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27/03/2017

Os conservadores que não sabem o que é bom


Ser “progressista” até os anos oitenta tinha lá sua validade. Claro que a doutrina do progresso vinha do século XIX, e já estava meio carcomida. Mas a maioria de nós, que se identificava com alguma plataforma política à esquerda, sabia criticá-la. Temperávamos nossa crítica não com qualquer conservadorismo, mas dentro do próprio campo da esquerda tínhamos nossos instrumentos intelectuais para tal. Visões românticas e de crítica ao Iluminismo nos eram úteis.

A ideia de uma história por etapas, sendo que as etapas posteriores sempre seriam de ganho moral em relação a etapas anteriores, era uma ideia ingênua de progresso e era a isso que dávamos o nome de “ideologia do progresso”. Quando o marxismo tendia ao namoro com essa ideologia, falávamos então que era o espírito de Comte atormentando o marxismo – deturpando-o. Claro que, vendo com olhos de hoje, esse passado nos parece uma tolice. Mas, enfim, era nosso modo de sermos críticos sem abandonar de todo uma teoria que havia constado na base de nossa formação intelectual, ou seja, algum tipo de marxismo, uma certa maneira de se fazer intelectual que implicava em uma razoável leitura de Kant e Hegel.

Hoje é bem diferente. O marxismo já não é o grande guarda chuva dos intelectuais. Vivemos um período semelhante ao do fim da Idade Média, quando então se podia criticar a Igreja de fora dela, e não somente a partir de uma Ordem interna. Desse modo, há críticas hoje ao progresso moral que não precisam vir do interior da esquerda. Podem vir de fora e ainda assim terem respaldo no meio intelectual. Isso é louvável, saudável, mas não necessariamente é algo que pode ser elogiado sem reservas.

Há aqueles que comemoram o fato de poderem ser chamados de intelectuais (até chamados de filósofos) e ao mesmo tempo se autodeclararem como sendo “de direita”. Seria ótimo se fossem um pouco mais sérios e dedicados. Mas não são. Aproveitam para tentar seduzir a juventude meio inculta (às vezes os seus mentores também não são lá cultos!) com uma retórica aparentemente rebelde. Trata-se do conservadorismo rebelde, que diz que estudou alguma coisa mas, quando colocado na parede, mostra que não chegou mesmo a fazer a lição de casa. São pessoas que advogam coisas que o integralismo de Plínio Salgado advogava, mas de uma maneira que parece ser algo extremamente novo, jovem, “descolado”! Não raro, o que não fazem não diferem em nada da fascistaria tupiniquim rasteira.

O que dizem esses conservadores? O que dizem esses que agora estão contentes por poderem dizer “sou de direita” e, ainda assim, ser ouvido? No início, quando essa modinha começou, falaram de tudo. Sabe como é melado na mão daquele que nunca experimentou o doce? Pois é, se lambuzaram. Surgiram até aqueles que abusaram da própria cabeça meio oca e disseram que estavam “contra um mundo melhor”, acreditando poder colocar até Cioran a serviço da política de direita! Agora, depois de tomarem umas estocadas, esses neoconservadores parecem querer ficar um pouco mais comedidos. Então, estão dizendo que são conservadores porque querem “conservar o que é bom”.

Isso é verdade? Bem, não querem conservar a escravidão. Que bom! Mas querem conservar o capitalismo. Ou melhor, não querem conservar o capitalismo, querem vê-lo dar um passo para trás, pois esses neoconservadores do momento não admitem nem mesmo o Estado de Bem Estar Social. Não é difícil vê-los, na prática, advogando algo como um estado de mal estar social. Pois esse pessoal não entende que a utopia neoliberal de Nozick era de fato uma utopia. Eles querem realizar a utopia! (Aliás, não leram Nozick!) Querem um capitalismo regrado por um liberalismo puro que jamais existiu, nem mesmo no seu nascimento quando do Locke. Querem aquele capitalismo que talvez nem possa existir porque faz com que os capitalistas quebrem e os trabalhadores morram.

Desse modo, soa ridícula a frase desse pessoal, os da direita atual. Não digo os políticos, mas os colunistas – sejam os pagos por partidos ou não. A frase que diz que são conservadores porque querem “conservar o que é bom” não pode ser adjetivada como verdadeira. Não vejo ninguém desse time tentando conservar o que é bom. Bastou algo acenar com alguma generosidade para com minorias e mais pobres, e vira algo ruim para eles, deixa de ser bom, e então não pode ser instituído ou conservado. Então, é difícil entender o que esse pessoal concebe como o bom. Uma doutrina com generosidade zero, com mesquinhez, pode falar em “bom”? Uma doutrina que vibra com a pena de morte, com desprezo por Direitos Humanos, com ressentimento para com gays, negros e mulheres, com ódio a um sistema de previdência social, e até mesmo dedica a atacar um papa que quer ver o cristianismo voltado para os mais pobres, é isso algo “bom”?

A direita que está aí posando de jovem, de rebelde, e que até agora conseguiu enganar alguns sobre sua incultura, tem um problema para resolver: vai precisar mudar todos os dicionários. Pois o que ela fala que é “bom”, não é bom em nenhuma língua em nenhum dicionário.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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12 Responses “Os conservadores que não sabem o que é bom”

  1. Orquidéia
    25/02/2017 at 08:38

    Prof.Ghiraldelli, em primeiro lugar,não dê risada de mim, sou uma simplória.
    Dito isso,farei a pergunta,
    é possível ser “conservador de Esquerda” e “progressista de Direita”?
    Ou uma atitude já está “no útero” da escolha política?
    Tipo, o simpatizante da Direita é naturalmente conservador,o simpatizante da Esquerda tornou-se assim por ser progressista.

    Abração, ‘brigada.

    • 25/02/2017 at 09:03

      Orquídea, o conservador de esquerda é o que mais tem. Agora, um progressista de Direita é sempre um desastre. Muitas pessoas de direita amam a ciência, por exemplo, quando esta está falando para o “progresso industrial” que devemos sacrificar animais.

    • Orquidéia
      26/02/2017 at 08:21

      Então sou “esquerdista conservadora”.
      Aprendi a usar esses títulos.
      Obrigada outra vez, prof.Ghi!

  2. Thiago Zucarini
    17/07/2015 at 14:53

    Paulo, não tem a ver com o texto, mas como estudar e entender Marx da forma correta?

    • ghiraldelli
      17/07/2015 at 17:09

      Tendo uma noção introdutória de filosofia e, então, lendo o próprio Marx, por exemplo, lendo o Capital. Não é difícil. O problema do Marx é que ninguém lê mais e um monte de energúmenos que só falam em política dão “pareceres” doutos sobre a obra.

  3. Hayek
    15/07/2015 at 14:00

    Não estamos mais dominados por marxistas, mas por esquerdistas nietianos, que querem que o mundo seja igual a eles!

    • ghiraldelli
      15/07/2015 at 16:32

      Hayek no seu caso você pode fazer o que quiser. Eu estava me referindo a adultos escolarizados.

    • Hayek
      16/07/2015 at 13:19

      tá serto fessor! Vc é um veinho gato!

    • ghiraldelli
      16/07/2015 at 17:55

      Piada não te salva da burrice. Não adianta. A estupidez tomou conta de você ainda no útero de sua mãe.

    • 19/07/2015 at 22:07

      Pois é, Hayek, e você tem a dizer isso aí. Não tem vergonha?

  4. Osmar Gonçalves Pereira
    14/07/2015 at 00:19

    Meu caro Professor, teu texto tem para mim aquele efeito do “aconchego do cachorro”: agora esta tudo bem. Sou grato.

  5. Clayton
    13/07/2015 at 19:53

    Pois é, apesar do pensamento marxista já não ser hegemônico como há algumas décadas atrás, e vc tem frisado isso no blog com frequência, tem uma galera que afirma – talvez sem conhecer de fato a realidade educacional brasileira – que o cara que estuda qualquer filósofo considerado de esquerda foi “capturado” pela ideologia comunista. Veja um pequeno exemplo: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/07/1653438-nota-maxima-para-o-cliche-ideologico.shtml

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo