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23/10/2017

Saramago, Niemeyer e Fidel Castro: eles se foram, o mundo pode voltar a pensar


Pensar é para todos, mas não para qualquer um. Alguns acham que o pensamento é mera associação de ideias, outros acham que isso é o pensamento animal, não o humano. O pensamento humano cria, induz e deduz. É linguístico e, portanto, tende ao conceitual. Saramago, Niemeyer e Fidel Castro não possuíam esse dom, e por isso mesmo foram extraordinários. Apenas com associações disparatadas de imagens e sons, e muito instinto de sobrevivência próprio do que Nietzsche qualificou de “os fracos” ou “escravos” ou “doentes”, eles conseguiram comandar equipes de profissionais, bancas de Nobel e povos. Mostraram ao mundo que o comando é arte da mediocridade, que às vezes é de tal modo avassaladora que se parece genial.

Saramago fez o Ensaio sobre a Cegueira, a coisa mais cliché que alguém poderia realizar no mundo. Ele vendeu aquilo, e geringonça virou até filme. Niemeyer fez inúmeros monumentos artísticos que, sabe-se lá como, apresentou como moradias e lugares de pessoas. Obrigou as pessoas a viver e andar no inconfortável e no inviável. Fidel Castro criou uma mini-religião regada a sangue, rumba e pseudo-marxismo. Seu feito menor foi conseguir tapear a CIA por anos e anos. Na verdade, diz o povo do FBI, qualquer um faz isso. Além dessa aparente genialidade, eles tinham ainda mais uma coisa em comum: eram comunistas. Os últimos comunistas, e todos os três viveram bastante. Exibiram para o mundo como que as pessoas que os admiravam e os seguiam podiam ter esperança. Sim, a esperança de ser gente, ainda que não tivessem a capacidade humana de pensar. Fizeram muita gente animalóide feliz por se pensar humana.

O comunismo-que-não-atravessa-pinguela foi a marca dos três. E eles se amavam. Eles se reconheciam. Eles sabiam que estavam no comando de outros. Eles tinham no instinto de sobrevivência aquilo que é o núcleo central da religião do comunismo, o quarto grande monoteísmo do século XX. Eis esse núcleo: a desconsideração pelas flores e abelhas. Eles odiavam a polinização. O português, o brasileiro e o cubano. Não conseguiam ver o trabalho de flores e abelhas, respectivamente só o de parágrafos longos, concreto armado e marchas. Abelhas fazem as coisas se recriarem, eles só sabiam fazer as coisas adquirirem um terrível gosto de passado, de morto, de nivelamento e de cinzento. Cliché + Cimento + Armas = comunismo. Lênin havia errado ao falar que socialismo + eletricidade = comunismo. Havia errado, ao menos para esses três. Eles jamais entenderam o século em que viveram mais. Eles comandaram e seguiram. Seguiram a mediocridade que comandaram. Muita gente é presa do cocô que produzem.

O comunismo está presente em Saramago em uma literatura onde tudo que ocorre é cansativo para ocorrer, e todos já sabem que vai ocorrer. Está presente no inabitável dos monumentos mastodontóides de Niemeyer. Está presente na ditadura regada a cana de açúcar e turismo fajuto de Fidel. O “comunismo real” virou a ideia simples de planejamento de tudo, uma maneira de encapsular a história. Em cada lugar a fórmula foi produzindo um tipo de urina aparentemente diferente, e com esta urina os que não conseguiam pensar foram se banhando, esperando acordar numa utopia. Não sabiam que já estavam numa utopia. O comunismo é o lugar da utopia realizada, ou seja, a impossibilidade terrena realizada na Terra. Tudo que é não previsível deve desmanchar no ar. Esse lema guiou a pena sociológica de Saramago, a construção de caixas pseudo-estéticas de Niemeyer e o sistema de plantation de Fidel. Eles não conseguiam admitir a contingência, o novo, a polinização, a vestimenta não uniformizada e, enfim, o mercado. É próprio dos homens e mulheres de clichés não suportar o futuro.

O mundo sem eles pode voltar a olhar para a genialidade com novos conceitos. Uns ainda os seguirão, e serão escritores youtubers, outros serão palestrantes de araque. Mas haverá gênios que farão coisas como Freddie Mercury, Peter  Sloterdijk, Obama e os grandes roteiristas de Os Simpsons. Não haverá mais, claro, gente como Machado de Assis. Mas o mundo pode se sentir já como tendo feito demais ao ter produzido um Machado.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 26 de novembro de 2016

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31 Responses “Saramago, Niemeyer e Fidel Castro: eles se foram, o mundo pode voltar a pensar”

  1. LMC
    29/11/2016 at 10:32

    Chorar morte de um ditador é
    fogo,hein?Seja o Hitler ou o
    Fidel.DEUS ME LIVRE!!!!!!!!

    • 29/11/2016 at 11:31

      Não se chora a morte do ditador, meu caro. Preste atenção. Quem chora a morte de alguém, seja quem for, não chora a morte de uma má pessoa.

  2. 28/11/2016 at 15:15

    Ops! Excetuando-se o Papa Francisco, é claro. Sobraram as duas figuras tenebrosas, Lula e Dilma.

  3. 28/11/2016 at 15:12

    L.M.C.: não tenho nada a ver com essas figuras, não.

  4. LMC
    28/11/2016 at 11:42

    Por quê o Karnal não escreveu
    nada sobre o Fidel no Facebook
    dele até agora,hein?

    • 28/11/2016 at 13:15

      Porque ele tem medo de perder palestras já marcadas.

    • LMC
      28/11/2016 at 13:58

      Ih,só falta ele dizer que hoje milhões
      de crianças dormirão na rua e
      nenhuma delas é cubana.(essa
      frase é repetida pela nossa
      esquerda como um mantra).

  5. LMC
    28/11/2016 at 11:12

    No Brasil,a esquerda acha Fidel um
    herói e Sérgio Moro um bandido.
    Mas não toma nenhum remédio
    pra curar essa doença.Deve ser
    porque o remédio tá muito caro
    na farmácia e não tem no SUS.

    • 28/11/2016 at 11:33

      Há remédios baratos para o cérebro, um deles: estudo. No seu caso, sobre o papa, é um bom remédio. Estude a funçao de chefe de estado, diplomata e mensageiro da paz.

    • LMC
      28/11/2016 at 11:47

      É verdade,PG.Eu não entendo até
      hoje porque não deram um Nobel
      da Paz a ele.Outros chefes de
      estado e líderes religiosos já
      ganharam.Vai entender….

    • 28/11/2016 at 13:15

      Pois é, você não entende muita mais coisa.

  6. denis
    27/11/2016 at 21:04

    KCTADA HEIN…. PRECISO MORRER PRA VOLTAR A PENSAR, MAS QUE PORRA!!

  7. 27/11/2016 at 16:20

    Ri às pampas com sua resposta ao LMC! LMC é sigla de “Lerdo, Maluco, Charope”(com “ch”, mesmo, no caso dele!).

    • LMC
      28/11/2016 at 10:42

      Porfirio,você,o Papa,o Lula e a Dilma
      gostam do Fidel?Putz,então vocês
      gostam de necrofilia,mesmo,hein?
      kkkkkkkkkkkkkkkk

    • 28/11/2016 at 10:48

      LMC o fato de você ainda não ter entendido o Papa, mesmo eu tendo explicado, mostra que você realmente está precisando tomar alguma vitamina para o cérebro. Cara, que burrice é essa?

    • LMC
      30/11/2016 at 13:06

      Só falta canonizarem o Fidel como
      santo,ou o Haddad dar o nome
      dele pra alguma rua de SP.Pois é….

  8. Orquidéia
    27/11/2016 at 08:28

    Já era defunto e ainda por cima, morreu…

  9. Bruno
    27/11/2016 at 01:04

    É só ler um pouco de Tomás de Aquino que desanca o que Saramago escreveu, principalmente seus absurdos “Paulocoelhísticos” em “Ensaio sobre a Cegueira”, como a frase “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

  10. Sergio Fonseca
    26/11/2016 at 20:45

    Fidel foi um afigura histórica marcante. Poderia ter entrado para a história, não apenas como um líder que comandou uma revolução extraordinária e uma ditadura eterna, mas como alguém que soubesse alterar os rumos da história. Se Fidel tivesse, no pós/89, feito a transição do regime fechado para uma democracia social focada numa educação tecnológica , os destinos de Cuba e o dele seriam outro. Porem, excessivamente personalista, achou que a revolução era apenas um apêndice de seu próprio corpo e cabeça. A revolução deveria ter sido interpretada, nesse período, como uma transição datada. Não, Fidel preferiu acreditar que ele e a revolução formavam um único elo para a eternidade. Morre, assim, como mais um grande líder que perdeu o bonde da história!!!

  11. LMC
    26/11/2016 at 18:09

    E o Papa Francisco disse que a
    morte de Fidel é uma triste
    notícia.Parem o mundo que eu
    quero descer!kkkkkkkkkkkkkkkk

    • 26/11/2016 at 18:36

      LMC você bate bem da cabeça? Você queria que o Papa comemorasse? Você realmente entende o que lê? Que mundo você vive? Num mundo onde o Papa, chefe de estado, viria público para comemorar a morte de outro chefe de estado? Um líder religioso amaldiçoando? Realmente, você precisa tomar algum remédio.

    • LMC
      30/11/2016 at 11:04

      Imaginem se o Fidel fosse de
      direita…..o Lula e seus puxa-
      sacos com religião ou não
      estariam comemorando na
      Av.Paulista até agora.
      kkkkkkkkkk

    • 30/11/2016 at 11:45

      LMC quando Franco morreu, foi difícil não comemorar. Ou ao menos suspirar aliviado.

  12. 26/11/2016 at 16:35

    Mas, que filósofo mais de extrema-direita esse, meu santo Deus! Cruz credo! Mais reacionário, impossível! Existe um lugar para um “Joseph De Maistre” como esse aí? Um “Charles Maurras”, também? Parece muito com essas duas figuras extrema-direita francesa do século XIX. E o pensamento de ambos não desembocou em coisa muito boa, não, já no século XX.

    • 26/11/2016 at 17:13

      Cornélio você chegou sem saber nada, mostrou não saber nada e não entender nada e, enfim, honrou seu nome, cornélio. OK!

  13. Nataly Bianco
    26/11/2016 at 13:31

    Clara,veemente e objetiva sua explanação,idealizar pessoas que não possuem méritos,é desmerecer os grandes pensadores,parabéns pela retórica,amei o texto!

  14. ivan lázaro
    26/11/2016 at 13:17

    É o Bolsonaro homenageando o Ulstra e o PSOL homenageando Fidel, e um pedindo a prisão do outro.

    • LMC
      28/11/2016 at 14:03

      Ivan,não é a toa que o Papa
      Francisco e a Rainha da
      Inglaterra tem muita
      popularidade no mundo.
      Eles são sem partido e
      estão longe dessas
      briguinhas politiqueiras.

    • LMC
      29/11/2016 at 14:37

      Pois é,tem países mais desenvolvidos
      que Cuba-tirando os EUA-mas aqui
      no Brasil preferem modelos de países
      como Cuba.kkkkkkkkk

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