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16/12/2017

Calligaris também está preocupado com os linchamentos da Internet?


Artigo destinado ao público em geral

Meu amigo Contardo Calligaris está preocupado com as redes sociais (Folha, 07/12/2017). Generoso e justo como sempre, deu os créditos ao seu leitor Thiago Braga, que teria lhe ensinado por e-mail o segredo a respeito da indignação causada pela foto (e vídeo) de dois meninos se beijando em festa de uma festa de aniversário ilustrada pelo tema “Pablo Vitar”. Segundo Calligaris, eis a chave para analisar o fato: “Thiago me escreve: ‘Uma questão moral que deveria ser tratada em privado (pelos garotos com seus pais e, no máximo, seus psicólogos) tornou-se uma questão de mexerico e apedrejamento universal'”.

Não entendi bem se o Thiago estava analisando ou só recriminando os atiradores de pedras virtuais, e, de certa maneira, também não sei se Calligaris realmente ficou satisfeito com o que diz ter aprendido de Thiago. Pelo sim e pelo não, teço alguns comentários.

Toma-se o “mexerico” e o “apedrejamento universal” como novidade! A vida privada não tem mais razão de ser, e então, como diz Calligaris, “Retrocedemos: do foro íntimo moderno ao fórum dos romanos.” Em suma: o mundo privado se espatifou diante da Internet. Rompeu-se o básico do conceito de modernidade que é a separação entre o público e o privado. Foi para o espaço a ligação desta última instância ao chamado “foro íntimo” e direito à “interioridade”. Bem, mas isso não é novidade – todos nós estamos notando isso. Calligaris mesmo diz que isso já se tornou uma banalidade. O problema é que ele, Calligaris, toma isso como “retrocesso”, uma volta ao “fórum dos romanos”. E ambos, ele e Thiago Braga, parecem que estão afirmando que o já célebre “linchamento virtual” é alguma coisa espantosamente má, que caracteriza o fim dos tempos modernos e, pior, o fim da moralidade.

Ora, já escrevi aqui, várias vezes, que linchamentos virtuais são o que são: linchamentos de mídia, e sempre existiram. Não são a anti-modernidade, mas a situação pós-moderna desdobrada de condições modernas. Uma forma de hipermodernidade. Na hipermodernidade, nos lembra Lipovetsky com certa razão, amplia-se a noção de uma ética meio que licenciosa em detrimento da ética kantiana ou religiosa do dever. Somos permitidos a mais coisas, segundo juízo nosso mesmo. Nossa moral, em associação com essa ética, permite que garotos se beijem em festa e, em contrapartida, permite que mais gente ponha o bico nisso e critique.

Mas diante desse novo fato moral, Estamos agindo como se a nova mídia, agora feita por todos e não mais por professores e jornalistas, fosse um novo diabo. Pode ser! Mas antes desse diabo, o diabo real não deixava tudo que era midiático em paz e maravilhoso. Aliás, a vida com a existência do mundo privado e do “homem interior”, de invenção oficial de Santo Agostinho, e que é reivindicada por Calligaris como o bom mundo que agora é atacado pela Internet, existiu mesmo? Ora bolas, qualquer um de nós sabe que o ideal de preservação do “foro íntimo” nunca se concretizou e, de certa forma, nunca poderia mesmo se concretizar pois, afinal, sempre solicitamos também a “transparência” – o ideal para a vida política. Um autor que tem atentado para isso é o filósofo germano-coreano Byung Chul Han.

Da minha parte, traduzo as coisas assim: será que alguém, um dia, imaginou que a transparência ocorreria para o âmbito da política sem atingir todos nós, os que não são políticos? Nem mesmo quando não existia a Internet pensamos que seria assim. Todos já sentiam, antes mesmo da Internet, que não haveria Big Brother, mas que haveria sim, em cada um de nós, um mini-Big-Brother. KGB e Cia faziam a parte dela, mas o buraco de fechadura e tias na janela fariam a outra parte. Um mundo sem fofoca e sem linchamento pela imprensa não teria graça alguma, nem seria mundo. Um mundo no qual Vargas não viesse a se matar por pressão da imprensa não seria um mundo humano. Mas Vargas não foi o único a se matar por pressão da vizinhança.

Vamos reconstruir nossas subjetividades e reinstaurar um novo tipo de “interioridade”. Não devemos esquecer que nossa moralidade pode desaparecer com  o fim da vida privada instaurada no horizonte conceitual moderno e burguês, mas isso não indica o fim da ética, justamente o contrário. Não necessariamente um mundo ético, sem moral, é pior do que um mundo em que ética e moral se separam.

Mostrei por vários artigos aqui neste blog, falando da preocupação do Mário Sérgio Cortella e de outros, sobre o medo de “linchamentos virtuais” e a preocupação com a “superficialidade da rede”, que estamos focando em certos aspectos da Internet que não são os mais importantes e que não são os que trazem novidade. Achar que pessoas comuns podem agora estar na mira de fofocas que as condenam, como era o caso de artistas e políticos pela imprensa tradicional, e que isso é um perigo, é não entender que as pessoas comuns também já eram julgadas pelos vizinhos do bairro. Como disse: Vargas não se matou sozinho. Muita gente mudava para a cidade grande quando não suportava a pressão do olhar do vizinho, e, então, descobria que São Paulo também poderia ficar pequena – o local de trabalho pode virar um antro de mexerico igual a uma cidade do interior. A condenação do comportamento do outro pode estar no âmbito da moral mas também no âmbito da ética. Sócrates viveu num mundo sem moral, só com ética, e foi condenado. Foi morto realmente, e não foi apenas vítimas de ataques do Facebook. Linchamento virtual é virtual! Estamos confundindo tudo. Estamos preocupados com coisas virtuais em demasia, e fazendo como aquele colunista da Folha conservador que, para defender envergonhadamente o racismo (do Waack), começou a igualar o virtual com o real.

O fato é que estamos perdoando bala perdida real e fome real para darmos importância para “linchamentos” que não duram semanas, boataria de Internet. A Internet é um monstrengo com corpo que deve ser estudado. Mas não é pela via do medo do mexerico universal que estampa que ela apresenta sua face essencial. Longe disso. O facebook das pessoas que condenaram os meninos beijantes ainda não causa nenhum problema perto do twitter diário do Trump.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 07/12/2017

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