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18/08/2019

Um dia quinze de novembro lá do passado


Era de praxe Deodoro da Fonseca se emperiquitar para sair de casa. Joias, medalhas de mérito e cordões não faltavam em sua farda impecável. O tempo que levava para pentear a barba não era pequeno, isso sem contar a dedicação com que a perfumava. O Marechal encomendava águas de cheiro dos lugares mais famosos para esse ritual. Ele imaginava que um grande herói iria sair do quarto ao terminar tudo isso.

Perdera irmãos na Guerra do Paraguai e ele próprio atravessou os pântanos de modo impetuoso em uma campanha honrosa para os tempos, mas não para a história. De certo modo, a figura bufante que saía dos aposentos tinha lá seu valor. No último dia do Império ele saiu como de costume e foi ter com Ouro Preto, chefe do Gabinete.

Deodoro questionou Ouro Preto sobre os boatos de que haveria reformas no Exército. Em seguida, para justificar o rompante que viria, falou algumas palavras sobre sua bravura ao servir a pátria no Paraguai, o que não era mentira, e então anunciou a dissolução do Gabinete. Era o golpe. Era o primeiro passo para que o Brasil pudesse dispensar o Imperador doente.

Ouro Preto se limitou a ouvir Deodoro e, diante do militar que falava sobre “sacrifícios” na Guerra, retrucou que também ele, ali, por ter de ouvir o Marechal, passava por “sacrifícios bem maiores”. A partir dali, restou a Deodoro organizar as atividades de alguns republicanos amigos, com Benjamin Constant à frente, de modo a realizar a primeira ordem já como chefe do “Governo Provisório”. Uma ordem mais para agentes do correio e boateiros da cidade do Rio de Janeiro do que qualquer outra instância. Mas, não se pode mentir, o Marechal a disse solenemente: “avisem o povo que a República está feita”.

Em Pé: P. Pedro Augusto, P. Isabel, D. Pedro II, P. Pedro e Conde D’Eu Sentados: D. Tereza Cristina e os Príncipes Antônio e LuisPode-se imaginar um país do tamanho do Brasil, com uma população tornada apática pela opressão da “pacificação” levada adiante por Caxias, e, sem internet e com um telefone de péssimo funcionamento, ter de mudar de regime político a partir de um ato voluntário de militares do centro carioca? Caso não fôssemos um povo dedicado à fofoca, talvez até hoje estivéssemos vivendo com pessoas, em vários recantos, acreditando que o último baile da Corte ainda não havia sido realizado.

Mas, enfim, a população acabou ficando sabendo da novidade de Deodoro: a República está feita. Lá fomos nós, todos republicanos, através do monarquista Deodoro da Fonseca, amigo pessoal do Imperador, rasgando a história rumo à ordem e ao progresso.

Que se criasse um ambiente que não eliminasse o clima da Corte. Que se arrumasse alguém para avisar o pessoal da Igreja que eles não eram mais governo. Que alguém falasse com os cafeicultores que iria se dar um jeito na coisa toda. Que alguém continuasse a empurrar os pretos para os morros, de modo a não deixar as favelas pararem de crescer. Que se falasse aqui e ali sobre quão grande seria nossa intelectualidade se Augusto Comte nos mantivesse afrancesados. Que se garantisse aos bancos ingleses que nosso afrancesamento não iria comprometer pagamentos de dívidas aos britânicos.

Tudo isso tinha de sair da própria cabeça de Deodoro da Fonseca – já imaginaram o problemão?

Todavia, foi assim que as coisas se deram a partir do Quinze de Novembro de 1889. Logo nos dia seguinte tínhamos um gigantesco país montado sobre um sistema político cujo melhor nome, penso eu, seria a República do Mandonismo, governada efetivamente por donos da terra capazes de pagar suas milícias.

D. Pedro II reagiu de maneira sonolenta ao golpe e à balbúrdia causada na Corte nos momentos em que o Governo Provisório o chamava para o exílio. Interpretou tudo aquilo, durante todos os momentos, apenas como uma travessura de meninos do Exército. Chegou a perguntar para os mensageiros que iam e vinham algo como “Deodoro está metido nisso é?”. Quando responderam afirmativamente, retrucou: “que malucos!”.

Há muito o Imperador nem mais lia jornais e não governava, passando o dia interessado em descobertas científicas que ele próprio não podia entender. Uma resistência popular em favor do Império poderia ter sido cogitada, caso a Princesa Isabel, que realmente tinha apoio popular, alguma vez na vida tivesse levado em consideração que havia uma população no Brasil. O Conde D’Eu, seu marido, era mais prático: tratou de pegar um bom dinheiro dos republicanos, de modo a “pagar as contas da família no exterior”, e apressou todos para que fossem para a embarcação que os levaria para a Europa. Ele foi o único que deixou uma carta dúbia. Ao contrário dos outros, que lamentaram, mas aceitaram o golpe e o exílio, o Conde escreveu que serviria à Pátria “sob qualquer governo”. Foram todos deportados.

Quando a embarcação passou por Fernando de Noronha, última porção de terra brasileira, a família real e amigos tiveram a ideia fantástica de soltar um pombo com a mensagem “saudades do Brasil”. Como crianças abobadas eles amarraram a mensagem ao pombo e o soltaram, com aplausos. O pombo subiu o que pode, e quando chegou suando no ponto crítico, desceu como um bólido enfurecido em direção ao mar, morrendo afogado. Claro! Era um pombo que estava no navio para ser comido e, portanto, já tinha suas asas cortadas.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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9 Responses “Um dia quinze de novembro lá do passado”

  1. 23/03/2015 at 19:04

    Artigo reflexivo, indo além da mesmice dos livros de história. O apático D. Pedro II sabia que não lhe restava muito da vida, e nem tão pouco da monarquia. Se apegou ao conhecimento científico para não pensar em causas perdidas, extintivamente evitando confrontos nos seus últimos dias.

  2. Guilherme Gouvêa
    01/01/2014 at 03:35

    O curioso é que Deodoro tinha inclinações monarquistas e o próprio Pedro II, como se documentou mais tarde, era um republicano enrustido. Um rei que não queria ser rei.
    *
    Em junho de 1891, já no exilio, o imperador anotou à margem de um livro que estava lendo:
    *
    “Desejaria que a civilização do Brasil já admitisse o sistema republicano que, para mim, é o mais perfeito, como podem sê-lo as coisas humanas. Creiam que eu só desejava contribuir para um estado social em que a república pudesse ser ‘plantada’ por mim e dar sazonados frutos”.
    *
    “Difícil é a posição de um monarca nesta época de transição”, escreveu à Condessa de Barral, o grande amor de sua vida, dizendo-se desconfortável na posição de imperador. Se dependesse de sua vontade, preferia ser apenas um presidente da República temporário:
    “Eu de certo modo poderia ser melhor e mais feliz presidente da República do que imperador constitucional”

    • 01/01/2014 at 12:30

      Guilherme, depois de empossado, ele ficou triste de não poder dar títulos de nobreza, como D. Pedro II fazia. Sempre avisavam o cara: “estamos em uma República”.

  3. Herberth Amaral
    19/11/2013 at 09:51

    Eu me pergunto se o pessoal progressista de 2050 verá o golpe militar de 1964 como uma evolução, já que o mesmo acontece com o golpe militar de 1889.

    Os golpes de 1889 e 1964 foram feitos pelo exército, derrubaram governos ditos “fracos” em que a população “assistiu bestializada” e que instauraram uma ditadura militar. Sem contar no período seguinte de instabilidade política. Assim, em essência, o golpe de 1964 é bastante similar ao de 1889.

    A Princesa Isabel (primeira na linha de sucessão), tinha políticas bastante liberais para a época, como o voto feminino (“Se a mulher pode reinar, também pode votar”) e a abolição (que veio tarde, mas veio pelas mãos dela). Tivéssemos continuado uma monarquia sem nos meter em guerras como a do Paraguai e com a reforma de Ouro Preto, talvez hoje não estaríamos longe de um modelo semelhante ao escandinavo (hoje só parecemos com eles na carga tributária).

    • 19/11/2013 at 10:07

      Historiografia se cria e recria. Dewey dizia que a história é reescrita na história.

    • José Luis Orlandeli
      12/02/2015 at 00:30

      Nos dias de hoje história também se reinventa.

  4. Adriano
    15/11/2013 at 13:37

    Que texto fantástico Paulo! Em poucas linhas, detalhes de um dos mais significantes processos de transformação política deste país. “Viva à pátria! Viva aos heróis do quinze de novembro!”

  5. Pedro Castro
    15/11/2013 at 13:09

    Parabéns Paulo, seus textos são ótimos !

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