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20/11/2017

A vestimenta de Dilma


Reduzir Dilma à sua roupa é um direito do humorista, pode ser um recalque do comentador profissional da política e certamente é a função do cronista. Como no Brasil a imprensa está “ao Deus dará”, sem diploma, sem faculdades com cuidado no vestibular, e como no Brasil o ensino médio está falido, há aí a confusão total sobre o que se pode e o que não se pode fazer segundo os espaços que cada jornalista tem no seu periódico.

Cronistas inteligentes devem mesmo se ater de vez em quando às vestimentas da Corte. E a Corte sabe disso e se prepara. Jaqueline Kennedy logo aprendeu isso. Agora, Michele Obama está já pós-graduada no assunto. Mulheres em cargos de poder são alvos desses escribas e alguns realmente fazem um bom serviço. Algumas mulheres respondem à altura. Até os homens, quando belos, pagam o preço. Nenhum presidente americano foi mais notado em roupas que Obama. Sua elegância corporal e seu visível estilo sexy acabam por permitir que os cronistas comentem a cor do terno segundo as possibilidades disso ser ou não um recado a cada discurso.

dilma obamaBeleza e roupa, roupa e beleza – tudo ligado. Estamos vivendo a era burguesa como cópia, em parte, da sociedade de corte. Uma cópia que às vezes torna-se uma paródia. A burguesia não conseguiu eliminar a moda no poder. Não conseguiu eliminar a etiqueta no poder. Não conseguiu sequer tocar na “liturgia do cargo” que inclui, também, a vestimenta. O Brazil republicano é ainda parte do Brasil imperial e somos, então, mesmo sob a carcaça de terceiro mundo, herdeiros da França, em alguns casos, e imitadores dos americanos, noutro, e por fim, é certo, bregas como mexicanos e outros latinos.

Tudo isso é fonte de conversa na imprensa em um mundo burguês que não aboliu as divisões classistas no grau de diferenciação que prometeu, e que mantem válida a célebre passagem da “dialética do senhor e do escravo” da Fenomenologia do Espírito de Hegel, por onde se discute a questão do reconhecimento.

Assim, do ponto de vista do filósofo e do historiador ou sociólogo, o que importa é que Dilma trouxe a necessidade de que se falasse de sua roupa. Isso é o que vai ficar para nós. Com isso, no futuro, saberemos do impacto de Dilma, e saberemos também da mentalidade e do preparo e despreparo da imprensa. Senão nós, ao menos os jovens que irão ocupar nossos lugares como filósofos, historiadores e sociólogos.

Por sua vez, o alvo dos comentários nem sempre pode comandar o que vai vestir, nem mesmo como vai estar no caixão, ainda que deixe isso bem requisitado e sacramentado. Nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro da Fonseca, queria ser enterrado em trajes civis. Não foi obedecido, foi enterrado como militar e sob pompa militar.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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14 Responses “A vestimenta de Dilma”

  1. Rafael Costa
    07/01/2015 at 17:07

    Saindo um pouco do assunto, mas continuando nele. É legal ressaltar que antes da Dilma se candidatar a presidência, ela foi submetida à um processo de modificação estética visando tornar sua imagem mais palatável ao público.
    Claro que isso não irá torna-la nem uma presidente ruim ou boa, mas faz parte do conjunto.

    • 07/01/2015 at 17:33

      Sim Rafael, também o Lula. No mundo essas coisas começaram, no campo da mídia maior, TV por exemplo, com Kennedy. Mas o processo é milenar.

    • Rafael Costa
      07/01/2015 at 17:44

      Tem como fazer uma associação destas imagens do poder com objetos a serem consumidos pela grande massa, ou é viajar demais?

      Por exemplo, o fenômeno Obama, com todas aquelas imagens do “Yes, We Can”, o jeito , já abordado por você, sensual dele pode ter feito dele, muito mais que um presidente dos EUA.

    • 07/01/2015 at 19:51

      Rafael, já ouviu falar no Rei Sol. De como ele dançava? Já ouviu falar de … César? Ou de Cleópatra? Já leu sobre a chegada no rádio na política e na mudança da política populista? Na produção dos grandes ditadores que vieram dos anos 30?

  2. Alexandre
    06/01/2015 at 18:40

    Estava vendo a cerimônia de posse na Globo e achei muito interessante quando um jornalista comentou que a Dilma estava usando “uma cor neutra, sem mensagens partidárias, indicando talvez o desejo de equilíbrio”. Há algo de teatral nessa questão da roupa.

    • 06/01/2015 at 20:50

      Alexandre! “Algo”. Tudo no poder ou é teatral ou não é nada.

  3. Hayek
    06/01/2015 at 10:58

    Com a nomeação de Kátia Abreu para o ministério da Agricultura a Dilma enterra de vez a reforma agrária

  4. Hayek
    06/01/2015 at 10:48

    Vcs viram q o governador de São Paulo fez? Anunciou um corte de gastos no estado. Depois a Dilma que não está mais investindo!

    • 06/01/2015 at 12:44

      Hayek vá falar de política no lugar certo. Aqui neste artigo não é sobre esse assunto. Você não toma o remédio simancol? Tome!

  5. Alexandre Ferreira
    05/01/2015 at 23:44

    Paulo

    Acompanhei a transmissão da Posse da Presidenta pela Globonews, parecia que estava assistindo uma transmissão de um desfile de moda com tamanha ansiedade das comentaristas em relação a roupa da Presidenta, Logo quando ela apareceu tentaram adivinhar se a roupa era Branca, Champagne, Rosa claro etc, ficou um misterio no ar, ai partiram para contrapor a cor da Dilma a cor da filha que supostamente estivesse vestida de vermelho em homenagem ao PT, ai cansaram e partiram para a roupa da mulher do vice ai também nao deu certo ai partiram para a quantidade da claque que foi prestigiar a posse, sinceramente estavam procurando pêlo em ovo atrás de algo para criticar.
    Sem duvida a expressão corporal e a roupa dizem muito sobre as pessoas ainda mais em cargos como de presidente, mas resumir um evento de posse a modelitos chega a ser engraçado.
    O mais engraçado e ver o povo achando algo pra comparar a roupa da presidenta. Acharam: capa de botijao de gás.

    • 06/01/2015 at 01:42

      Alexandre, desculpe-me, mas eu avaliaria que você não entendeu o que é uma posse e também não entendeu o que é o poder. Sugiro que leia Norbert Elias, a sociedade de corte, e repare em etiquetas, vestuário, moda, em tudo que faz com que o poder se apresente diferenciado e como algo a ser visto, mais um espetáculo que do mundo nobre se transferiu para o mundo burguês medíocre, aparecendo assim como algo vendável às TVs. Fizemos alguns Hora da Coruja para explicar isso. Já escrevi muito sobre isso. O cinema explora isso demais. Seu sentimento é o do burguês que compra a posse, mas não para apreciá-la como súdito, já que você nao é mais um súdito, mas que vai viver a posse como cidadão e ao mesmo tempo tentar diminuir o evento ao diminuir o fato dele ser um espetáculo. Você vai pouco ao cinema, lê pouca literatura? Não lê a literatura que retrata a transição do mundo aristocrático para o mundo burguês?

  6. LMC
    05/01/2015 at 12:20

    Já repararam que,quando
    alguém critica a Dilma,o
    Nassif e sua gangue vem
    dizer que a imprensa é
    golpista,blá,blá,blá,blá,
    blá,blá.Numa coisa,o
    Mainardi tem razão:
    se depender deles,a
    imprensa viraria uma
    imensa Radiobrás.

  7. Guilherme Gouvêa
    05/01/2015 at 08:27

    A imprensa britânica, sobretudo a marrom, também destacou sempre o mau gosto da rainha Elisabeth II na escolha de chapéus e modelitos…

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