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17/12/2018

Anitta em Harvard


[Artigo indicado para o público em geral]

A primeira coisa que o brasileiro descobre ao começar a viver nos Estados Unidos é que o Brasil não tem importância nenhuma para os americanos. O americano não sabe onde fica o Brasil e não quer saber. O Brasil não é interessante como, por exemplo, o Japão, a Índia ou a China ou todo o mundo árabe – lugares que recebem atenção da mídia americana. Os americanos não sabem o nome da capital do Brasil, embora possam mencionar capitais de países que não acreditamos que existem. Na universidade, então, a coisa até piora. Nada da cultura brasileira atrai – e hoje em dia, nem mesmo o futebol.

Infelizmente, ao invés de aceitar tal situação e tentar se integrar na cultura americana, para aprender, não são poucos os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, em especial estudantes, que não conseguem deixar a terra natal. Chegam aos Estados Unidos, mas não saem do Brasil. Começam a ter chiliques nacionalistas. Deixam de  aprender o que foram aprender e começam a acreditar que é necessário que o Brasil seja conhecido pelos americanos. Mas os americanos não querem saber do Brasil. Para eles, é cultura inútil. Eis então que os estudantes brasileiros, não raro, se encontram para formar uma “comunidade brasileira” no USA! A ordem é: tornar o Brasil o centro do Universo, dado que nosso país é “o país do futuro”.

O caso de Harvard não é diferente. Lá existem brasileiros com dificuldade de fazer o que deveriam fazer, que é estudar. Eles não se integram, e pessoas assim logo encontram atividades desviantes, que elas mesmo classificam como úteis. É desse modo que nasceu um grupo de estudantes brasileiros que criou, exatamente como evento estudantil, o “Brazil Conference”. É um lugar onde pesquisadores brasileiros são chamados para entrar em contato com os pesquisadores americanos? Não! Não se trata de um evento acadêmico, efetivamente oficial, de Harvard. É um evento de, digamos, “diretório estudantil”, na sua parte “cultural”. Pede-se uma sala para uma faculdade, pede-se para que o calendário da Universidade inclua um evento a mais, e eis aí o “Brazil Conference”. Pode-se então tentar arrecadar dinheiro de diversas formas, aqui no Brasil e lá no exterior, para pagar despesas de gente que ganhou espaço na mídia, para ir até lá, de modo a fazer com que o “Brasil Conference” não esvazie. Pode-se pegar a Dilma, por que é fácil pegar político; pode-se pegar o Moro, que é um cara que não rejeita convite para falar o que tem que falar; pode-se pegar um Suplicy, que vai até em briga de galo, pode-se pegar a Gisele Bundchen  que afirmou no Programa do Jô que ela tinha “dois tremas no nome”. O importante é que seja gente brasileira que, de alguma forma, não deixe os poucos americanos que vão nesse evento, mais em tédio do que já ficam, normalmente, quando escutam o nome “Brasil”.

Anitta é a bola da vez. Ela não interessa aos americanos por ser brasileira. Ela interessa aos americanos por ser algo parecido com o que já foi Jennifer Lopes e até mesmo Shakira: algo do mundo latino que se desenha em um tipo especial e particular de integração com parte da América. O lado multirracial da América, contido no último clipe de Anitta, muito bem feito, está na jogada do que os americanos querem, ou ao menos parte deles. Então, Anita também entra no rol dos convites que pode dar alguma substância ao “Brazil Conference”. Pode encher um auditório e fazer com que a direção de alguma faculdade de sociologia ou antropologia de Harvard olhe para o evento como alguma coisa que até vale a pena. Talvez até saia nos jornais internos da Universidade! Vai dar currículo para os organizadores, não como quem estudou em Harvard, mas como que fez o “Brazil Conference” em Harvard! Talvez um dia no Brasil, um país que não cultiva a memória, isso tenha lá alguma valor.

Anitta, eu já disse várias vezes, acertou a mão no último clipe. Ela está na onda do que a cultura latina pode fazer na sua inserção no primeiro mundo, dentro do que este reservou para os latinos. Não há que criticá-la por isso. Muito menos há o que criticar nela por conta da sua sensualidade. Agora, quanto a Harvard, Anitta não a interessa. O Brasil não interessa a Harvard. Até um repetente escolar brasileiro pode falar em Harvard numa sala reservada por estudantes. Anitta é alfabetizada e tem um bom inglês, já é melhor que muita gente. Já imaginou se fosse Bolsonaro? Dizem que que quando batem à porta dele, no gabinete, ele já se lança no inglês, que vem estudando com afinco, e diz “between”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 08/02/2018

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10 Responses “Anitta em Harvard”

  1. 12/05/2018 at 19:05

    Engana-se,meu caro professor. Meu primo teve aulas de literatura brasileira na Universidade de Colúmiva, onde teve aulas de Machado de Assis, autor muito admirado nas plagas do Tio Sam!

    • 12/05/2018 at 19:20

      Eu trabalhei em universidades no exterior. Em parte das universidades americanas são professores de espanhol que dão aulas de português. O Brasil é, para intelectuais americanos, bem menos importante que a Colômbia ou a Argentina. E talvez eles tenham certa razão sobre isso.
      Aprenda uma coisa quando ler meus textos: se eu não sei, não escrevo.
      Para você estudar mais: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-68212012000100003

  2. Pedro de Sousa Portela.
    12/02/2018 at 22:08

    Prof. Paulo, eu sinceramente, não sei porque os Estadudinenses têm que interessarem-se por nós para sermos um povo interessante. Aliás, não sei porque eles precisam nos aprovar para sermos aprovados ou culturalmente, ou em qualquer outra coisa. Se eles não nos conhecem é porque são ingorantes, como ignorante é todo aquele que não conhece. E são prepotentes também, por acharem que a América se resume aos Estados Unidos, tanto que,erradamente, alcunham sua nacionalidade de americana como se a America fosse somente o seu país e não um continente inteiro. Eu e você somos tão americanos quanto eles, mas para eles eu e você não existimos, não é isso mesmo?

    • 13/02/2018 at 19:31

      Pedro, leia meu artigo novamente. Ele não trata do seu assunto.

  3. Leandro
    11/02/2018 at 16:10

    Boa tarde professor!
    Em uma de minhas pesquisas, reli livros seus na esperança de encontrar as soluções para alguns obstáculos de investigação, então, deparei-me com este “ambiente”… estou feliz por tal acontecimento! Um professor nunca se cansa… Parabéns por nos dar a honra dos seus pontos de vista instigadores!

  4. Hilquias Honório
    10/02/2018 at 15:06

    Lendo esse texto percebo o quanto ainda tenho que aprender. Parabéns!

    • Hilquias Honório
      10/02/2018 at 15:07

      Ps: sobre quem tem raivinha de mulher sensualizando, só pena!

  5. Johann Wolfgang
    10/02/2018 at 10:54

    O Brasil está tão repugnante que uma mulher sensualizando é mais atraente para o Americano.

    • 10/02/2018 at 14:28

      Wolfgang, uma mulher sensualizando é o que você não gosta? Azar seu.

    • Guilherme Pícolo
      13/02/2018 at 09:56

      Wolfgang, não gosta de mulher, é uma escolha sua. Para quem gosta é atraente sim (mais do que discussões geopolíticas, por exemplo)

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