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16/12/2017

O fascista é o deus covarde


Artigo indicado para o público em geral

O célebre comandante de forças bósnio-croatas que massacraram muçulmanos nos anos noventa, nos conflitos da ex-Iugoslávia, tomou veneno logo após a sua condenação. O criminoso de guerra Slobodan Praljak não destoou da regra do fascismo.

Por que quando os fascistas são pegos eles já estão preparados para o suicídio, enquanto que os amantes da liberdade (menos ou mais à esquerda, tanto faz) não possuem nada de adrede estabelecido nesse sentido? Por que o dente falso com veneno era uma praxe para nazistas e nunca foi cogitado para os aliados? Por que inúmeros comunistas convictos, presos por Stalin em campos de concentração, não buscaram o suicídio?

O suicídio fascista tem dois motivos básicos: o desejo de ser Deus, de estar acima dos homens, e também uma certeza de não tem armas retóricas para se defender, que sem armas letais nas mãos, não é nada e não suportará a humilhação da culpa e da pena. Nesse sentido, surge aí a figura do deus covarde. O fascista é o fracassado eleito a algum cargo de comando violento pelo partido, desde o início é um deus covarde.

Liberais e comunistas quando submetidos à prisão, ou se deixam abater pelo fuzilamento ou suportam dezenas de anos na prisão, como se fosse certo que podem escrever, pensar, chamar o mundo em seu favor em algum momento. Mandela fez isso. Mas os fascistas em geral fogem, se escondem e, quando pegos, se matam. Não há um livro a ser escrito – jamais cogitam isso. Não há um jornal a ser publicado. Não há uma mensagem a ser posta na imprensa contestando o tribunal. Não há uma carta de arrebanhamento de jovens para “continuar a missão”. É como se soubessem que foram monstros. É como se soubessem com clareza cristalina que quiseram ser monstros. É como se tivessem a certeza de que vieram ao mundo só para destruir, dotados de incapacidade de construir, e que portanto estiveram sempre a serviço da morte: ou a dos outros, pela pistola, ou a si mesmos, pela capsula de cianureto. Há uma confissão de estupidez no suicídio de Hitler e, agora, de Slobodan Praljak.

O fascista tem retórica só enquanto as armas de outros, seus comparsas, estão na cabeça dos homens livres. Cessado o poder da arma de fogo, posto no contexto da retórica e da arte de “dar e pedir razões”, ele se mata. Hitler fugiu do mundo dessa maneira, quase que perdendo as calças. E se lembrarmos de quanto de lixo há na escrita de Mein Kampf, e de como o livro é chato é burro, iremos até agradecer a Hitler por não ter ficado vivo e tentado falar algo ou escrever algo no Tribunal de Nuremberg. Vale o mesmo, agora, para Slobodan Praljak, uma completa besta.

A direita não é afeita às letras. Os intelectuais de direita, se é que existe de fato algo assim, se sentem sempre acuados. Não possuem interlocutores entre “sua gente”. A imbecilidade do que pregam atrai imbecis e, não raro, eles se ressentem disso e verbalizam uma tal coisa. Há os que buscam se enganar. Vejo intelectuais de direita atacando o “politicamente correto” com uma retórica tão pobre que talvez fosse melhor eles seguirem a regra do fascismo: uma vez encalacrados, há a capsula de cianureto.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 30/11/2017

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