Go to ...

on YouTubeRSS Feed

24/10/2017

A acusação de inveja é insegurança, vocação autoritária e incompetência


Quando um midiagogo acusa alguém de inveja, ou deixa sua claque assim fazer, ele já provou que é um midiagogo

Anos oitenta no Brasil. Tempo de uma prática comum entre as esquerdas: não dar interlocução para críticos, principalmente críticos internos. Se alguém de esquerda ganhava alguma fama acadêmica, quase que de imediato adotava tal prática. Ficava na chamada “posição olímpica”. Mesmo quando a crítica era pertinente e quando permitiria um crescimento intelectual de todos, a resposta não vinha. Alguns adotavam a prática de responder em privado, e assim fingiam ser democratas e abertos, quando na verdade isso era um modo de censura, de exclusão do outro.

Agora, após o nascimento do intelectual midiagogo (o midiático demagogo que se diz professor), que estuda pouco e fala muito, a prática da esquerda também atingiu a direita, mas não é só a do silêncio. A moda é a patifaria de acusar os críticos de “invejosos”. Como a inveja é o pior dos males, aquilo que todo mundo sabe que existe mas é incapaz de dizer que sente, e como se trata de algo subjetivo, tal acusação torna-se irrespondível. “É a inveja”, dizem os chefes de claque do midiagogo, por sugestão dele e, depois, por iniciativa própria – afinal, são seguidores! Não conseguem ver que se alguém critica alguém, apontando um erro, o alvo da crítica é aquele que é acusado de estar errado, portanto, não é motivo de inveja de ninguém, muito menos inveja vinda do crítico. Alguém acha que o outro está errado, critica-o, mostra suas falhas, e mesmo assim o inveja? Não mesmo! Quem quer invejar o errado?! A acusação de inveja é ideológica e matreira.

Mas qual a razão dessa matreirice ter se generalizado? Qual a razão pela qual um midiagogo se preocupa em dizer que seu crítico é invejoso, e já de antemão, antes de fazer qualquer coisa, já dar suas primeiras palestras avisando que “inveja vem do incomodo pela felicidade do outro”? Claro, se o midiagogo fala só coisas vazias, ele mesmo não dá atenção para o conteúdo do seu discurso, não estuda, fala jargões, adere a posições fáceis e meramente políticas e, então, está predisposto a reduzir os embates intelectuais não como chance para discutir problemas reais, mas apenas como uma competição para ver quem tem mais purpurina no tablado. Subjetiva tudo. Aliás, sua atitude é tão anti-intelectual e ignorante que acaba até por conceituar a inveja de modo errado.

A inveja é uma doença dos olhos. Mas ela não necessariamente está ligada à raiva pela felicidade do outro. Gente que não lê os gregos, para ver que a inveja tem uma baba verde, que joga no peito do invejado à noite, ou seja, ataca às escondidas e não em artigos e posições pública, não sabe o que é a inveja. Quem faz uma crítica pública está muito longe da figura clássica da inveja, na tradição greco-latina. A inveja não se mostra. Mas o midiagogo é ignorante também da tradição judaico-cristã. Não leu a Bíblia, não sabe que o episódio da inveja aparece no contexto da discussão da justiça. Caim ataca Abel às escondidas, sim, mas o faz porque não suporta a injustiça divina. Podemos ler assim o episódio: todos nós temos o direito de nos revoltarmos contra a injustiça. Mas, se exageramos, não estamos entendendo que Deus é, não raro, uma força natural (no Antigo Testamento), e que não faz as coisas por merecimento.

Quando temos uma cultura geral mínima, uma formação de um bom ensino médio, e vemos essas duas fontes da inveja, não cometemos o erro de qualificá-la de modo como um ataque ao outro pela sua felicidade, assim, de um modo simplório. Só faz isso o ignorante.

Todavia, independentemente dessa conceituação da inveja, o que está na prática do midiagogo é a insegurança diante da reflexão conjunta, da crítica, e o desespero que emerge dessa situação e que, então, como sempre, desemboca no autoritarismo. Diz ele para a sua claque, tão ignorante quanto ele: “diga que é inveja e então calaremos o pretenso crítico”. É a posição menos nobre possível. A mais medíocre. Golpes de estado militares para fazer calar críticos são patifarias menores diante de quem quer calar com a acusação “é inveja”. Pense nisso.

Wittgenstein disse que um intelectual que não entra no embate da crítica nunca é como o lutador que jamais entrou no ringue. No Brasil o midiagogo é o lutador que sobe ao ringue, mas só fica lá se ele puder ficar sozinho, dançando e rebolando. Ele fala e dança, mas ele não ousa ouvir e responder. Ele é o midiagogo.

A inveja tem uma aparência horrível? Garanto que a acusação de inveja tem um rosto bem pior, o rosto da covardia.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 28/07/2016.

VÍDEO: https://www.facebook.com/ghiraldelli.filosofia/videos/1073294162707426/

Tags: , , , ,

3 Responses “A acusação de inveja é insegurança, vocação autoritária e incompetência”

  1. Orquideia
    30/07/2016 at 05:49

    A inveja sempre está ligada a uma sensação de prejuízo real,e não a visão de uma pessoa feliz que não fez nada errado.

  2. Wilson.Briga
    28/07/2016 at 11:40

    … Muito bom este comentário.

    – Como psicanalista estava procurando um modo de demonstrar a inveja, que é muito difícil de evoca-la por ser um sentimento a ser aprendido!… Aprendido sim, para não ser confundido com o sentimento de auto baixa estima…(…)…etc…

    Wilson.Brigada.
    Cientista Social
    – Psicanalista.

    • 28/07/2016 at 12:38

      Wilson, eu que agradeço por ler minhas coisas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *