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23/10/2017

Os pretos e pretas do Brasil


Aposto que você já sonhou estar nu em um lugar público. Ficou desesperado, não? Agora imagine você realmente nessa situação, cheirando urina e sem ninguém a recorrer, no centro do Rio de Janeiro. Imagine também que está sem comer e sem moradia. E então, consegue se ver realmente desesperado? Caso você consiga imaginar sua sensação e seus sentimentos ao passar por isso, talvez você possa fazer ideia do que muitos dos tataravós dos negros atuais viveram. Foi assim o primeiro dia de liberdade deles, após o ato que extinguiu a escravidão no Brasil, assinado pela Imperatriz. 

De um dia para outro, não existia mais quem não fosse livre. Os registros da escravidão? Todos queimados por Rui Barbosa, cioso em apagar a história para “evitar que houvesse como os fazendeiros cobrar indenização” do estado. Só isso? Ora bolas!

Após alguns dias, com todos os negros amontoados nas ruas, o Rio de Janeiro cheirava urina humana e fezes humanas. Os continuavam ali, em pilhas e nus, sem saber para onde ir, e logo começaram a ser acossados pela polícia, para se dirigirem para os morros e estradas. O desamparo e a humilhação sentidos só foram equivalentes, na história recente, aos dos judeus no Holocausto, meio século depois.

É claro que aquela situação cruel não se estabeleceu somente pela obra da Lei de Abolição, mas pela reação dos proprietários de escravos, que abandonaram os negros ali, “livres”, como que para castigar a cidade do Rio e a própria Coroa. Castigar os negros também? Ora, eles, os pretos e pretas, jamais foram humanos para os senhores de escravos, jamais! A senzala sempre foi pior que um cortiço daqueles que nem a nossa mais horrenda imaginação consegue recriar. Os escravos dormiam presos uns aos outros. Alguns morriam ali mesmo, à noite, como que reproduzindo o horror dos porões do navio negreiro. Os mais bonzinhos dos senhores de escravos jamais abandonou o uso da senzala e os ferros. Apanhar no tronco era um castigo até menor nessas circunstâncias. Senhor de escravo bonzinho só existiu em livro didático republicano.

Essa população humilhada, reduzida à vida no inferno, foi empurrada para os morros, criou as favelas e foi logo obrigada a de novo sorrir, sem qualquer ressentimento. A “negra ladina” e o “negro fujão” deixaram de existir, e tiveram de se transformar no “negro inteligente”, no “negro prestativo” e no “negro brincalhão”. Qualquer traço de rosto que não exibisse essas características traziam a polícia no encalço de imediato, sem desculpa. Claro que, com desculpa, então a polícia sempre pegava primeiro o negro. Até hoje é assim, em tudo. Tanto é verdade que muitos brancos, hoje, acham que o movimento negro, o movimento por cotas e as ações de integração são criações atuais, de “esquerdistas”. Antes não existia racismo ou preconceito, dizem. “Antes”? Antes do quê? Antes das cotas, antes de se falar em racismo (!), antes de se perceber que haviam negros fora de qualquer lugar tudo ia bem. Tudo ia bem. Sim, a partir do momento que o centro do Rio de Janeiro passou a não ter mais a visão do desespero que foram as primeiras semanas da “liberdade”, tudo caminhou mesmo muito bem. Toda vez que alguém na história diz que tudo ia bem, é necessário perguntar logo em seguida: ia bem para quem?

É incrível que uma política de cotas que, enfim, não é política educacional e nem quebra o mérito (essa doutrina até correta vinda do preceito liberal), mas apenas busca acelerar a integração para que o preconceito baixe a sua bola, cause tanto ódio. A crueldade de se manter o preconceito é suportável para todos os brancos – ou quase todos. Há até negros que engolem essa ideologia e acham que a cota é humilhação. Não entendem que a cota resolveu problemas desse tipo com mulheres e outras minorias, de diversas formas, em diversos países. A cota passou a ser odiada, recentemente, segundo aquele mesmo ódio que a população do Rio alimentou nos primeiros dias de liberdade dos negros, e que fez a polícia bater nos corpos nus, e botá-los para correr para a mata dos morros. Ah! Ficaram nos morros né? Que fiquem lá. Pois se descerem para beber com Chico Buarque ou Garneirinho, a polícia vai atirar. Para matar.

A cota é uma forma do branco poder ter o privilégio de conviver com a cultura negra de modo mais rápido e certeiro. Só a melhoria da escola pública básica não é suficiente. Essa escola pública básica já foi boa, e nessa época, foi excludente em relação aos negros.  Eu estive nela e sei o que estou falando.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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14 Responses “Os pretos e pretas do Brasil”

  1. Evandro
    17/01/2016 at 20:12

    Agradecido por compartilhar texto tão indispensável. Aproveito e peço licença para fazer um comentário que a princípio não tem relação direta com o assunto tratado. Seu texto é muito mais importante!

    Qualquer ação criminosa contra um(a) negro(a), seja ela revelada por documentos históricos ou transmitida por preconceitos latentes e/ou desvelados é uma tentativa de aniquilação de nós mesmos, uma vez que a motivação é a destruição daquele que nos representa em nossa ancestralidade? Não que essa ação criminosa ou preconceituosa tenha nascido de fato de forma consciente e que esteja ela justificada em tais atrocidades, no entanto, esta se revela a posteriori como uma forma consciente de não darmos a mínima para os fatos e continuarmos alimentando algo que em verdade deveríamos sequer cogitar, quiçá, tramá-la e executá-la?

    Pergunto levando em consideração que nossa árvore genealógica remonta a um passado que se inicia na Etiópia há +/- 5 milhões de anos atrás e a evolução da raça humana em seus primórdios aconteceu definitivamente no continente africano.

    A subjugação e desumanização do negro nos inúmeros capítulos vergonhosos da história deveria sempre ser lembrado para nunca mais ser repetido. Utópico? Por que não desejar um mundo sem preconceito ou atrocidades de qualquer natureza? Já que não podemos viver nesse mundo, desejá-lo não seria um bom começo?

    .

  2. Juliana
    17/01/2016 at 08:41

    Muito bom, Paulo. Quando implementaram as cotas no Brasil eu fui contra. Eu tinha acabado de me formar e não entendia o porquê das cotas raciais. Mas depois de me informar melhor da justificativa das cotas raciais e agora, mais recentemente, com teus textos, me parece tão fácil entender e não só aceitar, mas ver o quanto são necessárias. Quando eu repasso teus textos para conhecidos que eu sei que são contra as cotas raciais, eles respondem com comentários de que são a favor da cota social e permanecem contra as cotas raciais. Tá difícil fazer esse povo entender!!!

    • 17/01/2016 at 09:49

      Sim, num primeiro momento, sempre pensamos como brancos, para quem o racismo não existe. Fazemos assim com todas as minorias, e às vezes até quando fazemos parte de uma.

  3. Angelo Ponciano
    16/01/2016 at 18:46

    Professor Paulo, parabéns pelo texto, excelente. Sobre esse período narrado em seu texto(pós abolição) teria algum ou alguns livro(s) para indicar ? Sou estudante de Filosofia e um apaixonado por história.
    Obrigado.

    • 16/01/2016 at 18:52

      Angelo essas histórias “sumiram”. Ficaram nos registros dos literatos. Nos arquivos de literatura negra e de escravidão, nas universidades, você encontra. Mas é difícil. O preconceito é duro. Veja como é difícil até falar em cultura afro. Aparecem dezenas de Demétrios para dizer abobrinha.

    • Angelo Ponciano
      16/01/2016 at 19:47

      Ok, muito obrigado.

  4. 04/01/2016 at 01:22

    Achei o texto bom, apesar de não tê-lo compreendido em sua totalidade. Talvez por uma a uma provável deficiência intelectual de mina parte. Minha compreensão em relação às cotas é que é um mecanismo de correção de desigualdades temporal. Durante centenas de anos um grupo étnico pode avançar na sociedade em detrimento a outro que foi mantido escravizado e participar de maneira equânime do mesmo avanço. A Constituição do Império, de 1824, manteve o impedimento do avanço, agora constitucionalmente. Então, se houve uma lei que causou a assimetria, nada mais justo que haja outra para corrigí-la. Em relação ao empoderamento da escola de base, acredito que seja mesmo necessário, só que é irreal. A escola básica, pública, só sofrerá qualquer tipo de fortalecimento se a burguesia tiver que colocar seus filhos nela. Caso contrário, o status quo será mantido pelo princípio do darwinismo social, traduzindo: Não vou colocar azeitona na empada de ninguém, ainda mais pobre e preto, para depois disputar com os meus. Apesar de achar a medida lamentável, prefiro ficar com ela.

    • 04/01/2016 at 09:26

      Amauri você está completamente correto: a escola, qualquer uma, precisa de ricos e pobres, e negros e brancos. Para tal, uma forçadinha de uma lei, ajuda.

  5. Flávio
    29/12/2015 at 10:58

    O que fode o texto, é a assinatura, onde o autor sempre lembra: “sou filósofo”.
    -Soa ruim, da mesma forma quando um engenheiro coloca no lugar do nome algo como: “Engenheiro fulano de tal”…

    • 29/12/2015 at 11:39

      O que fode o texto é o Flávio não ler que não está escrito “sou filósofo”, e sim a tradicional identificaçao jornalística. Será que foi o primeiro texto que o Flávio leu, na vida?

    • Roberto
      30/12/2015 at 15:06

      Talvez não seja o primeiro texto lido pelo Flavio, mas que ele deve ser um adolescente ou ter a cabeça de um… ele tem. kkkk

  6. 28/12/2015 at 21:26

    bem pelo que eu entendi o grande personagem da história brasileira homem letrado e intelectual não gostava do negros e tentou apaga-los da história queimando todos os registros de 300 anos de escravidão então nos dias atuais esses decendentes dos malditos senhores de engenho continuam no brasil escravizando a todos e tem pobre que continua com a mesma mente fechada de um escravo fica ao lado dos patrões repressores esses merecem voltar ao tronco pra tomar vergonha na cara porque vota no pps /dem / solidariedade / e psdb e pmdb não tem carater.

    • 28/12/2015 at 21:28

      Manoel e aquela coisa chamada pontuação?

    • Mabia Barros
      29/12/2015 at 11:52

      Tudo o que consegui pensar desse comentário, exatamente.

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