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26/09/2017

O mundo dos conservadores


Você viveria em uma sociedade onde a regra básica fosse “todos são culpados antes que se prove o contrário”? Há pessoas que dizem um fácil “sim” para tal pergunta. Elas se acham tão inocentes e, então, por essa inocência, de tal modo acima de toda e qualquer regra social, que elas não entendem a frase que começa com “todos”.

A frase soa para elas como tendo o “todos” significado “todos os outros”. É assim que funciona a cabeça daqueles que, nos Estados Unidos, deram aval para Bush quando ele começou a querer colocar leis de exceção na democracia, de modo a pegar terroristas. É assim que pensa gente como o roqueiro Roger, que diz que nunca aconteceu nada com ele e com a família dele na Ditadura Militar porque eles “não faziam nada de errado”. É assim que pensa gente que não pensa, como o caso do Pondé, que esbraveja enraivecido toda vez que Obama anuncia alguma medida que não seja na corrente do ultra-individualismo.

Há uma estranha forma de funcionamento cerebral nessas pessoas que, mesmo ouvindo falar “todos”, imediatamente entendem “todos os outros”. A regra da justiça em uma sociedade democrática liberal, dentro dos cânones da vigência dos Direitos Humanos pós 1945, é que “todos são inocentes até que se prove o contrário”. Quando por algum motivo, para algum grupo social, isso deixa de funcionar, então a regra posta é exatamente a que desprotege a sociedade em geral e cada um de seus membros. Trata-se então de viver sob “todos são culpados até que se prove o contrário”. E nesse tipo de sociedade, só os que possuem um pacto com Deus ou com o Demônio, para viverem em sociedade e ao mesmo tempo ficarem invisíveis e intocáveis, de modo a não serem culpados de antemão.

Claro que há os que não têm nenhuma carta na manga e aceitam viver em uma sociedade de culpa antecipada porque são ingênuos a ponto de acreditar que não possuem pacto com Deus ou o Diabo, mas que a polícia e todo o aparato repressivo do estado tem pacto com Deus. Ou seja, são clarividentes e ao mesmo tempo honestos. Tudo sabem corretamente e, ao mesmo tempo, nunca querem prejudicar ninguém. Mas, se isso fosse possível, nem seria necessário qualquer tipo de legislação.

A sociedade dos ultraliberais é uma proposta de sociedade na qual eles mesmos jamais viveriam. Mas a ingenuidade dessas pessoas, talvez mesmo a incultura, as faz acreditar que tal sociedade é a América. Os americanos, dizem tais pessoas aqui no Brasil, se resolvem individual e particularmente com tudo, e não precisam gerar nada coletivo ou geral. Pode-se retirar toda e qualquer lei que proteja indivíduos perante o estado, ou grupos étnicos similares perante o estado e perante outros grupos, e uma tal sociedade ainda assim continuaria vigente como sociedade, e até melhor. Essa ideia dos ultraliberais ou conservadores serve apenas como utopia. É uma utopia reguladora, quase que como toda e qualquer utopia. Ninguém vive na utopia. Por definição, utopia continua sendo lugar-nenhum. Mas a cabecinha pequena dos conservadores parece não entender isso. Essas pessoas teimam em achar que se tiramos os direitos sociais para os mais pobres e para minorias postos por plataformas políticas vindas do liberalismo avançado ou da social democracia, ainda assim estaríamos bem. Viver é viver individualmente, e em nome de poder escolher, decreta-se que também os que não querem escolher, devam querer escolher. Devemos abrir mão de direitos ou porque não se pode estender os direitos para além do que já se fez ou porque ao instituir direitos aparecerá sempre um grupo que irá tê-los sem merecimento. Que todos os direitos desapareçam, inclusive o da vigência da justiça.

Feito isso, estamos então diante da sociedade sem justiça, aquela em que “todos são culpados enquanto não se prove o contrário”. É desse modo que os ultraliberais ou conservadores se colocam e eles querem nos convencer que suas famílias viveriam num lugar assim – viveriam bem. Não nos convencem.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador. A filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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One Response “O mundo dos conservadores”

  1. Osmar Gonçalves Pereira
    06/08/2015 at 23:13

    Mais uma vez: obrigado, Professor.

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