Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/09/2019

O Manifesto Comunista de 1848


“A história de toda sociedade existente até hoje tem sido a história da luta de classes”. Essa frase está no início do Manifesto Comunista de 1848, escrito por Marx e Engels, quando Marx tinha trinta anos. A frase fornece todo o conteúdo do texto, que então apresenta, de forma sintética e relativamente didática, tudo que pode fazer o leitor entender o confronto social dos tempos modernos a partir da ótica de parte da filosofia materialista do século XIX.  

Em termos sociológicos, a frase não é original. A análise social levando em consideração classes e confrontos não foi criação de Marx e Engels. Mas, em termos filosóficos, a frase tem uma originalidade determinada: nunca uma concepção da história, uma autêntica filosofia da história, havia tomado como um dos elementos do seu motor a luta entre as classes. Não se trata de alguma redução da história, como alguns, erradamente, ainda enxergam ao ler de modo apressado. Não! Marx e Engels falaram antes como filósofos que como historiadores. Estavam conversando como filósofos sociais. Estavam tentando iniciar a nova filosofia social, mas fortemente expressa como filosofia da história.

Desse modo, era natural buscarem um fio condutor e um elemento de princípio para a história, quase como um pré-socrático faria, se transpusesse seu procedimento de cosmólogo para o de filósofo da história. A “luta de classes” não era ali um imperativo moral do tipo “comunistas do mundo todo, incentivai a luta de classes”, muito menos uma constatação historiográfica do tipo “nada há na história que não a luta de classes”. Era, sim, um tipo de arkhé pré-socrático: um elemento de governo das coisas e acontecimentos, um elemento de princípio realmente existente e ao mesmo tempo suficientemente racional e, por isso mesmo, inteligível pela razão humana – em especial a razão filosófica. Não à toa Marx havia feito filosofia e se tornado um apreciador de Heráclito, para quem o cosmos tinha como ordem, a justiça e, portanto, uma compensação nas perdas de ganhos de lutas contínuas, todas elas dadas pelo modo como o fogo se comporta. O fogo consome e é consumido, e o que consome transforma tudo. Rouba da madeira algo, mas devolve ao mundo a cinza.

Todavia, Marx não era um cosmólogo. Engels quis ser um. Diferentemente, Marx foi um hegeliano de carteirinha. Ele não enxergava arkhé, ele preferia ver racionalidade. Digo racionalidade e não Razão. Hegel via a razão incrustada no mundo e na história, como que um logos, uma lógica, inerente à história. Sua frase central era realmente para ser seguida: “o real é racional e o racional é real”. Ou seja, o que é efetivamente real não é um caos, mas tem uma racionalidade intrínseca, e o que é racional não é um produto da imaginação humana ou de alguma faculdade humana inventiva, mas é efetivamente algo com existência concreta. Hegel nunca saiu do postulado grego: um mundo segue o logos e o homem possui parte do logos e, por isso, pode descrever o mundo. Não descrever no sentido de olhar e contar o que vê, mas no sentido de Heráclito, que abria a sua boca de filósofo entendendo que, assim, o próprio logos falaria por ele.

Hegel se via como um filósofo que podia contar os feitos da Razão, justamente por ser filósofo e, então, ter em si uma razão apurada. Enquanto isso, os feitos da Razão seriam postos pelo desdobrar do próprio Espírito, ou seja, a história do mundo, toda feita por esse mesmo Espírito, às vezes a cavalo, como no caso de Napoleão. Hegel o viu e exclamou: eis aí o Espírito a cavalo. Ou seja, eis aí todo o logos da cultura, aburguesando o mundo, modernizando o mundo, enfim, racionalizando o mundo, tornando o mundo o que ele é, o que ele dever ser. Marx tirou do cavalo branco Napoleão e preferiu colocar as classes sociais na sela. Estas, por sua vez, nem precisariam mais de cavalo, elas viriam não cavalgando, mas em conflitos de todo tipo segundo todo tipo de veículo, inclusive com os aspectos também vistos durante a campanha napoleônica: a guerra das ideias, os embates de propostas econômicas e políticas, o sangue, a injustiça, os estupros e o mal abrindo caminho para o bem.

Heráclito, Hegel e Marx foram otimistas, eles nunca admitiram que a razão não fosse o que é para boa parte dos filósofos: o Logos enquanto Cosmo, ou seja, ao final a instauração da harmonia, não o Caos. Tanto quanto Hegel, Marx confiou na “astúcia da razão” ou, no seu caso, na astúcia do resultado da luta de classes. Os mortos e sofridos teriam ao final contribuído para a liberdade. A razão teria agido astuciosamente derramando sangue, mas não à toa. Foi exatamente aí que Hegel se viu questionado pelos tempos e, enfim, por outros filósofos. Foi exatamente aí que Marx também se viu questionado.

Depois que Napoleão exportou a Revolução Francesa e tornou o mundo o que ele é, o mundo moderno pronto para expandir mais e mais a economia de mercado, muitos burgueses, mesmo sendo os vencedores políticos, acharam que o preço pago havia sido alto demais, e por todo mundo. Olhando o rastro de sangue atrás do cavalo branco, todos tremiam. Marx passou pelo mesmo. Olhando o rastro se sangue dos novos cavalos brancos, os partidos comunistas, mais tarde, todos tremeram. Há quem diga que Marx tremeu no túmulo durante todo o século XX, até começar a descansar em 1989, quando veio ao chão a primeira pedra do Muro de Berlim.

Todavia, uma filosofia da história, aos olhos de leitores atuais, tem como ponto principal não o resultado final da história. O importante é ver o princípio, o arkhé, e perceber se ela permite mesmo que a história (como produto da historiografia) seja entendida pela história (enquanto posta pela teoria da história evocada). Dizer que nisso Hegel ou Marx erraram seria enorme tolice. Eles não erraram nem acertaram. Eles disseram o que entenderam que podiam dizer e disseram de maneira filosófica, ou seja, como alguma coisa que não tem de ser “provada”.

Hegel não poderia ter descrito melhor o que queria falar em termos de filosofia da história quando tomou todo o desdobrar do Espírito como a figura de Napoleão a cavalo. Marx não poderia ter descrito melhor o que queria falar em termos da filosofia da história quando tomou todo o desdobrar da história na figura da luta de classes. Quando entendemos isso, quando nos mantemos nesse campo, o Manifesto Comunista reaparece como ele é, um clássico, uma bela literatura de uma das melhores tradições do pensamento social europeu. Diz muito do século XIX. Diz muito também do século XX. Talvez ainda diga muita coisa para nós, hoje. Mas, ao mesmo tempo, diz mesmo de antes do século XIX. A luta de classes tem sua melhor representação no esquema de quem olha a história a partir das chamadas revoluções burguesas: a Revolução Gloriosa, da Inglaterra, a Independência dos Estados Unidos, a própria Revolução Francesa e, também, a chamada Revolução Industrial.

Cabe perguntar se Marx conseguiu escapar de seu tempo e ter a consciência de que sua filosofia da história era apenas uma filosofia, uma teoria, um modelo, e não uma realidade capaz de fazer o que Hegel acreditou poder dizer: a história acabou. Nunca saberemos. Os scholars sempre se dividiram a respeito disso. Muitos disseram que Marx foi um cientista bastante capaz de não se deixar levar pela ideia de que ele havia descoberto a “chave da história”. Outros disseram que ele nunca teve o distanciamento perspectivista que, mais tarde, um Nietzsche conseguiu ter com certa facilidade. O que podemos dizer disso?

Talvez possamos dizer que Marx nunca deixou de ser filho de seu tempo, o século XIX, uma época que a ciência de caráter ingenuamente realista ganhou uma filosofia própria, o positivismo. Mas, em vários momentos, ao menos segundo a maneira que eu o leio, Marx saltou fora desse realismo. Na abertura de O Capital ele deixou claro que tinha consciência de que a verdade que ele via era uma verdade que, coerente com sua própria teoria, também estava imersa na luta de classes e, por isso, era uma verdade classista. Por isso avisou, na abertura de O Capital, que o que iria ali contar, do modo que o faria, não era róseo. Sabia, portanto, que alguém poderia contar de outra maneira, rósea. Todavia, é claro, ele acreditava que sua visão era superior a de outros (mais verdadeira?), exatamente porque ele estaria vinculado a uma ótica que não teria mais nada a esconder, a “ótica do proletariado”, a classe que seria universal e, portanto, aquela cuja visão seria a visão de todo e qualquer homem, a verdade que logo estaria imperando.

Essa perspectiva acabou impondo ao marxismo, depois, um caráter vanguardista de partido e de figuras proeminentes, não raro medíocres, o que fez muito estrago no comunismo. Todavia, quanto ao Manifesto, ele se mostrou já mordido, antecipadamente, por esse vírus?

Marx soube distinguir bem entre as revoluções burguesas e as futuras revoluções, que ele dizia, então, que seriam “proletárias”. As revoluções burguesas foram feitas mais ou menos de modo espontâneo. A revolução comunista não seria espontânea. Duas coisas a comandariam: de um lado, a famosa toupeira, de outro os revolucionários. A toupeira seria a metáfora para transformações econômicas e sociais que se dão “por debaixo da superfície”, são as coisas que vão transformando uma sociedade sem que possamos perceber, e que fazem a revolução caminhar sob um quieto. Os revolucionários seriam os adeptos do comunismo que, através de uma organização ou um “partido”, poderiam empurrar a força da toupeira quando esta viesse a colocar a cabeça de fora da terra. A toupeira guardaria algo da inexorabilidade da razão de Hegel, os revolucionários guardariam um pouco da liberdade afirmada na história, que Marx nunca deixou de reconhecer.

O Manifesto é datado. Sim! Mas, é um clássico. Ele é como qualquer outro texto filosófico clássico. Podemos lançar mão dele para nos entendermos. Afinal, toda a terminologia do Manifesto é uma terminologia que se tornou senso comum para nós. Nós todos usamos da semântica marxista sem mais nos dar conta. Nisso, Marx e o Manifesto foram decisivamente políticos vencedores, e não exclusivamente excelentes filósofos.

©2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

Texto para o programa Hora da Coruja de 25/02

Tags: , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *