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16/12/2017

Defensores de Waack querem queimar a Bruxa-Internet


Este artigo é indicado para o público em geral

Salvo engano, creio que foi nos anos cinquenta que especificamente, com a Folha da Manhã e O Estado de S. Paulo, surgiram as “cartas dos leitores” como efetiva matéria dos jornais. A interação cresceu e até a bem pouco tempo as “cartas” eram tão importantes quanto qualquer outra matéria. Hoje a Folha faz o destaque de algumas, inclusive em manchete, mas a interação entre público leitor e imprensa se dá, mesmo, é pela Internet. A rapidez da Internet e, nela, das chamadas “redes sociais”, cria o canal efetivo que alguns jornalistas e os que não historiam muito as coisas agora demonizam.

O episódio de declaração racista de Waack, e seu imediato afastamento da Globo (como no caso Zé Mayer, por outras questões), colocou vários jornalistas da direita na gritaria. Histerismo. Uns foram enaltecer o “melhor jornalista do mundo”, outros se transformaram em queimadores da bruxa única: as tais “redes sociais”. O que vem da “redes” é maior do que o número que as “cartas”, não pode ser controlado, influencia na pauta dos jornais e, então, deixa os pretensos donos da opinião malucos. Sou um simples professor, filósofo, mas às vezes colaboro com a dita “grande mídia”, e sei do que estou falando.

A reação popular ao que incomoda e parece injusto já estava nas “cartas”. Lembro o episódio do meu amigo Marcelo Coelho, ainda jovem, que num artigo disse algo parecido como “isso qualquer X da PUC entende”. Marcelo é uspiano, e viu o mundo desabar sobre ele. As cartas reclamando dele se avolumaram e ele sentiu imediatamente que havia errado, e então escreveu um artigo se desculpando perante os puquianos. Não foi uma frase a mais, o que fez, para escapar do problema. Foi um serviço profissional, consciente e sincero. Todos os que escrevem podem passar por isso. Mas Marcelo conseguiu realmente voltar às boas com a comunidade intelectual por uma razão simples: o que fez não foi crime, e ele, de fato, não era nenhum inimigo da PUC ou detrator. Para falar a verdade, nenhum intelectual é capaz de não amar a PUC-SP. Isso ajudou na sua recuperação.

A questão do racismo é bem diferente. Racismo é crime. É um baita crime. Pois racismo tem a ver com xenofobismo e, este, é o grande mote da desgraça icônica do século XX: a Segunda Guerra Mundial. Foi do Holocausto que tiramos as regras dos Direitos Humanos atuais. Foi o racismo individual transformado em doutrina estatal que fez com que, hoje, tenhamos os Direitos Humanos como parâmetro para tomar conta do Estado, para que este não queira trazer para si nossas taras individuais. O racismo é considerado como indutor de outros crimes. Está na base da crueldade genérica. Impede de existir aquilo que nos faz humanos, que é a comunicação. É causador de outros preconceitos que também roubam vidas. O racismo vai contra a ideia básica das democracias ocidentais liberais, que é o reconhecimento de que não somos nada iguais, que somos diferentes em tudo, até em inteligência, e por isso mesmo lutamos por leis que almejam a igualdade, para colaborar com a convivência. O racismo é a fala anti-parábola-do-bom-samaritano. O anti-racismo é a versão liberal, em forma de busca de tolerância e respeito, para aquilo que no cristianismo era um pedido mais profundo e utópico, o de fazer até o inimigo se transformar no ponto de chegada do amor.

Nesse quesito, quem se dedicar às pesquisas na Internet desses dias, sobre o caso Waack, verá que as reações não vieram de públicos comprometidos com “a esquerda” somente, ainda que Waack nunca tenha sido, de fato, o “liberal ponderado” que agora a direita pinta. Ele nunca teve a elegância de um Boner e muito menos o vigor de um Boechat. O que ocorre agora é que a luta contra o racismo, no seu espraiamento atual,  como a luta em favor da mulher e dos gays, já começa a ser algo que as pessoas acham melhor levar a sério como necessidade. Acreditar que as mídias atuais localizadas nas “redes sociais” querem alguma “carne fresca” para malhar, todos os dias é de uma ingenuidade absurda, talvez até má fé. Estamos num país de negros. Um país de maioria negra, mas onde a cultura negra é minoria sociológica. Acreditar que a Internet, que é um tipo de “carta dos leitores ampliada”, age frivolamente sempre, na busca de mais uma virgem nova para a voracidade do vampiro, é não ter atenção para o nosso arredor. Não perceber que o colega da frente da câmera é negro, é simplesmente não estar em lugar algum do nosso mundo, ou pior, achar que está, mas como dono da Casa Grande. Além do mais, é de uma soberba pecaminosa. A reação contra isso não foi de segmentos ideológicos, mas do sentimento de que o xenofobismo nos dá vergonha.

O jornalista que não aprendeu, desde os anos cinquenta, a levar a sério e com carinho a “carta do leitor”, é punido pela sua burrice. No caso do racismo, é punido por sua crueldade. Não quero com isso dizer que todos devem escrever ou falar o que a maioria na Internet pede. Mas todos devem saber de que lugar estão falando, para poderem, se quiser, cometer crimes sozinhos, sem carregar junto o próprio lugar em que estão. Waack não exerceu seu direito de crítica, o que ocorreu foi que ele, na frente de colegas negros, resolveu ofendê-los, desconsiderando a existência humana deles. Não entender isso é perder a noção do que é o humano, e foi exatamente isso que ocorreu no Holocausto.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/11/2017

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6 Responses “Defensores de Waack querem queimar a Bruxa-Internet”

  1. Juliana
    15/11/2017 at 14:35

    Paulo, gostei muito do texto, mas lembro que você escreveu sobre o episódio do Mayer, justamente criticando seus colegas que o execraram publicamente. No entanto aqui você critica os colegas que foram defender o jornalista. A situação não é a mesma?

    • 15/11/2017 at 15:39

      Juliana, leia de novo os dois textos. Além do mais, veja como escrevo vários textos sobre os mesmos assuntos, tentando trazer vários enfoques não só para o leitor, como um treinamento meu. No caso do Mayer eu não abordei o ato dele, mas duas outras coisas: num texto falei do incentivo à delação, no segundo o pedido para que as novelas tenham um caráter didático etc, como isso é ruim etc. Aliás, você não leu sobre o Waack o que escrevi no outros textos. Em geral eu vou tentando criar um mosaico sobre um assunto.

  2. 13/11/2017 at 20:20

    Os que mais defenderam o jornalista foram Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo. Também, há um sujeito em um canal do Yotube, que diz que a Rede Globo é “racista” porque em seus telejornais e telenovelas não há negros apresentando e atuando. Em seguida, ele compara a TV Globo com o futebol, onde o número de negros é bem maior, proporcionalmente. O professor concorda com isso? Eu, não.

  3. Luciano
    12/11/2017 at 12:45

    Do conservadorismo só espero asneiras, mas o que teve de ‘liberais’ se doendo pelo Waack não ta no gibi.

  4. Luma
    11/11/2017 at 15:30

    Excelente texto, Paulo! Aliás, me parece que no âmbito da música brasileira, pelo menos, os brancos que se identificaram como negros foram aqueles que conseguiram conquistar a mais alta fama na nossa cultura: Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, é um exemplo. Quando escutamos o disco dele com o Baden Powell (Afro-sambas), a gente sabe que a famosa declaração de que ele é o branco mais preto do Brasil é verdadeira. Ele não estava brincando. Ele se identificava como negro, apesar de ser branco. E fez questão de dizer isso para todo mundo saber.

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