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26/09/2017

“Manual politicamente incorreto de X”, o fedor da incultura


Houve um tempo que ensinar história crítica do Brasil nada era senão transformar em casos pitorescos e negativos, até com certa maldade, aquilo que até então vinha sendo contado em tom ufanista. Era a forma de fustigar a chamada “história oficial”, que não havia mesmo sido escrita com a finalidade antes moral que informativa. Era o tempo do prestígio da disciplina Educação Moral e Cívica em detrimento das disciplinas História e Geografia, desaparecidas sob o rótulo de Estudos Sociais.

Nessa tarefa crítica, podia-se então desenhar o Grito do Ipiranga não segundo o quadro clássico de Pedro Américo, pintado em 1888, mas por meio de uma narrativa mordaz. Nesta, D. Pedro I, meio bêbado após uma esbórnia com a Marquesa de Santos, teria parado no riacho por conta de dor de barriga, e dessa maneira o grito havia sido antes de gemidos provocados por revoluções intestinais que por revoluções garbosas de cavalos militares da pomposa Guarda Imperial.

Passado um tempo, terminada a Ditadura Militar (1964-1985), e tendo as aulas de Educação Moral e Cívica perdido o prestígio e já prontas para desaparecer de todas as formas, os professores de histórica iniciaram então uma fase de ensino mais equilibrado. Contava-se o episódio do Grito do Ipiranga sem ufanismo, e ao mesmo tempo falava-se aqui e ali do episódio pitoresco, mas avisando os jovens que aquela visão pitoresca era apenas anedota.

Chegamos agora, a uma nova situação. Trata-se de algo totalmente inédito e inesperado. Por conta da decadência geral do ensino, dissemina-se nas escolas a visão vinda da onda conservadora pela qual passamos no Brasil, que é a dos “manuais do politicamente incorreto”. Tudo então é contado segundo uma ótica pitoresca, mas sendo essa ótica, agora, a grande descoberta de novos historiadores que teriam vindo do Céu para combater os mentirosos “professores marxistas”. Alunos bestializados começam a voltar para casa, após a escola, para contar aos seus pais uma quantidade enorme de bobagens, e postar na Internet essa “nova história”, fruto dos “manuais do politicamente incorreto”, essa fonte de asneiras de todo tipo.

Nessa linha segue-se então todo tipo de imbecilidade dita por gente do time do Pondé, principalmente aquilo que parece engraçadinho, produzida pelo pessoal que agora se acha inteligente exatamente por dizer que “Marx é marqueteiro”, que “Hitler era de esquerda” e coisas do tipo. Emendam isso a uma série de frases pejorativas diante de heróis da pátria que lutaram por liberdade. De Zumbi a Tiradentes, de D. Pedro até Tancredo, vale escrachar e depois dizer que qualquer versão fora do escracho é tentativa dos marxistas de “fazer a cabeça dos jovens”. O ensino de história deixa de ser um campo de disputa do saber ou de disputa ideológica, para então se tornar o reino do não-saber, da incultura, da imbecilidade crônica de uma direita irresponsável.  Professores jovens mal formados aderem também a esse tipo de ignorância.

Assim, se em algum momento tivemos grupos ensinando história sem história, aquela narrativa que faz o dedão do pé inchado de alguém ser de responsabilidade do capitalismo, agora temos coisa talvez pior: todas as vozes que poderiam trazer orgulho para setores minoritários ou não hegemônicos aparecem como bobagem de professores “esquerdistas”. Dissemina-se então a imagem de que a verdadeira história do Brasil (ou qualquer outra história) foi até agora escondida, e que o que há nos livros clássicos e o que se ensinou na escola até então foi só ideologia. O certo é transformar tudo em piada, caso tenha a narrativa em questão qualquer evento que possa fazer pobres, negros, índios, mulheres, gays terem algum orgulho. O lema dos Pondés da vida alimenta o movimento na Internet e em certas famílias de miolo-mole isso se resume no seguinte: “tire seu filho do controle de um professor de história”. Só podem falar da história, agora, os autores que nunca fizeram pesquisa alguma, e que dançam em volta da forma-Pondé de disseminação da incultura.

Faz-se necessário urgentemente não um grito de professores à esquerda, o que seria uma bobagem, mas uma intervenção dos historiadores acadêmicos sérios, para colocar o dedo na ferida e começar a dizer para a garotada: “manuais politicamente incorreto são um lixo, joguem fora isso!”. É uma questão de responsabilidade simples fazer isso. É uma obrigação dos historiadores acadêmicos, dos formadores de professores, não desprezarem a força que esses disseminadores da incultura possuem diante de uma juventude que adora frases rebeldes, sentenças que atualmente estão na boca de uma direita que aposta na desinformação.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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13 Responses ““Manual politicamente incorreto de X”, o fedor da incultura”

  1. Erik Kierski
    27/07/2015 at 13:10

    Ótimo texto, Paulo! Se bem o compreendi, poderíamos dizer que esses seriam os intelectuais orgânicos dos quais Gramsci escreve, que estão a serviço de uma ideologia conservadora? Assim, a resposta não deveria vir da esquerda, com seus intelectuais orgânicos, mas de novos intelectuais mais racionais, os “historiadores acadêmicos sérios”. Estou certo em minha interpretação? Obrigado.

    • ghiraldelli
      27/07/2015 at 14:38

      Não trabalho com noções desse tipo, Erik, ser sério na academia é se sério, somente isso, é tentar o máximo de objetividade com vistas a criar pessoas mais autônomas.

  2. roberto quintas
    27/07/2015 at 11:52

    “guia do politicamente incorreto” são uma ode ao casuísmo e deveriam ser chamado de “guia do historicamente incorreto”

    • ghiraldelli
      27/07/2015 at 14:39

      Roberto, então está no hora de virarmos o jogo e denunciarmos isso.

  3. Aluizio Alves Filho
    26/07/2015 at 12:34

    “Faz-se necessário urgentemente não um grito de professores à esquerda, o que seria uma bobagem, mas uma intervenção dos historiadores acadêmicos sérios”. Para além das aparências, com bons disfarces o seu texto é de um sofisticado conservador. O texto que reproduzo da sua fala é fundamental para compreendê-la, ou seja, a fala dos professores ditos a esquerda é apresentada como grito (imposição, autoritarismo) e em última instância uma “bobagem”, como você diz. O correto (politicamente correto?) seria a “intervenção de historiadores acadêmicos sérios”. De onde vem? Caem do céu? …
    Aluizio. Meio século de magistério.

    • ghiraldelli
      26/07/2015 at 12:38

      Aluizio você caiu do nada aqui. Não sabe de onde veio e nem para onde vai e nem com quem está conversando. Nada. Acorda.

    • Aluizio Alvves Filho
      23/05/2017 at 10:28

      Por acaso achei isso. .. Vc escreve a meu respeito: “não sabe de onde vem nem para onde vai”. (???). Que coisa vazia. É do tipo xingão, Usa a técnica de se colocar como dono da verdade e tentar desqualificar o outro pela ridicularização. A internet está cheia de blogs e sites assim. Vc se coloca como “filósofo” (socrático???) dando a entender que olha os outros de cima. julgando-os a partir de estereótipos e generalidades. Isso fica explícito no fim do seu texto quando usa o chavão denunciado e decodificado por tda Matta: “Vc sabe com quem está falando?… Desculpe sabichão.

    • 23/05/2017 at 11:02

      Aluizio, que mistureba meio sem sentido. Que tal procurar um médico?

  4. claudio dionisi
    24/07/2015 at 10:18

    Em meio a tanta baboseira que estes dizem, ainda falam das mais esquisitas teorias da conspiração, incluindo conspirações judaicas-maçônicas-comunistas mundiais, cavaleiros templários, fluoretação da água e por aí vai…. Tudo ligado ao domínio comunista!

    É o que acontece quando deixam de escutar professores para escutar jornalistas de Veja e facebookers replicadores. Começam a se acostumar tanto a ignorar a verdade, que a cabeça abre pra todo tipo de palhaçada. Tudo começa a ser possível na cabecinha destes.

    Incrível. Não imaginava que nossa cultura iria beirar esse abismo. É gente diplomada falando essas merdas!!!

  5. José Silva
    24/07/2015 at 02:56

    Esta situação descrita por você se dá muito em escolas de classe média e classe média alta. Onde os alunos tem dinheiro para comprar estes livros e tem pais empresários saturados de livros de auto ajuda e revista VEJA.
    Nas escolas públicas que trabalho, o sistema é o mesmo, só que se dá por meio dos evanjegues, mas a tática para atormentar o docente é igual. Tudo aquilo que não foi dito pela pastor é errado, e o professor de humanas, ao invés de “comunista” é “ateu que adora o diabo” (nenhum deles pensa na contrariedade de existir um ateu que crê no Diabo).

    No final, quando percebe-se que a possibilidade de comunicação com estes seres idiotizados é nula, a vontade que dá é de simplesmente manda-los colocarem o pau do pastor na boca para assim impossibilita-los de falar merda.

    Até o final da minha vida verei um professor, numa cena típica de Luiz Buñuel, sendo carregado por seguranças, louco de raiva e gritando “ELES NÃO APRENDEM!! ELES NÃO APRENDEM!!”

  6. Clayton
    23/07/2015 at 18:15

    É impressionante como olavetes atribuem ao marxismo um poder fenomenal de subjetivação dos jovens. Eles morrem de medo! Se o marxismo tem tamanho poder, como é que esses idiotas conseguiram “escapar” desse discurso?

    • Matheus Kortz
      23/07/2015 at 20:31

      É que eles deveras são tao inteligentes que conseguiram driblar essa formatação mental hahaha

    • Thiago Carlos
      21/11/2015 at 17:02

      É porque eles precisam mostrar que são tão poderosos e que todo mundo deve se subjulgar aos flashes de luzes poderosos que suas palavras libertadoras evocam. Na verdade é tudo que destoa do que eles consideram errado é marxismo cultural e deve ser destruído.

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