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19/11/2018

Anne Frank pensava em sexo – ohhh!


[Artigo indicado para o público em geral]

Stálin, Hitler e Anne  Frank são inesgotáveis fonte de lucro. Imagine alguém anunciar que possui um dente de Stálin, e com inscrições! Pense no aparecimento de um diário de Hitler! Agora estamos aí com mais linhas vindas do punho de Anne Frank. E com a pimenta máxima para atrair dólares: conteúdo sexual. Só Dan Brown conseguiu pensar em algo com mais capacidade de sucesso, que foi mostrar a camisinha utilizada por Jesus após a Santa Ceia.

Tesouros de piratas e peças da Tumba do Faraó – sem maldição –  foram encantos do passado. Mas, mesmo proporcionalmente, são fichinha perto dessas possibilidades atuais de descoberta. Na época do fake news e da pós verdade, quando o escândalo é a única coisa que ainda pode vender jornais, uma verdade com cara de escândalo e falsidade é a melhor pedida. Principalmente se é uma verdade mesmo!

Mas a merda é pouca se alguém pode, sobre ela, também colocar o cocô. Foi isso que fez o tal de Ronald Leopold, do museu Casa de Anne Frank, em Amsterdã, ao comentar as novas revelações. As frases dele são um monumento à mediocridade. Pensei estar escutando um tal Senhor Banal, que ronda em palestras por aqui e que as redes sociais comemoram como o Estúpido Número 1. Vejam algumas, publicadas pela Folha de S. Paulo (16/05) a partir da BBC: “Anne Frank escreve sobre sexualidade de forma singela, sem malícia”; “Como todo adolescente, ela estava curiosa sobre o assunto”; “Estes textos literalmente descobertos trazem para o primeiro plano a adolescente curiosa e em muitos aspectos precoce.”

Será que quando publicaram os poemas eróticos do Carlos Drummond de Andrade – que eu li na época, e que foram publicados sem a permissão dele – alguém escreveu alguma coisa do tipo: “Drummond era, como todos nós, também um homem comum”. Quando alguém vai falar sobre um morto, a regra mais básica é não ser babaca. Ter de adocicar observações sobre Anne Frank é uma imbecilidade que faria a menina rir. Aliás, é isso que ela faz ao ter escrito do modo que escreveu, escondido mas nem tanto! “Precoce”? Meu Deus, outra palavra energúmena! As pessoas acham que um animal de saias, de 14 anos, precisa ser um imbecil? Terão sido em vão os escritos de Nabokov sobre a sexualidade infanto juvenil?

As pessoas possuem vagina e pênis, e o correto é dizer que elas possuem boceta e pinto, e o mais correto ainda é notar que um entra no outro e que isso é, sem dúvida, gostoso e ridículo. O sexo é engraçado porque nos coloca numa dança ridícula. É mecanicamente engraçado. Até estupro fica ridículo se falamos dele com língua de macaco. Explico: o Laranja Mecânica foi exibido no Brasil com uma censura estranha. Na época era comum esta prática: colocava-se bolinhas pretas nas partes sexuais tanto nos cartazes quanto nas películas. Na cena de estupro, então, apareciam aquelas bolinhas pretas zanzando na tela. Seria um filme para sapos? O sexo é ridículo e nós não conseguimos não ser ridículos quando falamos dele. Este texto que acabo de escrever é ridículo.

Anne Frank era uma garota comum, pois falava também de sexo. Meu Deus, que frase heim? Deveria haver uma declaração da ONU, um acordo entre os países, dizendo algo assim: qualquer coisa sobre sexo que mereça a atenção mundial não deverá ser falada contendo frases que sejam eufemismos pecaminosos. O que é um eufemismo pecaminoso? É o pecado de fazer alguém torcer o ouvido escutando essa frase pretensamente bombástica, que uma garota de 14 anos tinha interesses em ‘piadas sujas’ e sexo. Revela-se o banal por meio da estratégia do escândalo – que considerei aqui em outro texto, falando de Alain Badiou – e depois, como se a revelação não fosse proposital, seguem-na colocando frases que soam como: a heroína Anne Frank não era uma taradinha, tá? Algo mais ou menos assim.

Não somos capazes de falar de sexo. Pois toda vez que falamos disso, alguém vem dizer “sexo é natural”. E temos de ficar ao lado, escutando, sem poder dar um tapa na cabeça da pessoa. Essa gente que escreve sobre sexo como Nelson Rodrigues, como ex-seminarista punheteiro, de modo pudico, é um saco. Sim, Nelson Rodrigues era um pudico igual esse tal Leopold. Um chato. Se deixar, vai se escandalizar com o lixo produzido por Lars Von Trier.

Odeio adulto que posa de adolescente e diz “não sou ateu” ou “sou ateu”. Ô coisa burra. É isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Gallery Anne Frank Anne, The Guardian.

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3 Responses “Anne Frank pensava em sexo – ohhh!”

  1. Henrique
    29/06/2018 at 11:23

    Ainda hoje é tabu falar de sexo em certos ambientes mais refinados e tidos como culturais. Acho bom ter autores consagrados que falam disso para quebrar um pouco certas barreiras. Os temas sexuais foram muitas vezes relegados a zonas marginalizadas. Um filme que ficou proibido muitos anos no Brasil foi O último tango em Paris por causa da famosa cena da manteiga.

  2. LMC
    21/05/2018 at 14:22

    Por quê será que falar de sexo
    é “crime hediondo” pra muita
    gente,hein?Será que o PG sabe?

  3. Hilquias Honório
    17/05/2018 at 14:17

    A primeira vez que eu li o livro, já tinha gente enchendo o saco, por ela falar do assunto (bem menos do que nessas novas revelações, creio). Já vi uns conservadores daqui, ainda naquela época, dizendo que era absurdo as crianças lerem algo assim na escola. É impressionante como a palavra “sexo” deixa esse pessoal atarantado!

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