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25/07/2017

Uma cruz estranha nas mãos do papa Francisco


A Bolívia é um país atrasado. A Igreja Católica é uma instituição velha. A velha cruz feita na base do atraso ideológico da foice e o martelo chegam às mãos do papa, o representante do velho, pelas mãos de Evo Morales, o representante do atraso. O papa Francisco foi presenteado pelo presidente boliviano com um artefato do sacerdote espanhol Luís Espinal, assassinado em 1980. Nada mais nada menos que a foice e o martelo servindo de cruz para Jesus (ver figura 1).

Essa é uma leitura possível do episódio. Mas ficar nisso seria apenas aderir também ao atraso de uma opinião conservadora (e simplória) que já deu o que tinha que dar. A filosofia nos ensina a ir adiante. A pergunta que se coloca aí é: o que fazem esses representantes de forças do passado nos jornais do presente? Viraram curiosidades? Algo como um tipo de reedição do “Parque dos Dinossauros”, como o que agora está por aí nos cinemas?

A resposta que tenho passa por um escrito do filósofo Giorgio Agamben de 2013, publicado agora no Brasil, em 2015. Trata de O mistério do mal (Boi Tempo e UFSC). Nesse opúsculo Agamben tenta entender, levando em considerações o contexto teológico e não questões meramente externas da Igreja, a renúncia de Bento XVI.

Agamben centra sua explicação da renúncia do papa Bento XVI a partir do entendimento deste quanto ao que seria a Igreja. A visão de Bento XVI da Igreja, segundo Agamben, é a de uma instituição cujo retrato real deve mais a Ticônio que a Agostinho. Cabe aqui uma breve explicação.

O filósofo africano, Agostinho, pregou a doutrina das duas cidades, mas, por sua vez, o herético Ticônio que perambulou também na África na segunda metade do século IV, pregou outra doutrina, a da cidade única com dois lados. Nesse caso, não deveríamos pensar em uma divisão entre uma Babilônia e uma Jerusalém, mas uma Igreja que é nela mesma uma só Babilônia e Jerusalém. A Igreja não seria um elemento de uma das cidades, mas conteria as duas em seu interior, sendo boa e má, divina e terrena, ao mesmo tempo segundo sua geografia interna, ou dizendo melhor, sua anatomia. A divisão completa do corpo da Igreja, separando bons e maus, só viria no fim dos tempos. No entanto, seria tolice deixar de viver o problema desse dualismo, remetendo-o ao futuro. Assumindo então essa Igreja, Bento XVI teve a clareza de que sua renúncia estaria na ordem do dia da luta interna ao corpo da Igreja. Sua renúncia colocou isso de modo estampado, como que admitindo intencionalmente e de modo claro a crise da própria Igreja nessa sua duplicidade. Agamben vê essa crise como uma crise de legitimidade, algo também vivido por outras instituições, principalmente todas as democracias liberais antes ligadas ao mercado livre como auto-regulador, mas que agora são postas sob o tacão da justiça. Ora, sabe-se bem o quanto essa justiça tenta governar o que é ingovernável.

Olhando a entrega do presente de Evo Morales ao papa Francisco por essa via, a do problema da legitimidade tanto da Igreja quanto dos governos do Ocidente, percebemos que nada há de atrasado no evento. Ou melhor, o evento é de fato um atraso, mas isso porque o mundo é um atraso. A Igreja é dupla, mas os governos todos do Ocidente são duplos, em um sentido ruim da palavra. A Igreja prega justiça e as democracias ocidentais imaginam poder viver sob a justiça, mas a ameaça da não legitimidade de todos está latente. Então, na falta de novas promessas que possam reacender a tocha da legitimidade, a simbologia do passado reaparece como que dizendo: “vejam, há algo lá no fundo de nós que tem legitimidade sim, vejam os símbolos pelos quais lutamos verdadeiramente, vejam como eles remetem ao que havia de bom e de idealista em nós”.

A peça estranha de Luís Espinal teve um sentido forte nos anos oitenta, quando a Teologia da Libertação estava em alta. Não é o caso hoje. Mas haveria outra coisa que Morales pudesse entregar ao papa com alguma legitimidade? E o papa teria alguma coisa a dizer a Morales que não fosse um sincero “obrigado” ao receber o presente? Trata-se de um símbolo do passado que é recolocado no presente quando o presente é apenas um arrastar-se – mas isso é tudo o que se pode fazer. Talvez não seja pouco diante das circunstâncias.

A Igreja vigente está dilacerada, todos nós sabemos disso. As democracias ocidentais estão dilaceradas, todos nós sabemos disso. Mas se arranco um símbolo esquisito de um passado mais esquisito ainda, posso criar uma perplexidade e, nesse ínterim, reordenar palavras e forças. A foice o martelo de um lado, a cruz de outro, e então postas juntas dessa maneira, remetem a um tipo de memória, como que dizendo: “vejamos como fomos sinceros, como pudemos em determinado momento realmente acreditar que pobres deveriam poder sonhar e como que Jesus cabia bem nesse sonho operário marcadamente do século XIX e XX”.

Morales e o papa não estão ali fazendo política. Não no sentido tradicional. Eles estão ali, quase que como Quixotes, tentando recuperar algo que lhes dê a legitimidade que todos nós perdemos. E que não se pense que eles são casos isolados, cacarecos históricos. Não! Mutatis mutandis a simbologia do ato caberia para qualquer encontro entre a Igreja e um governante do Ocidente.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

Figura 1:

papa e morales

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5 Responses “Uma cruz estranha nas mãos do papa Francisco”

  1. Wagner Santos
    09/07/2015 at 23:17

    Ao verem essa foto, os olavetes serão tomados pela fúria interpretativa olaviana e farão pipi nas calças temendo o destino do ocidente…

  2. carlos
    09/07/2015 at 17:30

    Presente curioso. Um importante educador brasileiro falava em Cristo e em MARx, o saudoso Paulo Freire.

  3. Cesar Marques
    09/07/2015 at 15:54

    Legal esse texto sobre a entrega desse presente esquisito que o Presidente Evo Morales concedeu ao Papa Francisco, pois contextualiza de que não se trata de uma exaltação de uma ideologia carcomida que ficou no passado, afinal, o Presidente Evo não é um socialista do tipo ortodoxo, aliás, seu governo que tem recebido elogios internacionais, tem um traço mais social-democrata, salpicado de uma valorização da cultura indígena do país, cultura que foi tão maltratada durante séculos na Bolívia. Lendo sobre o sacerdote Luís Espinal Camps, é que se percebe mesmo que esse presenteamento ao Papa não teve nada nostalgia do comunismo, pois ele era um padre jesuíta culto, professor de literatura grega e poesia latina, que desempenhou uma luta aguerrida na Bolívia em prol da Democracia e sobretudo pelos Direitos Humanos, ou seja, Luís Espinal não tinha nada a ver com aquele comunismo sovietizado que morreu em 1991. Eu entendi que o Evo homenageou um Papa Jesuíta rememorando um outro Jesuíta que morreu defendendo causas justas.

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