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25/07/2017

Tecnologia e sua testemunha


Para a Fran, com amor

Sou pequeno, um toco. Tenho uma cabeça de borracha já gasta. Sou um lápis aposentado. Fico no fundo de uma caixa, usufruindo de merecido descanso. Para dizer a verdade, sou um tipo de ídolo de meu dono. Sou uma testemunha do tempo – isso me faz importante, eu acho.

Conheci meu dono em um começo de uma tarde ensolarada. Fui com ele, meu dono, para a escola fazer bolinhas e depois bolinhas com perninhas e eis então que nós dois, no início dos anos sessenta, fizemos a letrinha “a”, assim ó: a.  Dali em diante, não paramos mais. Pouco tempo depois, já tínhamos percorrido a Caminho Suave inteira! E então veio o “Primeiro Livro” e, logo depois, a “Festa de término do primeiro livro”. Que emoção! E lá fomos nós para o segundo ano! Mas, no segundo ano, algo chato ocorreu.

No segundo ano escolar, perdi uma amiga. Não, não foi por morte não. Foi por caduquice. Sim, minha amiga foi decretada caduca para o serviço de escola, ao menos em sala de aula, ainda que em casa e outros lugares tivesse até recebido encargos nobres. Essa amiga que deixou de vir comigo foi a caneta tinteiro. Ela, toda imponente e de cabeça de ouro puro, ao final do ano perdeu lugar para uma plebeia que até então nem podia ser apresentada perante a professora. A caneta esferográfica, uma tal de “Bic”, saiu da vida clandestina e passou a poder frequentar o ambiente em cima da carteira escolar. Junto com a caneta tinteiro, meu amigo mata-borrão também se foi. Ambos ainda ficaram uns tempos na bolsa, mas não eram usados. Um dia ganharam o destino: uma gaveta. Não os vi mais até o dia da minha aposentadoria. Aí eu os reencontrei. Mas eles não se lembraram de mim. Estavam completamente caducos os dois.

Dali de cima da carteira eu assisti muita coisa. Um dia dramático foi quando vieram arrancar as peças de metal que contornavam o buraco usado para fixar o tinteiro. Ele, tinteiro, já havia sumido mesmo. Sem a peça de metal, restou apenas o buraco. Não tardou para eu ver meu dono e outros dando uma finalidade nova ao buraco na carteira. Todo tipo de apetrecho era colocado ali, até bandeirolas de times ou penachos e também folhas de papel enroladas, que nada eram senão provas recebidas, corrigidas pelo professor. Um dia esses buracos sumiram!

Quando os buracos desapareceram, fiquei apavorado. Era uma alteração topológica fantástica. Olhei o terreno e vi, então, que estava sobre madeira nova. A própria carteira havia sido trocada. Ela não tinha mais os pés de ferro e nem vínculo com o chão. Estava solta, desligada da cadeira e do piso! Pensei comigo: agora a liberdade trará o caos! Bem, não foi o caos, ao menos não na aula, mas esse novo tipo de apetrecho passou a dar um bom trabalho para quem arrumava a sala após a aula.

Aliás, nem pude me despedir da velha carteira, que foi embora para o “salão nobre” em um momento em que eu não estava presente. Ficou depositada lá no lugar de entulhos do “salão nobre”. Assombrei-me ao ver como havia envelhecido quando, em uma festa junina da escola, ela reapareceu e me cumprimentou. Estava servindo de “caixa” na “Barraca de Beijo”. Falou pouco, estava atarefada em sustentar uma professora que ali trabalhava, com seu peso de pedagoga ainda jovem: 95 quilos bem distribuídos e um beiço que, enfim, todos pediam que não saísse dali e jamais entrasse para a própria barraca.

Quando começou o início do quarto ano escolar, aí eu realmente fiquei chocado. Chegamos à escola e eu fui depositado gentilmente na canícula de sempre. Não seria usado até que viesse a hora da matemática e ou a hora do desenho geométrico, um momento que eu tinha de conviver com sujeitos esnobes, calculadores, frios: compasso, esquadro e régua. Três chatos que se achavam donos do ambiente, ocupando a carteira toda e às vezes até me dando cotoveladas e me jogando lá para baixo, no chão mesmo! Bem, mas não foram esses três o que me chamou a atenção naquele dia, e sim uma borracha nova que apareceu ali, faceira. A primeira borracha com cheiro!

Borrachinha metida a besta! Como se achava gostosa a moça. Cor de rosa, cheirava morango doce e requebrava para apagar qualquer coisa. Aliás, não apagava nada, era um lixo de serviço o que fazia, mas colocou minha amiga branquinha, “Mercúrio”, fora de serviço por uns tempos.

Essa borracha passava de mão em mão. Todo mundo queria apagar algo com ela. AS meninas pediam e se encantavam. Os meninos tinham vergonha de usar aquil, mas, após um menino que falava bem delicado ter usado, eles também passaram ao “ei Paulo, empresta sua borracha para eu experimentar?”. Assim, a coqueluche do momento esfregou a bunda em trinta e cinco cadernos diferentes. Prostituta, vagabunda – foi isso o que pensei dela. Eu era cheio de preconceitos naquela época, mas acho que mais ou menos igual ao meu dono. Todavia, apiedei-me dela quando a fogosa aportou na mesa da carteira do japonês, o Mário Taguchi. O japonês pegou, olhou, virou o olho, cheirou e cheirou e não resistiu – nhac! Mordeu e comeu um pedaço grande da “Dona Borracha Nova”, a cheirosa. Nunca mais vi a moça. Deve ter morrido ali mesmo.

Quando terminou aquele ano, meu serviço diminuiu bem. Meu dono passou a escrever menos, havia terminado um curso chamado “datilografia”, e com isso deixou de depender de gente como eu para a escrita. Foi melhor, ganhei espaço para as horas do desenho, principalmente o não geométrico, o chamado “desenho artístico”. Ah, e disso eu e meu dono entendíamos bem. Alegria de lápis, no entanto, dura pouco. A tecnologia começou a fazer das suas, a cada mês um artigo novo na escola. Apareceu lá uma tal de “lapiseira”. Todo mundo tinha uma. Era um tipo de lápis recarregável. Sem dúvida, algo deplorável que sujava de grafite o caderno e as mãos. Mas a garotada toda aderiu à novidade. Vieram as lapiseiras de todas as cores, estilos e narizes empinados. Depois, vieram as lapiseiras baratas, nacionais. Foi então que eu, já com esse tamanho que tenho agora, fui para a caixa.

Não perdi para uma lapiseira, apenas fui aposentado mesmo, por tempo de serviço. A mão de meu dono havia crescido, e eu diminuído, e então ganhei esses anos todos de aposentadoria. Meu espaço imenso nessa caixa foi diminuindo e diminuindo, uma vez que a tecnologia se tornou algo veloz e mais e mais apetrechos escolares foram sendo acumulados aqui, sobre a minha cabeça. Estou aqui já faz uns cinquenta anos, meio século, só recebendo gente nova e velha aqui na caixa. Uns são aposentados como eu, outros aparecem aposentados por escoriações de origem desconhecida e outros, ainda, por acidentes de trabalho ou doença. Sei que um dia estarei aqui quando meu dono já não estiver. Se é que meu dono não é imortal, o que realmente não sei, pois ele acredita que é.

Um lápis, simplesmente.

[Paulo Ghiraldelli]

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2 Responses “Tecnologia e sua testemunha”

  1. Gabriel Kassen
    10/05/2013 at 16:50

    Parabéns pelo texto. Ao lê-lo, percebi que já faz muito tempo que não escrevo e apenas digito. Digito de forma correta, ao menos tento, mas sempre que cometo algum erro de ortografia o computador me avisa sem educar. Será que isso é bom? O computador simplesmente “diz” que está errado e pronto. Será que assim alguém aprende como se escrete tal palavra? Isso não é uma mera correção sem educação? Ou é apenas uma viagem minha?

    • 10/05/2013 at 18:19

      Claro que somos negligentes com erros da máquina ou “das mãos”. E com acertos aprendemos pouco às vezes. Mas, se quisermos, aprendemos sim. O texto não fala disso, ele é descritivo apenas.

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