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21/10/2018

As diferenças (sutis) entre a ciência e filosofia


[Artigo para o público acadêmico]

Diferenciar ciência e filosofia é fácil. A dificuldade se estabelece quando as linhas divisórias ficam mais borradas. Quando falamos de sociologia e filosofia ou quando falamos de ciência política e filosofia política – aí sim é necessário uma elaboração semântica mais aguçada.

Na base, em termos bem genéricos, a ciência tem um lado experimental e pouco normativo e a filosofia tem um apelo não ao experimento, mas à experiência, e tem claramente um lado normativo, que pode ser utópico ou simplesmente um conjunto de procedimentos ideais. Mas como isso se operacionaliza?

Durkheim foi o primeiro a fazer uma divisão entre a sociologia como ciência e a filosofia social como filosofia. A ideia dele é que a sociologia deveria tratar do objeto de pesquisa, o “fato social”, como “coisa”, ou seja, do modo que o cientista da natureza faz com os objetos do mundo físico. A observação, a descrição e a busca de explicação dos fenômenos se fazem com aparato quantitativo, com formulações de hipóteses que possam ser trazidas para o laboratório e, enfim, possam ser transformadas em teses defendidas junto de uma argumentação positiva, ou seja, não exclusivamente negativa, crítica.

Os historicistas alemães, com Dilthey à frente e Weber em seguida, não modificaram muito esse panorama, embora tenham feito um barulho que Durkheim, que foi até à Alemanha para estudar isso,  conhecia bem. Eles disseram que fenômenos sociais, ou seja, o que vem da manifestação do “espírito” (e a palavra espírito, aí, mantem conotações hegelianas), não podem ser simplesmente descritas e explicadas através de uma narrativa de exposições de cadeias causais. O movimento diante dos fenômenos espirituais teriam de ser, antes de tudo, compreendidos. A explicação vai em busca de relações causais, a compreensão persegue motivações espirituais, ou seja, culturais, históricas e psicológicas etc. Os alemães foram menos avessos que Durkheim à filosofia. Fizeram sociologia, mas, na verdade, deram vazão mesmo à filosofia social.

Assim, a escola durkheimiana ou positivista ficou com o paradigma da explicação e a escola historicista ou weberiana ficou com o paradigma da compreensão. Um positivista estuda o suicídio buscando causas dele através da correlação entre situações e efeitos, ou seja, as mortes, tendo como base as estatísticas. Um historicista busca biografias e histórias de vida, tentando ver motivações  e razões para a busca da morte antes que causas da morte. O positivista olha o suicida “de fora”, o historicista busca o “interior” do homem que se matou. É difícil separar esses métodos para uma boa pesquisa. Em geral, ficamos sabendo mais e casamos esses métodos (os pragmatistas, por sua vez, diferem de ambos, pois não fazem a distinção clássica entre causas e razões – veja para isso meu texto na Folha de S. Paulo, de 2005 – Crenças e desejos pragmáticos)

Mas, nos dois casos, weberianos e durkheimianos buscam fazer ciência. Talvez queiram prevenir o suicídio, diminui-lo etc. Mas não vão construir uma cidade segundo uma teoria de funcionamento em que o suicídio deva tender a zero. Nem vão construir uma utopia, uma ilha onde o suicídio é zero. Isso é “coisa de filósofo”. A parte normativa forte, via teoria ou utopia, é componente da filosofia social ou da filosofia política.  Os filósofos, quando olham para o cientista social, seja ele positivista ou historicista, o tomam como um realista perverso, alguém que estaria estudando fenômenos sem se preocupar em criar condições para que o mal desapareça. Os cientistas devolvem a acusação dizendo aos filósofos que eles continuam não entendendo nada sobre o mundo, que no fundo fogem do mundo “real”. A própria filosofia cria, então, uma filosofia das ciências humanas (que até já virou disciplinna), e assume os dois lados – e isso se torna uma disputa interna na filosofia! No limite, três grandes posições se formam a esse respeito. Há filósofos que se querem realistas, dizendo que eles são capazes de enfrentar “o mundo como ele é”, há os filósofos não-representacionistas que dizem que os realistas não podem ser tão pedantes assim para querer dizer “como o mundo é”, e, enfim, há os filósofos que pregam que a filosofia sem teoria de construção do novo e do melhor, ou sem utopia, simplesmente não vale a pena. A ciência bate em retirada e deixa, assim, os filósofos com a batata quente nas mãos. Os cientistas acabam dizendo: xiii, estão filosofando com o nosso material, isso não nos interessa.

Assim, três escolas filosóficas nascem exatamente do embate entre filosofia social e sociologia. Claro que esse embate tem reflexo em outros campos das “Humanidades” e do ensino humanístico. Afinal, todo ensino humanístico é, na base, uma disputa entre ciência e filosofia, e portanto uma disputa, dentro da filosofia, de correntes metafísicas e correntes pós-metafísicas. Os primeiros querem fundamentos, e dizem que se alguém não quer fundamentos meta-físicos deveria ser cientista, não filósofo. Os segundos dizem que é possível não querer fundamentos metafísicos e, ainda assim, estar de posse de um tipo de narrativa que não é a narrativa necessariamente positiva das ciências. Habermas, Rorty, Derrida, Foucault, Rawls, Marx, Heidegger, Sloterdijk, Nietzsche, Butler são filósofos pós-metafísicos. Eles não acham que precisariam ter feito ciência uma vez que abandonaram o discurso da busca de fundamentos da metafísica clássica.  Todos eles acreditaram ou acreditam que a narrativa que fazem pertencem à tradição antes de Platão que a tradição de Cervantes. Mas vários deles – Rorty e Sloterdijk à frente – foram os que defenderam que livros são livros, e que uma narrativa da tradição literária ou da tradição filosófica não precisam se porem em oposição ou com muita diferença.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. – Professor aposentado da UFRRJ e atual professor-pesquisador da ECA-USP.

Gravura: Sogno e metafisica delle fiabe nelle opere di Christian Schloe – laboratorio creativo (link)

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9 Responses “As diferenças (sutis) entre a ciência e filosofia”

  1. Cristiano
    27/07/2018 at 09:30

    Bom dia professor excelente texto.

    Uma dúvida me ocorre durante a leitura e me levou para outro lugar, mas próximo:

    É correto usar a expressão experiência Filosófica? Sendo que esse “experiência” remete a ciência. Contudo, vemos que empregam “experiência” para se referir a experiência matemática, biológica, artística etc.

    Que experiência é essa que podemos especificar também como filosófica?

    Obrigado!

    Ótimo final de semana!

    • 27/07/2018 at 09:41

      Você confunde experiência com experimento. A experiência como experimento é a da ciência.

  2. Eduardo Rocha
    26/07/2018 at 20:00

    E com relação às representações de mundo? O mundo não poderia ser somente o mundo da ciência? Um filósofo também pode escrever, descrever ou redescrever mundos? Se o homem moderno é um típico empirista ou como Heidegger fala da “época das imagens de mundo”, a ciência não poderia tomar para si mesma e se tornar a capitã das representações de mundo? Por que ela é tão hegemônica? Um cientista poderia trabalhar de dia e ser estritamente técnico com ondas gravitacionais e buracos negros e a noite ser um cristão fervoroso e quem sabe acreditar até no criacionismo? E no caso, o que diferenciaria fé x religião ou crença x fé? Eu acredito que me alimentando melhor posso construir um corpo melhor tanto esteticamente como coisas relacionadas psicossomaticamente (até pensar melhor e grávidas terem bebês melhores), mas eu posso fazer isso e de repente ter um ataque cardíaco e morrer ou algo do tipo. No caso, a religião não poderia falar sobre o mundo, a antropologia, sociologia, filosofia, teologia, etc.?

  3. Francisco
    26/07/2018 at 17:47

    Excelente. Não tinha me dado conta de como as posições de Weber e Durkheim estão presentes no direito penal: num primeiro momento, era dado um tratamento mais objetivo ao crime – provocar dano a alguém com ou sem intenção dava na mesma; a seguir, passa-se à introdução do elemento subjetivo – o estado do espírito: as condições históricas, sociais, etc, que levaram o agente a realizar o ato; atualmente, ambas as posições estão mescladas. Em paralelo, há os que realizam uma teleologia do direito penal, os criminólogos, que buscam encontrar um direito penal mais adequado aos fins de coesão social a que a sociedade se propõe. Estes últimos se dizem cientistas, mas parecem mais próximos da filosofia política.

    Agora, e aqui fica a minha dúvida, que imagino ser óbvia para quem tem formação em filosofia, como eu consigo diferenciar filósofos metafísicos e pós-metafísicos? Eu tenho dificuldade para perceber essa passagem. Quer dizer, a mim, não parece haver muita diferença no método do discurso quando se fala em conceitos como “contrato social” (Rousseau), “imperativo categórico” (Kant), “luta de classes” (Marx), “Dasein” (Heidegger), “jogos de linguagem” (Wittgenstein), “sentido é o acontecimento da linguagem” (Deleuze), “ação comunicativa” (Habermas), e assim por diante. Como leitor, parece-me que sempre está sendo apresentada uma espécie de metafísica, ou seja, uma explicação para além do ser que mostra a essência do ser. Por que os textos filosóficos do século XX geralmente são chamados de pós-metafísicos?

    Abraço

    • 26/07/2018 at 18:44

      Um filósofo metafísico busca fundamentos metafísicos, ou seja, são o imutável que garante a verdade das teses defendidas. Por exemplo: como que você sabe que a justiça é justa? Ora, porque há uma Justiça, em forma (ou Ideia), para além dos atos dos humanos, que é a matriz pela qual você mensura cada ato humano para saber se ele é realmente justo. Eis aí portanto que a forma da Justiça, em Platão, é um fundamento metafísico.

  4. Guilherme Hajduk
    26/07/2018 at 12:19

    Paulo, o Nietzsche se posiciona de alguma forma em algum movimento desses? Ele olha “de fora” ou busca o “interior”? Aliás, ótimo texto! Me esclareceu muita coisa, sempre achei que você explica muito bem, e de maneira que parece fácil, esses assuntos tão complexos — pelo menos pra mim são — e eu considero de altíssimo valor quem consegue fazer algo bastante difícil parecer fácil. Só ver um jogador que destrói em campo mas que mais parece que ele está brincando de jogar bola, exemplos disso são Pelé, Ronaldinho Gaúcho, etc. Tem cara que vai explicar algo e dá quinhentas voltas, e muitas vezes não explica nada. Mais uma vez, Nietzsche também disse que um objetivo dele é dizer em poucas frases o que muitos dizem em um livro — ou melhor, o que muitos não dizem em um livro!

    • 26/07/2018 at 13:26

      Nietzsche está inativo nesse contexto. O debate propriamente dito se dá nos vinte anos primeiros anos do século XX. Veja meu livro Educação e razão histórica (Cortez)

  5. Guilherme Hajduk
    26/07/2018 at 11:56

    Que saco! Pra onde eu olho eu vejo Nietzsche… Talvez seja porque eu estou lendo vários livros dele seguidamente atualmente e tudo está fresco na minha memória… Mas o fato é que parece que ele já tratou de todos os assuntos, e com maestria! Pra onde eu olho, lá está aquele bigode imenso! Também sobre isso, eu gosto do que ele disse, sobre filosofia e ciência: algo como: o filósofo, por se utilizar da imaginação, vai correndo na frente sem grandes preocupações; enquanto que o cientista vai logo atrás com mais cautela, analisando cada passo que vai dar. E por isso, Demócrito já havia “descoberto” o átomo há milhares de anos antes dos cientistas descobrirem o átomo, com seus experimentos. É como se a ciência agisse a fim de ir comprovando as teses dos filósofos…

    • 26/07/2018 at 12:02

      Bem, Nietzsche está produzindo exatamente nesse período desse debate. O debate positivismo e historicismo ocorre com ele vivo e logo depois de sua morte.O assunto está quente no final do século XIX para o XX.

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