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24/10/2017

O fascismo venceu, os “afeminados” ganharam a partida


Em inglês faggot é um monte de varinhas, um feixe de varas. É também a gíria para “homossexual” nos países de língua inglesa. Pode ser o “afeminado”, mas mais ainda o gay “machão”, aquele que encarna o faggot. Um feixe é um fascio, se pensarmos segundo o italiano. O fascio é a base do fascismo. As pessoas fracas devem ser unir em feixes para serem fortes. Daí o comportamento de “bandinho” do fascismo.

Na série Os Simpsons há um velho e curioso trecho a respeito disso. Os fracos se reúnem para em forma de um faggot! Um poderoso faggot! Se pudéssemos traduzir em português, a gíria diria: um viadão.

Podemos brincar e ao mesmo tempo falar sério sobre o fascismo. São pessoas fracas, débeis, até “meio afeminadas” que, juntas, em feixe, se acham poderosas.

Qual o inimigo do fascio? O oposto dos fracos, aquele que individualmente se sobressaiu, aquele que é o self made man, o homem liberal par excellence. O fascio odeia a democracia liberal porque é o regime social e político em que o indivíduo vence e se mostra. Em várias sociedades entre o final do século XIX para o XX, principalmente aquelas nas quais a democracia liberal estava vigente ou para nascer, os judeus se apresentavam como o povo que mostrava indivíduos fortes, vencedores, pessoas donas de empresas, bancos e, quando pobres, intelectuais e artistas de destaque. Não à toa o velho antissemitismo se uniu com o novo anti-semitismo. O primeiro era baseado no ódio religioso, o segundo baseado no ódio vindo do fascio, o grupo de fracos que se passaram a se por contra os indivíduos que se destacaram como indivíduos.

Com o passar do tempo o fascio não quis mais dizer seu lema inicial, “individualizados somos fracos, mas como um feixe somos fortes”. Isso mostrava a fraqueza individual que estava na base do fascio, tornada insuportável e até condenável em um regime de liberalismo tradicional. Então, o fascio passou a acusar os judeus não de individualismo vencedor (coisa que não podiam admitir e talvez nem entender), mas de comportamento de bando. Era o início do que mais tarde tanto a direita quanto a esquerda vieram a chamar de “conspiração sionista”. Foi assim que os judeus se tornaram o alvo do nazi-fascismo.

Mas, o certo é que a piada conta a verdade do fascismo. Trata-se de um comportamento de feixe, de faggot, de gravetos fraquinhos que só conseguem atuar quando agrupados em um bundle. Não à toa é o feixe de varas com machado incrustrado, usado pelos romanos, que se transformou em símbolo do fascismo italiano. O fascismo nunca conseguiu esconder sua origem: indivíduos inerentemente débeis, fracos, “afeminados” – como se dizia na época e até pouco tempo. Daí o fascismo nunca ter conseguido ser outra coisa que não uma grande bravata sobre o “super homem”, sobre a “raça ariana” e outras preocupações com a perpetuação do “homem forte”. Só quem nunca foi forte faria tamanha propaganda de si mesmo como forte. Mussolini e Hitler se esmeraram nisso. Eles eram os próprios fracos, fracassados … “afeminados”, diriam seus amigos de infância e juventude.

Após a II Guerra Mundial, com o Holocausto vindo à tona. Os organismos de defesa dos Direitos Humanos incorporaram a defesa de minorias étnicas, e depois também outras minorias. A questão toda era, então, não deixar o estado, que se faz representante do todo social, se impor criminosamente contra o indivíduo. A defesa das minorias não apareceu como defesa de grupos, mas como defesa de indivíduos que, porventura, pertenceriam a grupos rejeitados socialmente. Assim, os últimos que poderiam ter comportamento de fascio seriam esses grupos minoritários.

O Movimento dos Direitos Civis americanos foi isso: a defesa de uma minoria para louvar

O feixe deve funcionar apertado, unido, todos não valem, só o UNO vale.

O feixe deve funcionar apertado, unido, todos não valem, só o UNO vale.

seu direito de ter indivíduos iguais aos indivíduos da maioria culturalmente hegemônica. Todavia, após esse movimento, os movimentos de minorias começaram a ganhar um tom conservador. O germe do fascio, do faggot, foi inoculado neles. Eles desprezaram o indivíduo e centraram suas reivindicações no coletivo. Grupos minoritários étnicos ou de gênero ou de opções culturais e sexuais etc., começaram a ver o indivíduo como um fraco, e a união do grupo, agora tornado feixe, o forte. Criou-se então o “lobby”. Feministas, movimento negro, movimento gay etc., ganharam um segundo braço. Ao lado de reivindicações e comportamento liberais, vieram também comportamentos fascistas. Surgiram lideranças pouco democráticas internas a tais movimentos. Chegamos no que chegamos.

Hoje em dia não mais estranhamos quando um grupo minoritário (minoria sociológica) decide linchar alguém na Internet e, não raro, também nas ruas, se contrariado no seu interesse ou opinião. Às vezes nem chegam a ser contrariados, lincham apenas “por ouvir falar”.

Hoje, patrulhas ideológicas e grupos fascistas se apoderam do comando de grupos minoritários. A luta por Direitos Humanos e por democracia fica antes manchada que defendida por tais bandos. O feixe, o faggot, o fascio volta a aparecer. Agora, às vezes vestido de cores nacionais, às vezes vestido de vermelho, como se fossem comunistas!

Como atualmente podemos nos esquecer de tudo, principalmente no Brasil onde o ensino médio desapareceu e o ensino fundamental é uma alfabetização em nove anos (!). Esquece-se que o comunismo de Marx previa o desenvolvimento máximo do indivíduo, não do grupo ou do grupelho, muito menos de qualquer fascio. O “homem novo” não era um homem coletivo no sentido de feixe, mas no sentido da solidariedade criteriosa. Stalin o destruiu. Hoje ele mesmo, “homem novo”, se destrói, se é que alguém ainda lembra algo válido nessa fórmula, hoje desgastada no seu melhor e no seu pior. O “homem novo” ou o que restou dele, não raro, hoje se imagina um graveto no feixe. Quer se juntar para bater no que critica, no dissidente. Finge-se de solitário, mas tem o grupo.

Tanto a esquerda quanto à direita hoje possuem comportamentos de faggot, de fracotes que agem em grupo para serem fortes. Que tipo de grupo? O grupo do tipo feixe, o fascio.  O derrotado na Guerra é hoje o vencedor. O fascismo é o fantasma que aparece hoje socialmente como dominando cabecinhas de direita e cabecinhas que imagina de direita. Somos hoje governados social e culturalmente por fantasmas de suástica na mão. Em cada escola, em cada empresa, em cada manifestação de rua, em cada rede social o que ocorre não tem nada a ver com Adam Smith, Locke, Kant, Marx, Rawls ou Nozick, só com Franco, Pinochet, Hitler, Mussolini, Hiroíto, Salazar e coisas assim. Estamos sob o comando de “afeminados”. É o feixe, o faggot.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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10 Responses “O fascismo venceu, os “afeminados” ganharam a partida”

  1. gabi
    07/12/2016 at 02:13

    Incrível como alguns heterossexuais tem a mania de atribuir a homossexuais ou “afeminados” caracteristicas deles que não pega bem admitir. Se bate em mulher “não é homem de verdade” se é covarde “não é homem de verdade” como se os “homens de verdade” fossem uma divindade metafisica incapaz de cometer erros, e como se precisassem não ser “homens” para que cometam a coleção de barbaridades que fizeram ao longo da história. Misóginia, fascismo, não é coisa de homossexual não é coisa de afeminado é coisa de gente, e muitos homens heterossexuais não afeminados são misóginos e fascistas, a maioria aliás.

    • 07/12/2016 at 08:56

      Gabi as palavras homossexual e afeminado, no caso, derivam bem da situação tratada, histórica e filosófica, não devem ser lidas a partir de óculos do cotidiano, não tem a ver com nossos desejos de igualdade.

  2. Richard
    26/04/2015 at 17:48

    ha ha ha… a figura do “feixe unido” ilustra muito bem o texto, ótimo! Não sei se há alguma relação, mas ao ler o texto lembrei imediatamente dos olavetes, é impressionante o nível de fanatismo aliado à estupidez de opiniões. Como se dão os processos de subjetivação desses imbecis?

    • ghiraldelli
      26/04/2015 at 18:34

      Agradeça a piada ao maravilhoso criador dos Simpsons.

    • noNatuss
      30/04/2015 at 17:24

      Ghiraldelli, pq a polícia gosta de bater na classe de professores?

    • ghiraldelli
      30/04/2015 at 17:55

      A polícia é treinada no Brasil para antes bater, depois proteger o patrimônio e, por último, pensar na proteção do indivíduo humano. Agora, ela bate com mais gosto quando bate naquilo que lhe parece ser seu contrário, seu opressor. Em uma sociedade em que todo mundo fugiu da escola, foi mal na escola, odeia a escola, professor é algo mesmo.

    • ghiraldelli
      26/04/2015 at 18:35

      O estudo da subjetivação do fascismo encanta e nos amedronta.

    • Hayek
      27/04/2015 at 17:04

      Ah, olavetes, são os galinhas verdes do século xxi

    • noNatuss
      01/05/2015 at 14:22

      Não é sobre o tema em questão, mas vc ficou sabendo disso? É de se comentar?

      http://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2015/04/30/puc-rejeita-criacao-da-catedra-do-filosofo-michel-foucault.htm

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