegger, se consubstancia. Entender o BBB, principalmente o BBB-17, é adentrar o campo mais complexo da filosofia na atualidade. O BBB é para todos, mas como a filosofia, não é para qualquer um.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 11/04/2017

Tags: , , , , ,

17 Responses “Entender o BBB-17 é fundamental para entender a modernidade segundo Heidegger”

  1. Keisle Lourieri Ventura
    09/08/2017 at 08:23

    Ótima reflexão. Obrigado.

  2. Rogério Martins
    14/04/2017 at 18:48

    Sem palavras. Parabéns pelo texto!

  3. Pedro Possebon
    14/04/2017 at 11:24

    Depois dum gajo transformar o noticiário esportivo em entretenimento, não há limites.

  4. LMC
    13/04/2017 at 12:00

    Pra quem viu Karnal na Globo,hoje
    de manhã,relaxem.Suplicy e Olavo
    de Carvalho estiveram numa
    conferência em Harvard,semana
    passada.Bzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….

    • 13/04/2017 at 12:11

      LMC acho que você não sabe que alugar sala em Harvard é mais fácil que na PUC. Quando trabalhei nos Estados Unidos, na minha universidade, Oklahoma, ia até dono de rinha de galo (discutia-se a proibição da coisa) falar. Qualquer pessoa pode fazer evento na universidade americana. Uns brasileiros alugaram a sala. Foi isso.

  5. Hilquias Honório
    12/04/2017 at 18:25

    Caramba, tudo isso no BBB! Quem diria! Eu queria ter escrito esse texto, professor, bem como o sobre Fernando Holiday. Finalmente alguém que sacou como o Tiago superou o Bial. Essa coisa da modernidade é meio assustadora. Mas a situação, como um todo, até me lembrou um pouco do fia em que o Moro divulgou os áudios de Lula e Dilma.

    • 12/04/2017 at 21:03

      Honório quem disse que não pode escrever texto assim. O curso de filosofia deve capacitar para isso, para sairmos do senso comum.

  6. Sandro
    11/04/2017 at 19:13

    Vc não tem vergonha de ficar assistindo esse tipo de programa? Isso é lá programa pra um intelectual que se preze ver?

    • 11/04/2017 at 22:51

      Sandro! Eu sei que Heidegger é demais para você. Mas veja, termina o ensino fundamental e tenta começar na TV vendo Eliana. Caso ainda não dê para você entender, leia algo do Karnal.

  7. João
    11/04/2017 at 19:08

    Aí, escreve sobre as falas do Bolsonaro na Hebraica.

    • 11/04/2017 at 22:52

      João, comentar zurro? Não!

    • LMC
      12/04/2017 at 11:03

      Uma entidade judaica convida um
      nazista pra fazer palestra.Só faltou
      o Netanyahu pra completar.kkkkkkkk
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  8. João Ribeiro
    11/04/2017 at 15:02

    Professor, se o mundo como representação se realiza materialmente, como o senhor disse, então a ficção cria uma nova ficção da realidade, porém não escapa da representação e do tempo da imagem de mundo os quais formam a base da nossa modernidade, não é?
    Tempo de tela e tempo real não se separam, justamente porque aquilo que é real nos é colocado sempre como imagem de mundo. É isso?

  9. Jonas Saldanha
    11/04/2017 at 12:15

    O BBB é num sentido amplo representação, como de certo modo toda vida cotidiana. Mas num sentido menos amplo é só mesmo apresentação. É a vida como ela é, apenas com alguns pudores e regramentos que há em todo reality show. O que aconteceu lá deve ser mesmo o que aconteceria fora de lá. Talvez aqueles que querem demais ser o que são acabam pagando o preço disso.

    • 11/04/2017 at 13:11

      Jonas desculpe-me, você não entendeu meu texto, não entendeu a noção de apresentação e representação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *