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26/09/2017

Black Mirror contra a biopolítica de Agamben


A série britânica Black Mirror tem uma parte de seus episódios que desafia diretamente a noção de biopolítica. Pode ser que a biopolítica como Foucault a colocou na praça se mantenha um tanto intocada, mas a versão dada à noção a partir de Giorgio Agamben, no meu entender, sai arranhada. Explico.

A biopolítica em Foucault é uma noção que ele utiliza para caracterizar a seu modo a modernidade. Ele diz que os tempos modernos são aqueles nos quais a vida biológica passa a contar para a política, adentrando a preocupação do estado com nascimentos e mortes, política de saúde, precaução com as mães diante do aborto, visão sobre saneamento básico e com a suavidade de penas e coisas do tipo, política para velhos e crianças a partir de cronologias etc. Agamben se aproveita disso para falar que a modernidade é a época em que a vida biológica ganha seu espaço de importância, tornando-se a única e própria noção do que é vida, enquanto que a vida anterior à modernidade, a vida sempre atrelada à vida moral e seus adendos se coloca em um segundo plano. Assim, Agamben mostra o lado perverso da biopolítica ao notar que a modernidade ganha o status do campo de concentração. Neste, também a noção de vida passou a ser a de vida nua, biológica, sem qualquer adereço daquilo que sempre foi, em tempos pré-modernos, considerado a vida. A vida antes da modernidade sempre foi a vida moral. Nesse sentido Kant foi o último dos filósofos a pagar um preço à tradição: uma mulher estuprada, para ele, deveria lutar até seu último recurso e, se consumada a barbárie, então deveria antes de tudo tirar a sua própria vida. Afinal, a mulher já a tinha perdido. Pois a vida é sempre vida ético-moral, ou seja, vida humana. Vida sem honra não é vida. A vida biológica é a vida animal, é a vida que contamos na modernidade, o tempo em que preferimos antes viver desonrados que morrer.

De uma maneira geral aceitamos essa noção de Agamben de biopolítica, às vezes acriticamente. Mas se ela tem validade para olharmos as macropolíticas, em especial a maneira como o estado traça seus planos para a sociedade, uma tal perspectiva parece não se sustentar quando observamos o âmbito da vida privada, ou o que resta dela no entrelaçamento entre cotidiano de  corpos de carne e osso e o cotidiano de corpos virtuais. Três episódios de Black Mirror me vem à mente no trabalho de contestação de Agamben: The National Anthem (o do primeiro ministro que precisa fazer sexo com um porco), Shut Up and Dance (o do garoto que foi pego se masturbando na Internet vendo fotos de menores) e Nosedive (o da moça que precisa ir bem no “ibope” de círculos de redes sociais para se sentir alguém).

Em todos os três episódios a opinião do que é dito em rede social incomoda profundamente o personagem principal. Em todos eles a vida avaliada pelos outros, revestida de uma aura moral – seja lá o que for que é chamado aí de moral – que as pessoas esperam de cada um é mais importante que a vida biológica. A imagem que elas devem possuir para seus amigos, familiares e colegas de trabalho, o que é seu eu social em funcionamento,  é o que dita aquilo que elas entendem como vida. Estar vivo é estar nessa vida capaz de não degradação da imagem, ou seja, do recorte ético-moral desejado. Em todos o casos, é a vida privada ou a vida em círculos particulares que importa ou é afetada, e esta é, sim, a vida que importa preservar. A vida biológica não adentra com força, e os parâmetros da biopolítica não se mostram, nesse caso, importantes ou decisivos. Vale a pena viver biologicamente se e somente se a vida exclusivamente não biológica é preservada. E esta é construída pela operação de aprovação das redes sociais.

Nesse sentido, vale lembrar de Debord: nosso tempo não está preso ao dilema “ser versus ter”, mas sim ao imperativo de aparecer. Apareça! Mas o aparecer, nesse caso – e isso Debord não viu – é algo que mantém preso a quem precisa aparecer as prerrogativas de “aparecer bem”. Nesse caso, o que se quer é que a imagem ético-moral de cada um de nós seja o que nós queremos que seja, não outra coisa. Há um arremedo de honra aí, mas ainda assim é honra o que se cobra para falar de vida.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 20/122016.

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7 Responses “Black Mirror contra a biopolítica de Agamben”

  1. Pedro Possebon
    22/12/2016 at 22:39

    P.S. esse capítulo, o Nosedive, é realmente aliviante. Ele termina com a ideia de que se podermos ofender-nos uns aos outros deixaremos a hipocrisia de lado. O que me parece uma vã ilusão…

  2. Pedro Possebon
    22/12/2016 at 22:37

    É isso que estava me incomodando, caralho!
    Há quem diga – nunca mais achei o texto, o que pouco importa. Que a internet morreu. E é uma boa perspectiva. No olhar do autor deste texto, a internet apareceu para os jovens na virada do milênio como a possibilidade de fugir da “hipocrisia” familiar. Nela você poderia inventar um nickname e entrar num chat com desconhecidos. Qualquer coisa era só mudar o nickname e voltar com outra identidade.
    As redes sociais como um todo, porém principalmente o FaceBook. Mataram a (essa) internet, o FB cobra que você lhe dê seu nome real, até te pede o RG, monta um perfil. Tudo isso repõe nossas relações como elas eram antes da internet…
    Acho que nunca mais acharei aquele texto, a não ser que eu mande um e-mail para o autor. PELO FACEBOOK!

  3. Anderson Luiz da Silva
    22/12/2016 at 14:54

    A “aparência”, a “figura”, o “muçulmano”, a “vida besta”, a “vida reduzida”, não é tudo isso que caracteriza a transição da bios politikos para a zoé?

    • 22/12/2016 at 15:19

      A vida como vida biológica é o que caracteriza a modernidade, na conta de Agamben, ao menos.

  4. Rodrigo Botelho
    20/12/2016 at 10:07

    Interessante o ponto de vista sobre BM. Mas fico pensando se o que a série mostra é mesmo a necessidade de “aparecer bem” ou atitudes diretamente ligadas a necessidades, se não propriamente biológicas, pelo menos de autopreservação.
    Em Nosedive, p.ex., a protagonista não pode nem mesmo alugar o apartamento que deseja se não tiver uma boa nota. Ela, inclusive, só se submete ao jogo de aparências da festa com esse objetivo.
    Em Shut Up and Dance, o garoto seria preso e julgado por pedofilia se o vídeo fosse publicado. O outro homem teria o casamento destruído.
    Enfim, vejo a postura dos personagens mais como busca de atender a necessidades elementares e imediatas do que como construção e manutenção de aparências.

    • 20/12/2016 at 10:09

      Botelho aparências são exatamente a vida moral, ou seja, a vida antes da biopolítica. Não se lembra de “a etiqueta no Antigo Regime”?

  5. Sergio Fonseca
    20/12/2016 at 08:53

    Esse caso dessa jovem de Porto apoia essa sua reflexão. Muito bom texto, professor!!!
    http://oglobo.globo.com/brasil/jovem-comete-suicidio-depois-de-ter-fotos-intimas-vazadas-na-internet-10831415

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