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25/02/2018

O homem é o eterno aprendiz de feiticeiro


[Artigo indicado para o público em geral]

A história do homem é a história da invenção sem controle. O homem se tornou homem quando fez a primeira criação que logo se apoderou dele. Criou os deuses, e então os deuses se apoderaram dele e lhe deram ordens. Criou o casamento, e adquirindo esposa ganhou o que ele mesmo chamou, depois, de “patroa”. Por fim, criou a Internet e, agora, está desesperado tentando controlá-la; busca censurar o Facebook e coisas do tipo, pois também este adquiriu vida própria. Hitler, Trump e o Banco Eletrônico são invenções humanas.

Quanto mais o homem caminhou na direção de elaborar a noção moderna de sujeito – a entidade que se auto-desinibe e se põe consciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos – mais as criações do homem vieram a se colocar no lugar dele, ocupando as prerrogativas de uma tal noção. Tudo vira sujeito, menos o homem. Há Frankenstein por todo lado, há Mickey destampando caldeirões de mágica, há gente pondo em funcionamento tudo que depois passa a funcionar por si mesmo. A história do homem é a história da autonomia das coisas, não do homem. O sonho da autonomia como prerrogativa humana de fato se realiza, mas como pesadelo, uma vez que só se efetiva de fato no que rodeia o homem.

Por isso mesmo, o dito délfico “Conhece-te a ti mesmo” sempre pode ser modificado em intenções, por cada filósofo que o invocou após Heráclito e Sócrates, de modo a avisar: você tem que saber o que fez, o que faz, o que vem fazendo. E o que vem fazendo é isto: abrir caixas de Pandora. A esperança é a última coisa da caixa, mas, no fundo, atualmente, trata-se da esperança de controle. E talvez do ceticismo sobre sua possibilidade. Afinal, o filósofo Diógenes, o cínico, foi posto no mercado de escravos e foi comprado por alguém que queria um senhor. Alguém que ouviu do filósofo: “você precisa de um senhor”. Estamos todos como este homem que comprou Diógenes: pagando em busca de um escravo que nos preste o serviço de nos fazer obedecer, mas que nos dê a impressão que, assim, estamos no controle.

Não sabemos fazer aquilo que Cioran nos diria que é a sua sabedoria: ficarmos parados, quietos, sem intervenção, sem querer ser o centro da ação. Não podemos fazer isso. Temos de ser imaginativos, inventores, criadores e, enfim, os desesperados que correm para tentar dizer para suas invenções: “eu sou seu dono, eu quero que siga tal e tal caminho”. Mas as invenções são ou surdas ou adolescentes. As invenções, as criaturas, tudo que o homem gera, logo ocupa o lugar dele na condição de sujeito, e põe o mundo de cabeça para baixo. De má intenção o Céu está cheio, e de boa intenção o Inferno mais ainda.

Uma boa parte dos filósofos confessou que seu projeto era o de colocar sob  controle tudo que é do homem e, portanto, descontrolado. Nietzsche falou que a ciência não podia ser deixada livre. Kant falou que a tarefa da filosofia política era elaborar uma Constituição para uma “raça de demônios”. Sartre não louvou a liberdade, mas, sim, nos condenou a ela. E as utopias clássicas, então, não foram todas elas projetos de mundos felizes por conta do controle sobre a imaginação humana? E depois, elas mesmas, como invenções humanas, não requisitaram a destruição, uma vez que começaram a funcionar pelas próprias pernas e contra o homem? Quando desapareceu a URSS todos comemoramos: o projeto de controlar o mercado havia controlado mais o homem que qualquer outra coisa, o fazendo parecer menos sujeito que aquele que estava “alienado sob o capitalismo”!

Mas por que o homem é assim? Ora, por conta de um destino bíblico. Ele foi feito à semelhança de Deus, e Este é exatamente Aquele que colocou o mundo em movimento, criou o homem, e então se viu traído e desligado deste; ou seja, viu sua criatura se rebelar. É da ordem divina essa situação do homem, de ser o criador do que não pode, depois, colocar freios. Nesse sentido, Agostinho, ao mostrar que a punição do homem por desobedecer Deus foi ficar vítima da libido e, portanto, da ereção, talvez tenha sido o único a entender tudo: de fato, o próprio homem, quando inventou a si mesmo, por meio do pecado original, ou seja, o ato de comer da árvore do conhecimento, ganhou o descontrole inscrito em seu próprio corpo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60. São Paulo, 13/01/2018

Gravura acima: Almada Negreiros, Adão e Eva, 1936.

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3 Responses “O homem é o eterno aprendiz de feiticeiro”

  1. Eduardo Rocha
    18/01/2018 at 22:20

    “Em sua primeira manipulação, o criador, então, não é mais do que um ceramista que gosta de formar uma figura a partir de um material adequado. O homem personifica um representante da cultura de técnica mais antiga das habilidades de oleiros. É necessária uma corporação que espera um uso significativo posterior, um corpo de argila, composto por um espaço oco, que serve como jarro de vida. Uma metafísica vem como metacerâmica. Um material de preenchimento. Um espaço oco que vai despertar para o seu destino: Ele soprou em um sopro de vida, e os homens tornam-se seres animados (ganhando vida e espírito). Isso parece ser um tipo de criador ou mestre. E com isso, é possível introduzir seres humanos como máquinas primitivas, uma boa amostra de como produzir estátuas, bonecos humanos, golens, zumbis, Frankenstein, robots, androids, etc.” (Adolfo Vázques Rocca).

  2. Orquidéia
    15/01/2018 at 08:49

    Puxa!!

  3. Sergio Fonseca
    14/01/2018 at 12:11

    Não há nada mais antimoderno do que a descrença na capacidade humana de inventor. Na modernidade o progresso vinculou-se ao bem. Talvez essa conectividade que deveria ser desfeita. Mas, progresso para quê?
    Algumas tentativas foram feitas: Um Estado de direito, democracia e transparência, educação universal, liberdade de expressão. Será que nada disso nos dará um dia um controle eficaz e justo dessas criações e, a maior de todas elas, uma vida boa?
    O homem é um construtor de objetos, um deus capaz de doar vida aos seres inanimados que ele cria. O próprio homem é um objeto artístico em construção, uma obra dele mesmo!!!

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