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25/09/2018

É a fofoca, cara! A fofoca!


[Artigo para o público em geral]

O general Alcibíades, que sempre amou Sócrates, foi uma figura sem dúvida excêntrica. Chegou a trair a sua cidade e, no entanto, pairar sobre ela como um fantasma que deveria vir para “libertá-la”. Todos o esperavam como redentor. Por quê? Por sua fama de guerreiro, de salvador, de  intrépido. Fama, sim — Alcibíades se fez em grande parte por fama. Essa fama se espalhou pelo mecanismo milenar da comunicação com êxito: a fofoca.

A fofoca é o instrumento pelo qual uma mentira ou uma quase verdade andam mais rápido que uma verdade. Desde quando o mundo é mundo a fofoca é o segredo dos comunicólogos. Só os pouco atentos à história não sabem disso.

Jovens colunistas da Folha e outros jornalistas estão abismados pelos resultados de pesquisas que apontam que as mentiras na Internet se espalham mais rápido que as verdades. Eu fico é espantado ao ver o espanto deles. Por que os jovens acham que as coisas que eles enxergam só existem por conta do tempo em que estão? Por que acham que todas as pessoas no mundo são imbecis, e que eles, agora com uma aparente novidade, podem vir para jornais contar algo que qualquer pessoa que teve aula de história no ensino médio sabe que não é novidade? A internet espalha mentiras! Ohhhh! Meu Deus! Se não me contassem isso, eu jamais saberia, né? Né?

O mundo de hoje é quase maior que o de Alcibíades, mas o mundo continua sendo o mundo. A geografia diz respeito ao espaço, mas o espaço geográfico não é o mensurado pelo espaço geométrico. Por isso, o mundo de Alcibíades e o nosso, nesse sentido, tem o mesmíssimo tamanho. A fofoca era vigente lá, como é vigente cá. É uma pena os jovens não sabem quem foi um dos mais famosos reichinanos que já tivemos, o meu amigo José Ângelo Gaiarsa, que em meados dos anos setenta fez um pequeno e brilhante livro sobre a fofoca. Gaiarsa sabia das coisas.

Por tudo que estudei de filosofia e comunicações, aprendi que a fofoca é rápida por ela mesma, e não pelo meio material empregado por ela, e também não pelo fato de ter como conteúdo estapafúrdio. Sedo fofoca, ela tem sempre mais pernas que a informação séria. A mentira pode ter perna curta, mas isso não implica em ter menos velocidade ou menos eficácia – isso se vier em forma de fofoca. O desmentido nem sempre interessa a nós humanos, até mesmo quando estamos na berlinda. Sabe-se muito bem o quanto Alcibíades lucrou com a fama de excêntrico, até como traidor, na construção do personagem que ficou sendo esperado por sua cidade para “libertá-la”. Em determinado momento, seu nome estava em tantas bocas, que para ele e para ninguém mais a verdade era a questão, mas simplesmente o assunto Alcibíades era o motivo de conversas e… fofoca. Mas o que faz a fofoca ter êxito?

O que vem abaixo é algo das minhas próprias cartas na mesa: a fofoca guarda um vínculo com algo do âmbito da religião.

A fofoca tem sua velocidade e sua eficácia por uma razão simples: ela se faz passar pela revelação de um segredo, e a revelação de um segredo de algo redentor ou aparentemente redentor – uma palavra mágica para ficar rico, uma fórmula mágica para a juventude eterna, um remédio desconhecido para a impotência e o nascimento cabelo, uma simpatia para se ter o maior orgasmo feminino do mundo – é algo que tem raízes em nossa vida-de-hominídios-na-direção-do-humano. Não há cultura que não tenha suas mágicas, seus atalhos, suas maneiras de se relacionar com o “superior” (o divino ou semi-divino, a mágica), e que veja isso como um segredo. O poder do segredo é imenso. A fofoca é antes de tudo algo que é contado como um segredo. Como na religião cristã (e outras) ou no marxismo (que também teve função de religião), a ideia de que se estou “dentro” saberei de coisas que outros não saberão, é a herdeira racional da importância do segredo cujas bases são irracionais. O poder das religiões é este, o de trazer alguém para o campo do segredo, do ver mais e se salvar. A fofoca promete isso de um modo laico. A fofoca é o modo laico da nossa religião com o desconhecido superior, com gênios, deuses e até mesmo Deus! Santo Agostinho tinha Deus dentro dele para confessar-se, mas em várias de suas confissões notamos nada mais que fofocas (veja o episódio do roubo de peras).

A fofoca e não a internet precisam ser pesquisadas. Mas os obcecados por suas funções na imprensa são sempre mais propensos a se espantar, ou vender espanto, que investigar. São propensos à fofoca.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/03/2018

Imagem: Gossip Girls by Densetsu no Akira

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One Response “É a fofoca, cara! A fofoca!”

  1. Marisa Neres
    13/03/2018 at 16:18

    Que delícia de texto, Paulo! Eu não sabia que você e Gaiarsa eram amigos! Encontrei o livro dele sobre a fofoca que você mencionou em uma banquinha na UNB em uma das minhas últimas idas por lá. A fofoca, costumamos dizer pelo lado sociológico, é também um instrumento de controle social… Um belo exemplo disso é o estudo de Norbert Elias e John Scotson, Os estabelecidos e os outsiders.

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