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16/12/2018

Por que Pondé e outros conservadores adoram falar de Marx sem o terem lido?


[Artigo para o público em geral]

Pondé poderia escrever sobre religião. Mas teima em enveredar pelo que não estudou. A fama lhe subiu a cabeça. Acha que pode falar do que não leu. Já faz um tempo que vem fazendo isso, e dando pitacos sobre marxismo – até de Paulo Freire já falou sem ler e sem entender de fenomenologia, base de vários escritos do educador. Não conhece Hegel e não conhece Marx. Não sabe nada da história do marxismo. Nem o básico sabe. Se leu o Manifesto Comunista, que todo garoto sabido lê no ensino médio, então não entendeu.

Na Folha de S. Paulo (17/09) ele escreve como que fundindo o marxismo ao marxismo-leninismo, e faz acusações à teoria de Marx que cabe na boca de um militante anti-Marx meio tosco, não na de um professor universitário. Eis o que ele faz: “( …) a própria teoria marxista, que tem desprezo pelo vocabulário e imaginário da democracia liberal burguesa”. A teoria marxista “tem desprezo pelo vocabulário e imaginário da democracia liberal burguesa”?  Talvez nem Lênin faça isso todo o tempo. Mas Marx, certamente, não faz. O que Marx faz é oscilar entre a crítica (e não desprezo) por ideias liberais que devem ser abandonados e o endosso de ideias liberais que devem ser realizados e aprofundados. Há momentos que Marx diz que o socialismo é a destruição do mundo liberal. Há momentos que Marx diz que o liberalismo não realizou os ideais de liberdade e igualdade que prometeu, que os abafou pelo peso do dinheiro, e que o que se tem de fazer é fazer acontecer a igualdade e a liberdade. Há escritos em que Marx chega a elencar promessas liberais não realizadas, e que não deveriam ser deixadas de lado.

Marx colocou no horizonte a ideia de homem que os pensadores liberais sonharam em suas utopias mais fecundas, o ser humano como aquele que se livraria do trabalho e do estado, e poderia viver escolhendo suas atividades diárias, todas elas prazerosas. Marx tirou de onde esse paraíso filosófico? De sua leitura dos filósofos do movimento Iluminista. Marx se empanturrou do vocabulário e do imaginário dos burgueses e de sua democracia, mas levada a um grau maior de perfeição. Seu sonho de criar o homem de múltiplas faces e possibilidades cognitivas e morais nunca foi senão a ideia de realização de um homem burguês sem a preocupação com o suor do rosto para o ganha pão.

Essa oscilação de Marx, entre o elogio de aspectos do liberalismo e a sua critica, não é a oscilação de mudança de opinião. Ela, às vezes, aparece na mesma obra, e não raro até na mesma página de seus escritos. É preciso nunca ter lido Marx para achar que ele foi um defensor da “ditadura do proletariado” como um ditadura simples, como qualquer ditadura cubana ou brasileira, e ponto final. Nada disso. O termo “ditadura” em Marx é relativo ao termo “democracia burguesa” que, tendo ficado presa ao poder do dinheiro, não foi adiante e poderia ser chamada de “ditadura burguesa”. Lênin sim, já envolvido com guerra interna na Revolução, contra a direita e contra a esquerda de caráter libertário, radicalizou o aparato repressivo revolucionário e, enfim, quando as coisas caíram nas mãos de Stalin, então a “ditadura do proletariado” perdeu de fato seu caráter relativo e se transformou numa ditadura simples, aliás, simplória.

O debate sobre esse assunto coube na II Internacional que gerou a social democracia, que Pondé pensa ser de gente rica – coisa tola, pois a social democracia européia é de base operária, e os países europeus são ricos agora, não quando fundaram suas centrais operárias que se filiaram à II Internacional. Esse debate sobre o aprofundamento do liberalismo por meio da social democracia na Europa, e pelo New Deal na América, foi feita no Velho Continente sob a ótica do marxismo, e nos Estados Unidos sob a ótica do liberalismo social de John Dewey (na época, chamado também de neoliberalismo, o oposto do neoliberalismo atual). No Brasil, esse debate foi feito dentro do PT e também entre o PT e os velhos partidos comunistas. Os livros de Carlos Nelson Coutinho e de Francisco Weffort deram o tom desse debate nos anos 80, temperados por obras de outros autores, inclusive Florestan Fernandes (um reflexo do debate de Bobbio com os comunistas, na Itália). Só depois que Weffort saiu do PT é que as coisas foram mudando. Aí veio o “mensalão” e o PT perdeu substância teórica e acabou se tornando um grupo de amigos que defendem Lula, uma vez que já não podem mais nada fazer senão tentar manter viva a quadrilha.

Pondé não sabe da história da esquerda europeia e americana. Não sabe da história da esquerda brasileira. Ouviu falar do PT só agora, já nos anos 2000. Pegou o bonde andando e, tendo sido lançado à mídia, acabou acreditando que todo mundo é tonto e que ele pode falar do que não sabe. É horrível isso, esse tipo de presunção. E mais horrível ainda é a deseducação que causa nos mais jovens. A falta de responsabilidade chegou ali e fez eco. Talvez não à toa ele tenha feito um vídeo elogiando o repetente maluco chamado Olavo de Carvalho. Perdeu a medida.

Paulo Ghiraldelli Jr, 61, filósofo.

Gravura: Karl Marx e Friedrich Engels na Imprensa do  Rheinische Zeitung – Colonia Museu Marx Engels, Moscou.

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23 Responses “Por que Pondé e outros conservadores adoram falar de Marx sem o terem lido?”

  1. Américo G.
    26/11/2018 at 20:51

    O Pondé recentemente posicionou-se contrário ao projeto Escola sem Partido e há gente que em vez de elogiá-lo ficou com inveja dele e o criticou por causa disso. Na realidade, começo a desconfiar quem realmente está contrário a esse projeto, porque quem critica quem se posiciona contrário, a meu ver, não merece credibilidade intelectual.

    • 26/11/2018 at 23:09

      Américo, o Pondé é a favor da perseguição, você sabe disso. Pare de se iludir. Ele faz isso e incentiva isso.

  2. Alex Ricardo
    30/10/2018 at 11:22

    Talvez tenhamos ai uma prostituta da filosofia que se contenta em fingir orgasmos e que está satisfeita com a grana que recebe dessa sua clientela. Então, sua meta é manter essa gandaia.

    • 30/10/2018 at 11:36

      Alex essa coisa de intelectual com claque é o fim do intelectual.

  3. Eduardo Henrique
    23/09/2018 at 12:57

    Uma coisa que alguém poderia informar ao Pondé é que nem todo conservador é fascista, mas todo fascista é conservador, ou melhor, ultraconservador.

    A intenção dele é a mesma do Olavo de Carvalho, ou seja, é colocar a direita conservadora num patamar de “puritanismo” onde ela é praticamente inatingível e “perfeita”. Tudo o que há de errado está do outro lado, ou seja, na esquerda.

    Os radicais de esquerda também fazem coisas semelhantes se colocando num patamar de “pureza” máxima onde não há espaço para erros. Se alguma coisa saiu errado é porque a pessoa se tornou o antagonista, o inimigo, ou seja, foi para o outro lado.

    Não seria mais fácil para todos nós admitirmos que não existe posição política perfeita, que em tudo há falhas e que política não é ciência e sim um conjunto de opiniões, posições, visões de mundo, etc.

    Se conseguíssemos fazer isso talvez as intolerâncias, os ódios e os preconceitos pudessem diminuir bastante. Porém sei que essa minha proposta é absurda e jamais acontecerá, pois nós seres humanos somos complicados demais e não “cabemos dentro” de nenhuma teoria ou ideologia políticas.

  4. Eduardo Henrique
    21/09/2018 at 11:01

    O que pude perceber no Pondé é que ele gosta de falar coisas que choquem as pessoas, ele gosta de impactar. E isso para quem está na mídia, é um “ótimo” meio para chamar a atenção e ganhar notoriedade.

    Porém do ponto de vista acadêmico e intelectual, o que vale mesmo (ou deveria valer) é o compromisso com o esclarecimento e com a verdade dos fatos. Lamentavelmente o Pondé não se encaixa nesse perfil. Acredito que ele deve ter sido sério um dia, mas hoje (ou melhor, já algum tempo) ele de fato renunciou a filosofia (ao amor à sabedoria).

    • 21/09/2018 at 11:05

      Tenho dúvida da seriedade dele, acho que o problema dele é má formação.

  5. Felipe
    19/09/2018 at 21:55

    Essa onda de “refutar” dos direitolas metidos a sabichões é extremamente cômica. Nem sabem o que dizem!

  6. José Carlos Vítor dos Santos
    19/09/2018 at 02:24

    Boa noite!!

    Sensacional, Professor!!

    Entretanto, penso que a coisa pode ser ainda mais tosca. Ele talvez tenha realmente feito uma “leitura” de Karl Marx, porém não consegue compreender (sem sugerir “aceitar”) além daquilo mesmo que ele “fala” a respeito do Economista, Sociólogo, Filósofo da Práxis.

  7. LMC
    18/09/2018 at 11:24

    O Pondé só fica criticando o PT o
    tempo todo.Ele e a sua esposa,
    Olavo de Carvalho,vão cair do burro
    se o Haddad ganhar.Tá no jornal
    errado,o lugar dele é no Estadão!

  8. Fernando Castro
    18/09/2018 at 09:52

    Mestre Ghiraldelli tem a força de uma janela que se abre para o sol da manhã. É preciso deixar a luz entrar para nos libertar da escuridão desses Pondes.

  9. LEONARDO
    18/09/2018 at 00:06

    A “mais-valia” já foi devidamente refutada por economistas de verdade desde à época de Marx (v. Bohm-Bawerk). E se era aplicável tão somente para o tipo de trabalho nas fábricas do sec. XIX, hj em dia ainda está valendo somente nas economias mais atrasadas do planeta!

    • 18/09/2018 at 00:15

      É Leonardo os sabichões como você, que não entenderam o conceito, já sabem até que ele foi “refutado”. Não se refuta conceito filosófico sua anta.

  10. Eduardo Lima
    17/09/2018 at 23:33

    Paulo, você recomenda uma ordem pra ler os livros do Marx? E o que acha do José Paulo Netto?

  11. JOSÉ FERNANDO DA SILVA
    17/09/2018 at 18:32

    Pondé sempre foi (e ainda o é! um bufão…

  12. aristeu chamberlain
    17/09/2018 at 11:41

    pondé, se não me engano, em 2012, em entrevista ao cnal livre, da tv bndeirantes, proclamou, para quem quisesse ouvir que, “o marxismo é uma forma de fascismo”.e ponoto final! arrependo-me de não ter gravado, de alguma forma, quele programa. mas, a internet, implacável como é, aí está para quem tiver a paciência de procurar. se a vulgaridade intelectual pudesse ser medida, “l.p.f.” seria a unidade!

  13. Tony Bocão
    17/09/2018 at 09:15

    Elogiando o Olavão, nossa que fim. Pondé já foi professor meu das antigas, na época ele era um acadêmico que me atentou para o básico, os primeiros passos, como entender dos “qualés” do texto lido, sou grato até por me apresentar a trabalho do Eduardo Viveiros. Mas o tempo passa e é nítido como ele se transformou no que é hoje, é simplesmente outra pessoa. Abdução ? troca de corpos ? a velha impermanência dos fenômenos ?

    • 17/09/2018 at 10:05

      Tony, uma coisa que eu aprendi desde muito cedo, por causa do Basquete, é respeitar os meus limites. Ele não tem isso, ir para a mídia o fez um tonto.

  14. 17/09/2018 at 06:57

    Interessante perspectiva, meu caro.

    Ainda assim, acho oportuno levantar uma questão. Há em Marx um conceito fundamental em sua teoria que, para a maioria esmagadora dos economistas e administradores, é um uma patinada conceitual colossal: a mais-valia.

    Acredito que seja no ponto dessa patacoada onde boa parte dos pensadores que criticam o intitulado economista aproveitam para jogar abaixo toda sua construção com um peteleco apenas.

    Marx pode estar certo. Há quem diga que os que o criticam têm interesses individuais para fazê-lo. Mas seria como validar bons argumentos de quem inicia seu discurso afirmando, por exemplo, que a terra é plana. Quem leu um pouco outras coisas não quer nem terminar de escutar.

    • 17/09/2018 at 10:06

      Marx é um filósofo, não um economista nos termos da economia que funciona. O conceito de mais valia é tão simples e tão intuitivo (após Marx) que é preciso ser muito burro para negá-lo. Todo mundo sabe que um trabalhador gera mais valor que aquele que ele precisa para reproduzir sua força de trabalho.

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