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20/07/2017

O fascista bonzinho, o comunista docinho


Quando os Aliados entraram na Alemanha para o combate final, na Segunda Guerra Mundial, a população alemã viveu seu maior horror. Foi um período de estupros e assassinatos. Mesmo depois do final da Guerra, o que veio foi indizível. Eram dezenas de pessoas cometendo suicídio diariamente, principalmente mulheres, apavoradas diante dos inimigos que, então, já estavam administrando toda a Alemanha. A fome, a depressão e o medo emergiram de modo violento, como se a Guerra nem tivesse acabado.

Os americanos passaram a publicar as fotos da barbárie nazista contra o judeus e até mesmo contra alemães sem vínculo qualquer com os seguidores da Estrela. Punham essa fotos nos murais, então espalhados pelas vilas alemãs. Muitos alemães que olhavam os murais, reconhecendo parentes nas fotos, homens vestindo o uniforme da SS e fazendo valer o crime, negavam o ocorrido. Viam aquilo e diziam para vizinhos e para si mesmos que tudo era invenção, algo “feito em Hollywood”. Algo não muito diferente do que as pessoas simplórias disseram em 1969, afirmando que a chegada na Lua era uma enganação cinematográfica americana. Sempre há, no mundo todo, o tipo olavete, disposto a embarcar na ideia de que ele é o esperto máximo e que o mundo está sendo enganado. Só ele sabe, como um demiurgo, que o mundo está sendo enganado.

Essa sensação de incredulidade quanto ao que nós mesmos somos capazes de fazer, ou que nossos parentes e amigos mais próximos são capazes de tornar realidade quando a barbárie assume faceta legal e quando o ódio contra grupos minoritários se espalha, é um monstro auto-protetor dormente em todos os povos. Esse monstro está em nós, atua na justificação que não é justificação, mas apenas discurso fantasioso de quem não suporta a culpa. Se um mundo desmorona, muitos optam pelo suicídio, mas uma boa parte prefere dizer que houve um “desvio de rota dos ideais”, que “não havia o que fazer”, que “as coisas descambaram mas que, enfim, tiveram lá seu lado positivo”. Tudo isso é regado também pela negação pura e simples: não aconteceu, não foi assim, o inimigo está inventando. “Tudo que falam de nós, de nossas culpas, é propaganda”. Não foram poucos que ousaram dizer: “mas Hitler fez mesmo isso, ele era um jovem líder, eu o acompanhei, todos os acompanharam! “Ora, nem todos!

Bem, terminada a Guerra, foi mais fácil mostrar ao mundo que o fascismo não era uma boa opção porque, estando este derrotado pelas armas, perdeu o prestígio mesmo entre os mais simplórios, de onde ele sempre retirou seus quadros. Mas, nunca devemos esquecer, contra o regime da hierarquia pela raça não estiveram apenas os regimes defensores da hierarquia pelo dinheiro e pela competência intelectual, ou seja, as democracias liberais. O país da doutrina coletivista, que dizia ser não hierárquica, teve seu papel fundamental na derrota de Hitler. O comunismo de Stalin saiu renovado da Guerra. A ideia da Revolução Bolchevique como uma revolução desencaminhada perdeu força. O clima mudou. Em muitas democracias os partidos comunistas, então atrelados a Moscou, passaram a ter votos e começaram a se comportar como senhores das diretrizes intelectuais.

É sempre bom lembrar que os intelectuais fascistas, a direita toda, em nenhum momento conseguiu prestígio intelectual. Ou seja, a direita nunca teve um Sartre. Nem mesmo antes da Guerra. A esquerda, por sua vez, foi sucessivamente colocando os pecados do estalinismo debaixo do tapete e conseguiu, então, manter viva a ideia de esperança de um mundo melhor no comunismo. Esse sonho maluco, cego, durou após sucessivas “crises do marxismo” e sucessivas ordenações descabidas dos senhores da KGB. E se a mãe Moscou voltava a falhar, então, os ideais eram transferidos para Fidel em Cuba ou Mao em Pequim. Podia-se por o farol até na Albânia! O comunismo era um dinossauro, mas mostrado como capaz de enfrentar qualquer meteoro, qualquer catástrofe. O mundo capitalista desapareceria, o comunismo, jamais. Ele era o futuro, ainda que vários intelectuais já dissessem que o futuro não era Moscou. A filosofia da história endossada pelo marxismo, dita dialética, espiralada, tornou-se mais parecida com a filosofia da história hitleriana, a da ascensão e queda de impérios. Liberais que ousavam dizer que não acreditavam em filosofias da história, então, eram tomados como não-intelectuais. Intelectual era alguém de esquerda, em especial não reformista, ou seja, alguém autenticamente comunista, revolucionário – assim se dizia e assim se cobrava. A filosofia da história que apontava a palavra “comunismo” como alguma coisa que não se sabia o que era, mas que deveria vir após o capitalismo, era a bandeira correta. No fundo, sabia-se o que era o comunismo, era sim a expropriação dos meios de produção  e o fim da “sociedade de mercado”, o fim da “alienação” etc. Muita ideologia se fez com o nome de filosofia.

Quando o castelo de cartas chamado URSS veio abaixo, meses depois da Queda do Muro de Berlin, então finalmente tudo que já se sabia passou a ser falado. Foi possível rir com o filme Adeus Lênin. Todavia, ainda que em menor número, surgiram os que ficaram quietos para, em seguida, dizer que “o comunismo havia sido desviado dos objetivos de Marx” (como se Marx tivesse posto os objetivos políticos como o seu melhor!). Eles também negaram os crimes do comunismo. Até hoje há gente assim, que é capaz de jurar de pé junto que a KGB só existiu por causa da existência da CIA, e que foi um mal necessário. Há, inclusive, gente que aposta em Putin, pois ele é russo! Ele é anti-americano. E novamente os intelectuais de esquerda falaram coisas malucas! Malucas a ponto de alimentar uma nova direita, paranóica, novamente simplória, que reza todo dia para que algo como a Coreia de Norte fique lá, representando o comunismo de manchete de jornal. Aliás, talvez hoje exista mais gente de direita acreditando no comunismo que gente de esquerda.

Hobsbawm foi um homem que abandonou o partido comunista em 1956 e re-abandonou em 1968. Hungria e Tchecoslováquia, uma vez invadidas pela imperial Moscou, tirou muitos intelectuais das fileiras dos PCs. Mas não os tirou de uma visão geopolítica vinculada ao marxismo de boteco. Tanto é que Hobsbawm, vendo o mundo pós-fim da URSS, chegou a dizer que era necessário ter uma URSS, pois o comunismo era uma forma de pressão ao ricos na Europa, de modo a fazê-los vir para a social democracia. Ele praticamente disse o seguinte: que os trabalhadores soviéticos existam oprimidos, para que possa existir trabalhadores no capitalismo que consigam ganhos salariais através da social democracia. A visão simplória, aqui, eurocêntrica, foi um tipo de desculpa daquelas próximas as do passado: “havia algo de mundialmente necessário no horror soviético”. Sempre há algo necessário no horror, para os eternos justificadores de suas verdades absolutas quando elas deixam de ser absolutas.

Cada um de nós, se não é capaz de um tipo de “conhece-te a ti mesmo”, uma certa audácia na revisão pessoal de suas culpas, pode a qualquer momento aderir a uma negativa ou a um subterfúgio para dizer: “Lula fez o que fez, roubou, mas também fez coisa boa”. Ou então: “Bolsonaro apoiou a ditadura, a tortura (que é sempre um ato covarde), mas enfim, a ditadura nos salvou do comunismo”. Sempre há, na direita e na esquerda, um monstro capaz de criar a auto-proteção diante de nossa vontade de sucumbir à estupidez de doutrinas que trazem nas costas chefetes imbecilizados. Há algo de imbecil em cada um de nós que clama pela imbecilidade de um chefete. Depois, quando chefetes se mostram, pela milésima vez, que não valiam nada, basta recuperarmos a nossa cegueira. Então, lançamos mão do cântico da inculpabilidade: “falam o que falam de nós, contra nós, mas é tudo propaganda, tudo invenção de Hollywood” Ou ainda: “teve ser assim”. Até hoje há quem diga que votou no Collor porque senão Lula iria entrar e tomar de todos o dinheiro da poupança.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 07/07/2017

PS: não estou criticando a esquerda e a direita para salvar alguma versão do liberalismo. É que o capitalismo e sua capa liberal são mais que simples regime, são a modernidade. Forjam a vida moderna. Para sua crítica, é necessário um novo instrumental analítico. Nesse caso, minha construção passa por outro tipo de texto, os que tenho desenvolvido a partir da curso, publicado neste blog, chamado “Narrativas críticas da vida contemporânea

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5 Responses “O fascista bonzinho, o comunista docinho”

  1. LMC
    11/07/2017 at 13:56

    O que é um bolsonarista?Um exemplo:
    ele chama o usuário de maconha de
    maconheiro e acha bacaninha o que
    fazem nas Filipinas,por exemplo.E
    acha que a mulher do Trump é mais
    bonita que a mulher do Obama,só
    porque a Michelle é negra.Babacas…

  2. Joao Paulo de Godoy
    08/07/2017 at 18:15

    Ficamos um pouco frustado, não tanto pelo dinheiro, mas pela falta de reconhecimento. Afinal, dá um trabalho danado fazer isso. Em um país civilizado, a grande massa também é consumidora jornalística, mas os melhores tem um acesso mais fácil.

    Enfim. Parabéns. Vida longa ao rei.

    • 08/07/2017 at 22:42

      Godoy, eu me sinto reconhecido até demais. Filosofia é para uma elite escolarizada. Eu não espero que uma “massa” leia minhas coisas. Espero que um público seleto, que tenho, leia as minhas coisas.

  3. Joao Paulo de Godoy
    08/07/2017 at 14:59

    Tá certo, Paulo. Você é um filósofo bom. Seus textos são mesmo melhores. Estou colocando-os lado a lado com os Ponde e CIA Ltda há meses e é notória a diferença de conteúdo e substância de vida.

    Me diga uma coisa: é viável economicamente trabalar nessa linha em terras tupiniquins?

    Como desse paradoxo? Ou vai me dizer que tem um vírus camuflado dentro disso?

    • 08/07/2017 at 15:20

      João Paulo, mil desculpas: veja, as pessoas julgam a nós, filósofos que temos blogs e escrevemos alguma coisa em filosofia como crítica cultural, sem olhar nossas obras filosóficas acadêmicas. Um blog como o meu tem só alguns textos de filosofia acadêmica, na parte de “papers”, o resto é conversa jornalística dom “pegada filosófica”. Não faço esse trabalho mais em jornal, como já fiz no passado, por uma razão simples: o jornal limita o tamanho dos textos de modo tão reduzido, que tudo fica em força de panfletagem. Talvez seja esse o problema das pessoas da mídia, embora algumas, na hora que possuem o espaço que falta, apenas confirme que o problema não era de espaço, mas de mentalidade e falta de estudo (essa é minha decepção com o Pondé, que fala do que não leu; agora, não tenho decepção com o Karnal, que não é filósofo, apenas um ex-jesuíta que escreve auto-ajuda e fala bobagem). Bem, dito isso, falo do “economicamente”. Se entendi bem, você está querendo que eu ganhe dinheiro com filosofia, com textos? É isso? Ora, se eu quisesse dinheiro eu teria seguido outro caminho na vida. Eu vivo com pouco, vivo muito bem. Mas a filosofia, a busca de ser honesto comigo e com o meu público, isso é uma opção quase que sacerdotal, é necessário saber disso antes de fazer a opção. Eu sou filho de professores do ensino médio, fui preparado para essa vida e fui preparado para a busca da verdade, a distância para com política e auto-ajuda. Por isso, para mim, uma tal vida é possível, e sem sofrimento.

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