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22/10/2017

Quem é fascista? De onde vem? Como vem?


Quem é fascista?

“A direita defende os ricos e a esquerda defende os pobres”. Não há nenhum julgamento de valor nessa frase. Ela é uma verdade histórica. Direita e esquerda eram posições espaciais na Assembleia francesa nos tempos revolucionários, e a denominação política vem daí. O juízo de valor que se acoplou à frase é posterior. O que ocorreu? O mundo moderno se fez assim, como ele é, pela vitória da moral burguesa do trabalho sobre a moral do ócio dos antigos abastados. Esse movimento ganhou força à medida que se acoplou ao ideário de Jesus. Foi o Nazareno quem disse que era mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico entrar no Céu. Aí sim, a frase acima ganhou um juízo de valor.

Todavia, entre frases desse tipo e frases políticas com consequências mais dramáticas há um fosso. Ou seja, entre teses simples e destinos existe a prática. Na vida política o que ocorreu foi que entre ricos e pobres surgiram outras verdades. A dicotomia entre reconhecidos e satisfeitos e não reconhecidos e insatisfeitos nunca deixou de existir. Esta dicotomia deveria ser espelhada na divisão entre ricos e pobres. Mas, sabemos, não foi exatamente o que ocorreu. Os processos revolucionários de 1776, 1789 e 1917, para citar três grandes marcas em três grandes nações, Estados Unidos, França e Rússia, mostraram que havia entre o estudo da economia e da política uma outra necessidade, o estudo da psicologia social e política. Pois entre posições no campo econômico e predisposições de sentimentos há mais coisa a ser notada.

Os fenômenos revolucionários comandados pela chamada “burguesia” e, depois, pelo chamado “proletariado”, mostraram um estranho movimento que desde Caim e Abel estava anunciado: a inveja provinda da não satisfação e a não satisfação provinda do não reconhecimento. Não à toa Hegel dedicou um dos seus mais célebres escritos ao reconhecimento, no trecho tido como a “dialética do senhor e do servo” da Fenomenologia do espírito. A verdade é que nos processos revolucionários contou mais, muitas vezes, não o simples ódio, mas o desejo de tomar do outro o que Locke havia dito que não podia ser tomado: propriedade, entendida aí também como propriedade do pensamento livre, a consciência, e também a propriedade do corpo. Por isso os filósofos às vezes culpam Rousseau por tudo isso. Para muitos, na esteira de Nietzsche, foi Rousseau quem melhor encarnou aquele que incorpora o desejo de expropriação do outro com a sua necessidade de sair do não reconhecimento.

Rousseau foi quem disse que a propriedade é algo de quem cerca a terra e, então, cria males, ou seja, cria a propriedade como um ato ilegítimo. Daí para diante, tudo que se faz é tentar ou tirar a propriedade, que é vista como ilegítima na mão de quem está, ou então cobrar impostos altos de quem a possui. Os movimentos de esquerda e de direita podem então deixar ricos e pobres de lado, e ficar apenas lidando com os insatisfeitos e não reconhecidos. Podem usar essa força motriz. Podem tomar o estado e direcionar expropriações e taxações em favor do aplauso de ressentidos de todo tipo. A vingança no horizonte é luz do melhor mel na boca dos perdedores. Estes, como sempre, esperam o vingador para lhes dar o gozo que acham que merecem.

Daí a semelhança entre a figura de Stalin e de Hitler. Ambos vieram de fracassos diante de intelectuais sofisticados, de gente que podia ter as melhores mulheres e até mesmo exibir homossexualismo, de pessoas que sabiam apreciar a modernidade e a urbanidade e, enfim, de gente que havia optado pela revolução sem ter passado necessidade e sem ter de implorar reconhecimento. Daí o ódio mortal de ambos à esquerda liberal ou reformista, que podia ler e comer caviar. Esse desfrute os fazia possessos! Hitler e Stalin se olhavam nos olhos e sabiam bem que a Guerra se travaria entre eles ali mesmo, no campo da velha Europa, e que tudo dependeria de evitarem a entrada na Guerra dos liberais, ou seja, dos amigos dos ingleses, os americanos. Falharam nisso. E perderam. Um perdeu no braço, ou outro demorou mais, mas ruiu sozinho perante sua própria burocracia, sua KGB e as filas populares.

Eles dois, Hitler e Stalin, se olhavam nos olhos e se compreendiam porque ambos fomentaram o que havia de pior neles mesmos, e isso é o que havia de pior em seus povos: o culto do desprezo. Não à toa Hitler chamou seu movimento de “nacional socialismo”. O socialismo em sua pátria era um movimento de intelectuais e cosmopolitas, de fundo marxista. Marxistas alemães  haviam lido, antes de tudo, os clássicos da literatura e da filosofia. Não eram socialistas nacionalistas. Os homens da social democracia marxista europeia eram pessoas cultas, abertas ao mundo, cultivadores da paz. O movimento de Hitler nada tinha a ver com esse tipo de socialismo, mas apenas com uma ideia torta vinda da tese da necessidade da expropriação da propriedade privada dos meios de produção para fins de socialização. No caso de Hitler, expropriação da propriedade privada em alguns casos, para colocá-la dentro de uma economia capitalista com forte participação do estado enquanto controlador e gerenciador direto de determinadas empresas. O que Hitler energizava era, na verdade, o desejo de vingança embutido no peito do chamado “socialista de ocasião”, ou seja, o desejo de arrancar a propriedade e talvez a vida do dito privilegiado – principalmente o privilegiado marxista, o trabalhador organizado ou o intelectual ou o rico predisposto à filantropia.

A ideia básica e tríplice de Hitler surgiu quase que espontaneamente: pedir dinheiro para os grandes empresários de modo a protegê-los da “ameaça do comunismo”, tirá-los do jugo dos banqueiros judeus que cobravam juros do parque industrial alemão, colocá-los de igual para igual diante dos empresários das “potencias imperialistas” que bloqueavam a entrada da Alemanha no mercado e no neocolonialismo. Os que não cedessem a tais belas ideias seriam expropriados ou então administrados por “quadros do partido”, já chamado, então, de “nazista”.  Foi assim que o nazi-fascismo vingou. Era tão o momento desse tipo de ideário que boa parte da burguesia europeia menos capaz, em diversos países, adotou o seu programa. Em alguns lugares invadidos, Hitler foi recebido com aplausos por determinados grupos de ricos e pobres.

Capital e estado, bem requalificados, foram casados e o sacerdote da união foi o próprio Papa da nova era: Hitler. Ele, aliás, deu a fórmula para Mussolini, Franco, Salazar e, depois, para tantos outros como os Pinochets da vida. Os padrinhos? Ah sim, um exército armado de vingadores de todo tipo. Os oficiais da velha guarda? Ora, esses prussianos tinham honra, brio e honestidade, e foram assassinados e trocados por gente da SS. Hitler rapidamente mudou toda configuração do estado. A censura e a perseguição fizeram o resto, nas fábricas e nas universidades. Os assassinatos de oposicionistas, então chamados de “comunistas” ou simplesmente tidos como “impuros” por não virem do mito “da raça de super homens”, passaram a ser frequentes. Depois, o cheiro dos judeus no forno chegou mesmo até a não incomodar as cidades, pois durante muito tempo a letargia da guerra fez todo nariz não sentir mais nada. Os narizes negavam ter visto alguma coisa, com a vantagem natural de nariz não enxergar.

Não foi nenhum teórico do nazismo que pensou nisso tudo como possível. Foi um teórico do socialismo. Foi Marx quem viu que essa barbárie poderia ocorrer. Só que ele não pensou no nazismo, inexistente na época dele, uma época em que o inimigo parecia ser a doutrina liberal. Ele pensou no próprio socialismo. Ele falou em “comunismo de inveja”. Ou seja, ele alertou para forças horríveis entre os insatisfeitos, as forças que poderiam fazer do comunismo não algo esperançoso, mas apenas um movimento de revide, o surgir de um Rousseau-Frankstein, que muitos acham que é o único Rousseau possível. Nietzsche, Freud e os filósofos de Frankfurt apenas complementaram a tarefa de Marx, de ver a possibilidade do monstro. Quando o nazismo foi derrotado, então os estudos sobre quem eram os nazistas e qual personalidade dava margem para aceitar a ideias fascistas praguejaram as prateleiras das livrarias. De 1945 para cá não fazemos outra coisa senão isso: ver nas utopias do trabalho – liberalismo, socialismo e fascismo – onde está o germe de não reconhecimento e insatisfação que pode brotar fazendo-nos herdeiros do drama Deus-Caim-Abel.

Olhar o facebook dos que aderem ao fascismo, dos que brigam fanaticamente em favor de parlamentares de extrema direita, já basta para entendermos muito dessa história toda. Observando os fanáticos, que se note o tipo de fanatismo: pensam que o melhor regime é aquele que põe os ricos no paredão ou que tripudia sobre intelectuais e professores ou que menospreza a arte aparentemente incompreensível ou que idolatra a mulher-mãe em detrimento de outros tipos ou que fomenta a homofobia ou que é visivelmente racista e xenófobo. Encontram-se semelhanças entre pessoas que aparentemente estão em polos opostos. Fracasso sexual estampado no rosto (ou disfarce que só denuncia isso mesmo), emprego ruim ou não emprego, escola ruim ou não escola: eis aí a escória do mundo, os rejeitados, os medíocres. São os insatisfeitos. Os não reconhecidos. Às vezes ricos, mas na maioria, classe media imbecilizada. Capacidade cognitiva? Baixa. É o prato com todos os alimentos do nazismo ou do “comunismo de inveja”. Filmes como Uma outra história americana, O leitor, A fita branca e Uma mulher contra Hitler  dão todos esses ingredientes para saber como que se pode gerar o nazismo. Dão os ingredientes que Deus usou para não reconhecer Abel, e sim Caim, e gerar a inveja, o ódio, a morte. Complemente com o contraponto pertinente, chocante, com Robert Duval no filme Stalin, produzido a partir da narrativa da filha do ditador comunista.

Uma sociedade liberal democrática mensura sua sobrevivência na capacidade de gerar possibilidades de reconhecimento para todos. Deve diminuir a inveja social. John Rawls sabia disso. Nozick também, e achava que a solução de Rawls iria só piorar. Não sabemos o certo, estamos nessa encruzilhada, talvez pensando que essa dupla alternativa é pobre. Talvez tenhamos que ir além do encalacrado jogo Rawls-Nozick. Mas, enfim, o que sabemos sem dúvida, hoje, é que a vitamina do nazismo está ali sim, no perfil de cada fracassado que podemos notar no facebook. Eles mesmos abrem o jogo. Eles ecoam o fracasso pessoal e se metem em todo movimento que tome conotação vingativa contra os que são eleitos como os bem sucedidos no momento. A expressão “esquerda caviar” é exatamente o grito desses fracassados, que se remoem de ódio ao ver que pode haver socialistas que não vieram da pobreza, ou que pode haver socialistas que não querem repartir a pobreza e sim proporcionar uma maior riqueza e reconhecimento a todos.

O comunismo morreu, mas o nazismo não. Porque ele se alimenta de um traço do comunismo, o “comunismo de inveja”, denunciado por Marx. Todas as vezes que há o ódio a um grupo ou a uma pessoa reconhecida, feliz e, principalmente, culta, o que se inicia aí é a abertura da porta do inferno. Sabemos bem que Hitler e Stalin estão conversando no Inferno, sempre achando que podem subir.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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21 Responses “Quem é fascista? De onde vem? Como vem?”

  1. Carlos
    15/12/2014 at 14:40

    Tenho ódio de você, porque você fica falando que sou fracassado.

    • 16/12/2014 at 02:21

      Carlos, não sei quem é você. Só sei que seu ódio não é contra mim, é contra você mesmo.

  2. Maximiliano Paim
    13/12/2014 at 18:38

    Larguei o curso de Licenciatura em História, depois do último Hora da Coruja de 2014, para transferí-lo para um curso de bacharelado em filosofia de uma universidade aqui próxima. O coração berrou e tive que atender. Seguirei a minha sina pela qual já se aprensentava desde a minha infancia: perguntar, duvidar, pensar e elaborar alternativas. Gracias, Dr. Paulo!

    • 14/12/2014 at 04:08

      Paim! Bem vindo ao nosso recanto dos que podem!

    • Claudio
      16/12/2014 at 11:29

      Estou na mesma encruzilhada…. naquele dilema do será que vou, será que fico…. Enquanto isso diluo aqui e acolá minha própria ignorância.

    • 16/12/2014 at 12:07

      Claudio, a síndrome não é uma encruzilhada, é uma doença da estupidez.

    • José
      16/12/2014 at 19:20

      Um velho pode fazer filosofia?

      Obrigado

    • 16/12/2014 at 21:39

      José, não sei, mas pareceu que Platão, Sócrates e outros melhoraram só depois dos 50. E você, consegue ultrapassar seus 12 anos?

  3. Henrique
    13/12/2014 at 12:36

    Tenho notado um elemento comum nos grupos fascistas, o ressentimento.

  4. 13/12/2014 at 00:26

    Que bacana o artigo!!!

  5. João Eduardo
    12/12/2014 at 23:20

    Olá, Paulo

    Não entendi a passagem em que comenta que Hitler criou o “nacional socialismo” e buscava com isso proteger parte dos alemães das “ameaças do comunismo”. A princípio, me parece uma contradição de Hitler, já que teoricamente um estágio mais avançado de socialismo possibilitaria chegar ao comunismo, que ele intentava combater …
    Ou esse discurso foi apenas uma estratégia de Hitler para conseguir apoio de empresários para apoiar sua “causa” contra os judeus liberais?
    Um outro assunto: ao ler algumas de suas postagens anteriores, notei que estudou com profundidade as teorias marxistas e também o liberalismo americano, estou certo? Gostaria de saber se adere ou é mais afeito a alguma doutrina política?

    • 13/12/2014 at 01:23

      João Eduardo, não dá para explicar história. O texto é filosófico, ele pressupõe um leitor com a história do ensino médio na cabeça. Mas rapidamente, eis o que dá para ajudar: na sociedade alemã competiam a social democracia de base marxista e o comunismo revolucionário também de base marxista, Hitler apareceu com novo tipo de “entrada” no meio pobre, o nacional socialismo, que conquistou parte dos ricos contra os que estariam emperrando a vida alemã. Do resto que escreveu, tentando ver o que seria minha biografia, aí tem de ir nos livros, no meu currículo etc etc etc. Obrigado.

    • Hayek
      15/12/2014 at 11:26

      Devemos lembrar que nem todo fracassado é pobre. Os alemães nazistas foram fracassados geograficamente (perda da primeira guerra e das colonias extramarinas) e intelectualmente (inveja da cultura judaica)

    • Hayek
      15/12/2014 at 11:28

      Contra esses bocós da veja que pensam que o nazismo é de esquerda devemos lembrar que eles imitam o nazismo um pouco na inveja dos intelectuais, ao chamarem a Usp de centro de playboys maconheiros e esquerda caviar!

    • LMC
      16/12/2014 at 13:43

      Hayek,e os bocós da
      Carta Capital,hein?
      Maconha faz mal,
      sabia,cara?Não,
      sabe porque você
      lê aquele “gênio”
      do Vladimir Safatle.
      Ó,coitado!!!!

    • Hayek
      17/12/2014 at 10:22

      O safatle tem um doutorado nas costas, enquanto reinaldo azevedo e bostantinos não. E eu disse algo sobre a Carta Capital? E como já foi dito aqui, ser de centro não torna ninguém melhor do que ninguém.

    • 17/12/2014 at 12:40

      Hayek você está meio doido, fazendo uns comentários desconexos. Ser “centro”? Que tonteira é essa?

    • Cesar Marques - RJ
      14/12/2014 at 12:51

      João Eduardo, pelo amor de Deus, você não estudou 2ª Guerra Mundial e o fenômeno do Nazi-Fascismo no ensino médio, não? O que ocorreu é que setores na Alemanha inspirados no Fascismo italiano e descontentes com o modo como a Direita Liberal-Conservadora alemã interagia com o eleitorado, mesclaram táticas fascistas de eliminação e repressão dos oposicionistas (via milícia) e de campanha política eleitoral dos comunistas (meetings, passeatas, etc.), daí dessa segunda vertente os nazistas terem adotado o “socialismo” no nome, só isso.

      Um dos objetivos dos Nazistas eram eliminar os Comunistas e os Socialdemocratas, portanto, o Nazismo não tinha nada, rigorosamente, nada a ver com os socialistas.

    • João Eduardo
      14/12/2014 at 19:31

      Pois é, Cesar, não aprendi isso… tive um ensino médio bem ruim e no ensino superior os conhecimentos foram específicos da área que atuo. Desse modo, tento correr atrás do prejuízo.

    • LMC
      15/12/2014 at 10:47

      Hoje,se Hitler estivesse
      vivo,a esquerda brasileira
      puxaria o saco dele.
      Ele tinha um ódio anti-
      semita e anti-EUA,
      igualzinho aos que
      hoje chamam os
      judeus de “sionistas”.
      Hoje,a nossa esquerda
      flerta com o Putin,pra
      vocês terem idéia!

    • 15/12/2014 at 11:30

      LMC eu garanto que não. Já disse que você confunde as coisas.

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