Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/10/2017

O Sakamoto contra os Bandeirantes


Vários monumentos da cidade de São Paulo foram pichados. Entre eles, o Monumento à Bandeira.

Falando sobre esse assunto, este é o trecho polêmico do jovem Sakamoto: “Mas, ao mesmo tempo, nunca entendi como um povo que se diz tão consciente de si mesmo não se juntou para repensar as homenagens dadas aos açougueiros bandeirantes em locais de grande visibilidade. E, diante da percepção do que eles realmente significaram, talvez decidir por removê-las.” (Blog do Sakamoto). Vamos censurar – diz Sakamoto! Ou quase.

A frase aí vale para fazer efeito, é peça retórica, não vale de fato como algo que possamos seguir. Todavia, infelizmente, quando damos uma ideia ruim, pode passar um anjo torto e ouvir e, então, inventar de torná-la realidade. Tomara que nenhum governante amigo do Sakamoto se eleja (bem, pelo que estou vendo sobre o PT nessas eleições, podemos ficar tranquilos). Pois vai que além de mudar nomes de ruas e viadutos, apagando a memória histórica ao invés de ampliá-la, um Haddad da vida não queira sair por aí destruindo todos nossos monumentos “opressores”, não é?

A prática de derrubar monumentos é uma prática do ISIS, de Stalin, Hitler e, infelizmente, também de alguns democratas. São pessoas que não suportam o peso da história. São pessoas que não suportam ver que os mortos vencedores venceram, ao menos em algum momento, e que podem retornar. É gente que acredita de forma torpe numa frase clássica, que “a história do homem é a história da luta de classes”, e então, querendo participar da história de modo pouco legítimo, a posteriori, resolve achar que fazer história é apagá-la, é destruir monumentos “sanguinários” e, assim, derrotar aqueles que o derrotaram. Nenhum garoto de ginásio deve agradecer a essa gente. Uma rua com o nome do delegado Fleury deve existir, e o professor precisa dizer: esse homem foi um torturador, e por conta do governo da época estar mancomunado com isso, ele ganhou o nome de rua. Manter o nome não exclui o ato de criar novas ruas com o nome de torturados.

O Monumento às Bandeiras é intocável. Quem picha, comete crime contra a arte e contra o patrimônio público. É vandalismo e só isso e nada mais. Mas Sakamoto, diante de cenas de Debret retratando a escravidão, mandaria queimar tudo. Aliás, parece que há uma exposição de inéditos de Debret acontecendo no Rio, e são cenas fortes as retratadas. Peço que as autoridades cariocas reforcem a segurança do lugar, muitos desescolarizados e autodidatas, liderados por Sakamoto, podem entrar lá não só para pichar, mas para quebrar tudo. Afinal, mais sangue escravo do que há nessas pinturas, impossível. “Abaixo a arte perversa”, “Viva Sakamoto e a construção do Homem Novo”, gritariam os meninos fantasiados de visigodos. Bloco de Carnaval do Sakamoto.

São Paulo é a Terra dos Bandeirantes. Há o monumento lá, de Vitor Brecheret, para dizer isso. Um espetáculo em pedra. Um retrato não dos Bandeirantes, mas da Bandeira. Mas são Paulo também é o Pátio do Colégio, de Anchieta e Nóbrega, os jesuítas que, em vários momentos, protegeram os índios da atrocidade do colonizador. Claro que aí também há controvérsias. Há quem diga que Anchieta não foi ainda canonizado por conta de ter nas costas a morte de um índio, espancado por não aprender a ler. Mas, então, vamos pichar o Pátio de Colégio e, depois, chamar Sakamoto para incendiá-lo, a la ISIS? Não, não vamos, vamos proteger aquilo dos olhos de gente como Sakamoto, como fazemos contra gente do ISIS e da KKK, ou de dos que recentemente, na Ucrânia, arrastaram a estátua de Lênin. Gente assim, é um perigo. Gente assim um dia queima livro e pessoas.

O monumento O Beijo ou O Idílio, que retrata o amor de um homem por uma jovem índia, aquele que fica lá no Largo de São Francisco, já esteve no Cambuci, sabiam? Teve de sair porque um pai achou que aquilo lá não era só um beijo, mas um ato de pedofilia. Aquilo poderia incentivar algum marmanjo a vir pegar a sua filha lá dentro do colégio? Para ele, a peça de 1920, do escultor sueco William Zadig, feita para compor uma obra maior em homenagem a Olavo Bilac (não perca essa história aqui), não passava de algo maligno a ser extirpado! O monumento andou para lá e cá, até chegar onde chegou. É no mundo do pai da garota do Cambuci, o mundo de Sakamoto, que queremos viver? Essa é a São Paulo ideal? Não! Decididamente não.

A escolarização boa, aquela que foi a da minha época de escola pública, nos ensinava antes de tudo preservar os monumentos, fossem quais fossem, até os que não tinham história. Éramos ensinados sobre o valor do patrimônio público artístico, que podia sim contar a história. Monumentos são homenagens, mas antes de tudo sempre nos dizem: “quem foi homenageado mesmo, e quem homenageou?”. A escola serve para isso, para desenvolver os problemas envolvidos nessa pergunta. O professor de história, o de geografia, o de sociologia e o de filosofia, uma vez no Ensino Médio, devem percorrer a cidade com seus alunos e explicar os monumentos. Deve abrir a Internet e ver quais histórias são contadas. Que adianta a turminha do Sakamoto querer preservar matérias de Humanidades na escola se, ao mesmo tempo, é gente que não sabe como que um professor tem que trabalhar nesse nível de ensino.

Fora a questão do ensino, há também as identidades assumidas e rejeitadas. Bandeirantes têm sangue nas mãos? Sim, mas e o espírito bandeirante, que trazemos para nós como espírito desbravador, e não sanguinário? Não conta? Somos sempre só aquilo que Sakamoto olha? Ou somos gente? Somos gente. Somos seres da redescrição. Para redescrever, precisamos ter na frente do escrito.

O artigo de Sakamoto também é válido como uma questão, mas, se levado a sério, se autodestrói. A própria polêmica com Sakamoto é educativa. Mas, entre a polêmica e o cumprimento dos desejos meio bárbaro dele, há uma distância que não pode ser desconsiderada.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 02/10/2016

15 Responses “O Sakamoto contra os Bandeirantes”

  1. LMC
    18/10/2016 at 16:24

    O Sakamoto anda tão preocupado
    com um monumento homenageando
    os bandeirantes,mas não diz nada
    sobre aquele prédio feio do Masp.
    (o prédio,não o acervo que tem
    dentro).A esquerda brasileira
    e a direita americana estão muito
    parecidas atualmente…..kkkkkkk

  2. Renata
    13/10/2016 at 09:26

    Seus argumentos são falaciosos, você apela pra má fé, cita varios casos e monumento como se estes fossem expostos com o mesmo fundamento! Você diz q as ruas devem continuar com nomes de torturadores, para que a história seja viva e os professotes expliquem a HIstória da cidade, mas esquece que não é essa a realidade, a maioria entende que se alguém é homenageado a ponto de virar nome de rua é porque seus feitos merecem ser exaltados, no fundo você não encontra argumentos para admitir que a sua cabeça retrógrada e reacionaria tem medo de mudança…Historia viva está na cidade que muda, se movimenta, risca rabisca e grita que aquilo tem algo de errado. A pixacao do monumento dos bandeirantes trouxe o problema para o debate, é a cidade falando , gritando que não exaltaremos nenhum desses, ainda que os moralistazinhos que nem você, defenda a obediência de forma medieval! Isso não muda nada, isso não é civilidade é o contrário! Melhore seus argumentos para que possa receber a alcunha de filósofo, porque o minimo de dignidade que um filosofo possui consiste em não apelar para falácias.

    • 13/10/2016 at 12:31

      Renata pelo que vi você não sabe o significado de “falácia”. Mas tudo bem, pelos argumentos, já vi que arquitetura e história não é seu forte.

  3. 04/10/2016 at 06:20

    O Sakamoto fala com naturalidade dos antepassados dos paulistas.O bom macaco põe o rabo entre as pernas e fala do rabo dos outros.E os Kamikases?https://pt.wikipedia.org/wiki/Kamikaze

  4. Celso
    03/10/2016 at 17:31

    Deveríamos então condenar a retirada de suásticas e águias de edifícios após a ocupação da Alemanha pelas forças aliadas em 45-46? Talvez… Não sei dizer. Por um lado entendo a importância histórica e educativa de se preservar monumentos (pelos motivos dados no texto), mas por outro acho que o Monumento às Bandeiras é uma imagem bem ofensiva para índios e seus descendentes. Pelo menos o texto me fez refletir sobre essa questão. Antes de lê-lo carregava uma visão bem parecida com a de Sakamoto.

    PS- Os nazistas sempre cuidaram de preservar os monumentos históricos dos países invadidos. Os estadunidenses, por outro lado, bombardearam zigurates em sua guerra ao terror. Um desperdício irreparável de patrimônio material da humanidade… Nem sempre os mais bárbaros são os mais brutos.

    • 03/10/2016 at 18:05

      Celso uma mula como Sakamoto vai até à Alemanha e destrói o lugar dos campos de concentração. Ele não entende a história.

  5. Gustavo
    03/10/2016 at 08:41

    A meu ver, basta ampliar o escopo dos argumentos do Sakamoto para ver como são incoerentes. Segundo a lógica dele, teríamos também que destruir o Coliseu (construído para impressionar os rivais políticos e para entreter “as massas”, sem contar em jogar a “classe não dominante” aos leões); o mesmo seria feito com as pirâmides do Egito (sarcófagos suntuosos da “classe dominante” erigidos com sangue de escravos); e destino semelhante teriam o Taj Mahal, a Acrópole de Atenas; a muralha da China, entre diversos outros exemplos mundo afora. Exatamente como os Taliban fizeram com os Budas de Bamiyan e o ISIS vem fazendo onde quer que encontre um monumento que eles não são capazes de compreender. Para ficar num exemplo regional, o pensamento paradoxal do Sakamoto poderia propor tocar fogo no Museu da Língua Portuguesa (aliás, o que infelizmente aconteceu), essa língua do europeu opressor e dominador que dizimou os nativos sul-americanos (e da qual ele se serve para pensar (?), ler e escrever).

    Inté.

  6. Rafael Costa Sanches
    02/10/2016 at 11:15

    Teve gente que descobriu quarta feira passada que os Bandeirantes mataram índios.

    Esse tipo de gente, que pichou esses monumentos, assusta.

  7. 02/10/2016 at 10:55

    Boa crítica. Deixo aqui uma citação e um convite para a leitura:

    (…)“Toda sociedade, comunidade, tribo ou nação têm uma origem, um marco zero da autoimagem. A isto se dá o nome de mito fundador, cujas características estão intrinsecamente ligadas à memória histórica de um povo.

    Roma, por exemplo, tinha seu mito fundador encarnado por Remo e Rômulo; os EUA o têm na figura dos Peregrinos e dos Desbravadores (Self-made-man); o estado de São Paulo tem o seu nos Bandeirantes.

    Os mitos fundadores não são obra do acaso histórico, mas sim uma escolha da memória coletiva para ser a pedra fundamental da sociedade que se constrói.

    Os mitos fundadores não são obrigatoriamente perfeitos, não se referem a condutas irretocáveis e nem mesmo são sempre moralmente louváveis. Contudo, os mitos fundadores estão diretamente ligados à identidade do povo que neles se reconhece e marcam as suas virtudes, os vícios, a ética, a estética, a vida.

    Ao escolher um mito fundador a sociedade escolhe reforçar um determinado conjunto de traços, escolhe lembrar esses traços e esquecer outros.

    A íntegra está aqui: http://wp.me/p4alqY-B4

    • 02/10/2016 at 11:04

      Paulo Falcão eu fico triste com coisas como a do Sakamoto, parece o Pondé tentando solapar a Cátedra Foucault na PUC. É a mesma coisa.

  8. Egisto
    02/10/2016 at 10:07

    O que me preocupa também é a legião de professores, tanto na educação básica como na universidade, defendendo essa tese de Sakamoto. PS: Paulo, José de Anchieta foi canonizado em 3 de abril de 2014, na cidade Anchieta, região sul litorânea do Espírito Santo. No município está localizado o Santuário Nacional São José de Anchieta.

    • 02/10/2016 at 10:13

      Sim, mas não virou santo ainda, virou? Os padres onde eu trabalho disseram que não.

  9. Paulo Rico
    02/10/2016 at 09:44

    Lembrei de “Burrice Precoce”da banda Lígua de Trapo:
    “E por falar em posicionamento
    Tenho constatado que a
    Esquerda festiva, assim como a
    Anarquia compungida, possuem
    Características comuns com a
    Direita compenetrada, o que
    Leva a crer que dois adjetivos
    Quando acasalados, não
    Possuem a mesma sobriedade
    De uma só qualificação. Mora!”

    Seria isso ? Abraço.

    • LMC
      18/10/2016 at 16:40

      E se pichassem algum monumento
      em Brasília,feita pelo comuna
      Niemeyer,qual seria a reação
      deste blogueiro que o PG citou?
      É pra pensar….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *