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23/10/2017

O que perigosamente entra pelos poros


Meu tio-avô Nilson, professor de matemática, fez parte da Aliança Nacional Libertadora, antes dos anos quarenta. Sim, ele foi comunista. Gastou uma boa energia combatendo o fascismo tupiniquim, o Integralismo, os chamados “galinhas verdes” de Plínio Salgado.

Um dia, em uma praça em São Paulo, ele recebeu uma arma de uma senhorita, deu os tiros que tinha que dar e jogou arma em um canteiro. Eis aí sua participação na Intentona Comunista de 1935. A Intentona não vingou e Vargas encarcerou os comunistas. Mas meu tio Nilson se safou da prisão.

Quando Vargas deu o golpe de 1937 (o nascimento do Estado Novo) e colocou no xadrez  o resto dos comunistas que ainda circulavam, então meu Nilson realmente se viu em situação ruim. Fugiu e se escondeu de modo mais radical que até então. Passou maus bocados por conta disso, pegou tuberculose. Desembocou na casa do meu avô materno, já um promissor advogado no interior de São Paulo. Ali ficou escondido. Terminado o Estado Novo em 1945 e tendo escapado da tuberculose, ele passou a exercer a profissão de professor de matemática ali mesmo na cidade do meu avô. Ali teve granja e, quando de casou, mudou-se para São Vicente. Nunca mais se envolveu com política.

A revolução de 1964 me pegou criança. Mas eu não era uma criança tola. Eu escutava os mais velhos conversando sobre o assunto. Sendo filho único e vivendo entre adultos, era normal que eu soubesse mais que as outras crianças, por isso mesmo tenho a memória aguçada sobre aqueles tempos. Minha vida escolar se deu toda ela durante a Ditadura Militar e, quando cheguei ao colégio, eu já pertencia à juventude do MDB e frequentava as reuniões dos chamados “organizados”, os membros de partidos de esquerda clandestinos que, em geral, davam o tom para os diretórios do único partido de oposição legal possível. Nessa época, meu avô materno chamou meu tio-avô, Nilson, para que ele viesse a ter uma conversa comigo.

Nilson foi bem sábio. Não me confrontou e nem me disse coisas do tipo “sai dessa”. Mas acertou em cheio ao me dizer: “a esquerda e a direita são iguais, a não ser pelo fato de que a direita põe na frente a religião”. Claro que ele estava se referindo à esquerda e à direita totalitárias, ou seja, aos comunistas pró-Moscou e ao resto do Integralismo e suas dissidências, como a TFP. Ele não estava sabendo de como era a política estudantil, de como as inúmeras facções de esquerda se combatiam, como que trotskistas, estalinistas, maoístas etc., se comiam pelas pernas etc. Ele falou do que havia vivido trinta anos antes. Por isso, não lhe dei ouvidos. Do alto dos meus 16 anos eu não podia mesmo dar atenção para ninguém. Eu sabia tudo.

Foi necessário muito mais tempo e alguns calos provocados pela repressão e, enfim, também pelas decepções do tempo de agora, já na democracia, para que eu realmente percebesse que a esquerda e a direita, no sentido que meu tio Nilson quis dizer, podiam trocar de camisas que ninguém iria notar tanto a diferença. Mas, é claro, como filósofo eu ainda acho que sei um pouquinho a mais que meu tio avô, falecido recentemente, com quase cem anos (como é de praxe na minha família, de vários lados).

Uma coisa que sei mais que meu tio-avô Nilson é que a direita é diferente da esquerda em ao menos um ponto significativo. O comunista é comunista politicamente. O fascista é fascista sem precisar de se envolver com política. O fascismo é uma forma de interpelação da vida pela moral, pelos costumes, pelo comportamento, e circula no âmbito dos corpos por meio de uma infiltração que caminha pelos poros. O fascismo gira em torno de quatro elementos comportamentais: 1) ressentimento pessoal contra a sociedade que se mostra acima do que se pode entender e participar; 2) xenofobismo e racismo; 3) moralismo barato e hipocrisia exacerbados;  4) franca oposição a tudo que envolva os Direitos Humanos (definidos no Pós II Guerra).

Essas atitudes podem muito bem ganhar pessoas que estão do lado da política de esquerda. Pode-se fazer política de esquerda, ou seja, dizer da importância da defesa dos pobres, e ao mesmo tempo estar em acordo com vários dos itens acima. O fascismo é algo que pega a personalidade. Nossa esquerda sempre teve imensa dificuldade de se safar dos traços fascistas que puderam estar presentes aqui e ali em seus membros. Hannah Arendt foi a única pessoa que realmente entendeu isso, quando ela viu que o nazismo havia feito a Europa se deteriorar em termos de pensamento e moral para além da deterioração que  pegou cada um dos nazistas. Deveríamos hoje no Brasil, pensar nisso.

Nós filósofos deveríamos ser capazes de pensar nos que vivem dizendo por aí um dos lemas fundamentais do fascismo: nunca houve nenhum progresso moral. Quando liberais dizem isso, esqueça. Não são liberais. Essa gente que acha que nunca demos um passo, da II Guerra Mundial até agora, no sentido de ganho moral, está dizendo apenas uma coisa: todas as atitudes antifascistas tomadas até agora, principalmente o esforço em direção aos Direitos Humanos, não vale nada e nunca fez bem algum.  O fascista adora dizer que o mundo é ruim e não pode melhorar; no máximo se pode coloca-lo a fórceps. O mundo só será tolerável quando alguma entidade milagrosa (o chefe ou o partido ou coisa parecida) vier para dar ordens a todos.

Repare em quem pensa assim. Analise seus atos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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