Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/07/2018

Por que há garotos que acham que ser liberal é ser diferente?


[Artigo para o público em geral]

Quando se tem Sociologia, História e Filosofia no ensino médio, aprende-se que Locke foi o pai do liberalismo, e que esta é uma doutrina que fala em “direito natural” do ser humano, um direito vindo de uma situação anterior à vida social regrada pelo estado. Este direito, na acepção lockeana, é o “direito à propriedade”. Por propriedade Locke entende a vida, a liberdade e os bens. Os jovens de hoje, antes mesmo da universidade, já devem saber isso.

Podem e devem saber, também, que uma das críticas mais fortes ao liberalismo veio de Marx. Este, por sua vez, não foi propriamente contra o liberalismo, mas mostrou o quanto este não conseguia se realizar para todos, e que por isso funcionava apenas como ideologia, ou seja, como uma doutrina que apesar e conter verdades mascara relações sociais que alimentam injustiças ou encobrem injustiças etc.

Um aprendizado também útil no ensino médio é o que mostra que se o marxismo é a crítica mais conhecida que temos do liberalismo, esta crítica nunca derrubou o liberalismo. Este é que é o dominante no Ocidente, é praticamente o senso comum da nossa cultura política. É uma doutrina-ideologia tão forte que nos parece sempre a base correta pela qual todo o resto é discutível, menos o direito natural à vida, à liberdade e aos bens. Trata-se de algo que tomamos de maneira tão correta que mesmo quando lemos vários tipos de utopias ou teorias que colocam o liberalismo na berlinda, dificilmente conseguimos imaginar uma sociedade que funcione sem ser a sociedade liberal na qual vivemos – as sociedades capitalistas regradas pela democracia liberal do Ocidente.

Um jovem de 16 anos, que no Brasil tem o direito de voto, não precisa saber disso somente como matéria propedêutica à universidade, mas precisa saber, sim, como elemento básico para que ele possa ser cidadão, tenha condições de entender o jornal que lê e seja capaz de fazer distinções ao olhar para o espectro político-partidário e para as relações com o seu emprego, seus vizinhos e instituições várias. É a base para ele ser um adulto normal na vida de hoje.

Há jovens que já passaram dos 16 anos e não sabem isso. Às vezes sabem um pouco de liberalismo, mas não sabem o mais importante, que se trata de um ideário dominante. Não sabem que o que pensam, como liberais proclamados que se tomam como revolucionários ou ao menos novidadeiros, é o que todo mundo pensa. Fizeram uma escola média ruim, e por isso se tornaram sabichões. São jovens, ainda, mesmo quando em torno dos 30 anos. Mas, nesse caso, são jovens ignorantes. Acham que o marxismo é velho, mas não entendem que o liberalismo é mais velho, e que se parece correto é justamente porque se trata da doutrina que se espalhou como senso comum uma vez que é a doutrina que se adapta à forma pela qual organizamos nossa vida social e econômica, e que na modernidade chamamos de “capitalismo” e/ou “sociedade de mercado” etc.

Notem, não estou falando que o marxismo é o futuro ou que é a crítica do liberalismo que é a mais correta. Longe de mim advogar um tal doutrinarismo! Estou dizendo que o liberalismo não parece ser ideologia exatamente porque é a ideologia vigente que se tornou senso comum.

É um pouco ridículo ver jovens (já vi também barrigudos de cinquenta e poucos anos falando isso, mas aí é perda de tempo querer ensinar) defendendo o liberalismo como um doutrina de pensamento revolucionário e minoritário, um pensamento de um grupo de iluminados. Quem pensa assim, tendo passado pela universidade, é gente que não percebeu que nem a universidade é o seu DCE de esquerda e muito menos o mundo é regido por ideias do “grupinho do DCE de esquerda”. Essa garotada que adere ao liberalismo como se isso fosse a última bolacha do pacote, toma o barulho pelo fato. Esse pessoal toma a militância exercida por aqueles seus colegas chatos, os do “DCE  de esquerda”, e que é gente realmente chata pois vomitam verdades para todo canto,  como sendo a totalidade do mundo. Então, contra esses grupelhos de DCE, formam coisas opostas que peca pelo mesmo ridículo. Ficam achando que são, uma vez liberais, uns subversivos, uns “autênticos”, uns “libertários” que pensam “fora da caixinha”. Mas são os que mais pensam na caixinha, ou pior, em caixinhas. É assim que a direita, os liberais, se pensam subversivos e se imaginam lutando contra um Poder que, enfim, é só um fantasma. Pois, de fato, esses garotos, os liberais, estão no poder, só que se imaginam não estando. Alguns realmente se tornam reacionários de direita, outros ficam meio como … geração sapatênis.

Tudo isso por conta de uma simples falta de boas aulas de sociologia, história e filosofia no ensino médio.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , ,

12 Responses “Por que há garotos que acham que ser liberal é ser diferente?”

  1. Gintoki Sakata
    03/05/2018 at 12:40

    LMC, eu acho que esse Escola sem Pensamento vai voltar contra quem fez, porque se o filho do Freixo ou o neto do Zé Dirceu reclamarem do professor liberal-conservador do colégio ou da facu (e eu convivo com um professor desses, que dá aulas de Circuitos Lógicos, Programação, Lógica Matemática etc), certamente esse prof. correria o risco de ser processado por um desses dois.
    Ou seja, é um tiro pela culatra. E a esquerda vai gargalhar muito por causa dessa galhofa.

  2. LMC
    26/04/2018 at 10:56

    Nossa rapaziada liberal quer ver
    o Lula preso pra ter alguma chance
    de algum candidato a presidente
    vencer a eleição.Caso não consigam,
    vão pedir intervenção militar,com certeza.
    PEROBA NELES!!!

  3. Matheus Tudor
    26/04/2018 at 10:40

    Creio que muitos liberais estão tomando o o liberalismo por uma forma doutrinária, talvez por terem começado por vias torpes mesmo, como Mises e Hoppe. Depois melhoram e caem em um social-liberalismo ou algo que o valha, mas entrar por tão mau caminho deixa marcas. Assim sendo, baseados em uma doutrina do que é ser ou não liberal passam a ver se as práticas estão ou não de acordo com as regras. É como alguém que vendo que há muitos assassinos no mundo e vendo que há desrespeito aos mandamentos em cada esquina diz: o ocidente não tem o cristianismo como senso comum. Mas de fato tem, e o aforisma sobre o último cristão ter morrido na cruz é uma outra conversa.

    • 26/04/2018 at 13:23

      O liberalismo, Marx ensinou bem, é uma ideologia. No sentido exato da palavra, como ela foi cunhada no âmbito do marxismo.

  4. Matheus
    25/04/2018 at 14:46

    Elton, o problema também está na falta de entendimento das acepções… Liberal aqui no Brasil nunca significou o msm que liberal nos EUA. Lá se tem muito mais arraigada a noção de liberdade atribuída ao indivíduo e aqui ao mercado (liberdade de mercado). De modo que lá se trata muito mais da liberdade ética, moral, dos direitos e deveres, enquanto aqui há essa proeminência do tema econômico.

    No entanto é pífio esse tipo de argumento (ainda mais de quem vem) que geralmente não sobreviveria numa sociedade concorrencial. Eles querem liberdade econômica desde que se assegure que “os outros” nunca tenham condições (intelectuais, educacionais, instrumentais,
    sociais, financeiras) igual a que “eles” desfrutam…

    Afinal eles só defendem liberdade econômica e se retorcem pra qualquer princípio de igualdade ou justiça… Fizeram um ensino médio incompleto e nem as teses francesas aprenderam direito… E ainda sonham um dia em ser EUA…

    • 25/04/2018 at 14:56

      Pessoal, deixei claro que esto falando do Brasil, ok? De fato, liberal americano pode ser um cara à esquerda, como Obama.

  5. Elton
    25/04/2018 at 14:21

    Só lembrando ao Joaquim que a transferência de renda direta (bolsa família) é uma elaboração do economista liberal Milton Friedman. Estado mínimo é diferente de não estado.

    • 25/04/2018 at 14:38

      Calma gente, essa proposta aparece em mil e um autores, e em diversas épocas e de inspirações contrárias.

  6. Elton
    25/04/2018 at 11:14

    Talvez eu me enquadre nessa definição de jovem liberal. Eu acho que o senhor tem razão em pontuar que o ocidente aderiu de forma quase hegemônica a democracia liberal. É uma obviedade. Ora, se é o paradigma dominante, não faria sentido os jovens liberais se sentirem avessos ao senso comum. Eis o argumento.

    O que eu percebo é que esse se “sentir a última bolacha do pacote” diz respeito mais a um modelo econômico do que propriamente a um modelo jurídico normativo. Acho que, de um ponto de vista político, seu argumento tem total sentido. Mas ele não faz tanto sentido assim se inserido numa análise voltada para a economia. Eu acho que é nesse sentido que os liberais se sentem “subversivos”, pq temos um estado exageradamente grande e interventor.

  7. LMC
    25/04/2018 at 11:01

    E a geração sapatênis é a favor
    da Escola(burra)Sem Partido,só
    pra poder ensinar Mises nas
    escolas públicas.Rarará!!!!

  8. Tony Bocão
    25/04/2018 at 08:44

    Os mais interessantes são aqueles que adotaram a caixinha do estado mínimo para viverem uma sociedade norueguesa. Esse tipo de coisa rende pesquisas, tem até aquele lado Cool, ser reaça tá na moda, afinal tem colunista e humorista de horário nobre que adora isso (Mesmo sendo a coisa mais velha e senso comum do mundo), a burrice como estética.

  9. Joaquim
    25/04/2018 at 05:24

    São pomposos, cheios da razão, afinal justiça social é coisa de vagabundo mamador das tetas do Estado, que quanto maior, mais rouba o meu e o seu suado dinheiro do imposto. “Imposto é roubo” virou cult. Revisionismo em história também é cult. Mais interessante ainda é que esse não é só um movimento nacional. A insatisfação, essa raiva pelo nosso modo de vida, a crise da representatividade… vem do que eles tanto querem pregar, mas como novo! Novo igual o novo partido que se chama novo mas é velho. Mas essa galera é tão maluca que por causa de um post do Amoedo já o estão chamando de comunista. Pelo menos os chatos da dce ganharam um rival a altura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *