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23/10/2017

O Brasil do “Agora é golpe”


“O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”. Esta é a célebre frase do artigo de Aristides Lobo, escrita para o jornal Diário Popular, da cidade do Rio de Janeiro, na tarde de 15 de novembro de 1889. Antes mais a frase que o evento descrito marcou nossa consciência sobre a nossa vida republicana. Selou o destino do imaginário dos intelectuais brasileiros. Os militares dos clubes republicanos, pouco tempo antes do 15 de Novembro, cantavam a Marselhesa. Mostravam bem o que entendiam por transformação e revolução. Mas os intelectuais civis, que não participaram do 15 de novembro, também só tinham em mente a Revolução Francesa de 1789 como modelo de “hora de transformação”.

De lá para cá, tudo que não se configura exatamente nos moldes da simbologia da Revolução Francesa, ou seja, com grande envolvimento popular, lances heroicos e guilhotinas fazendo sangue, é assumido como “golpe”.

Exceto a “Revolução de 1930”, vivemos então de golpes em golpes. A derrotada Intentona Comunista de 1935 foi um golpe. A instauração do Estado Novo em 1937 foi um golpe do governo sobre o governo. O derrotado Levante Integralista de 1938 também foi um golpe. O fim do Estado Novo foi um golpe. O Movimento de 64 foi um golpe bem sucedido após várias tentativas semelhantes, do mesmo grupo político, entre 1945 e 1964. Tendo sido bem sucedido, autoproclamou-se de “Revolução”. Logo em seguida foi jocosamente chamada de “Redentora”, pois havia nos salvado de um golpe comunista que jamais foi arquitetado. Em seguida, a historiografia também conseguiu denominar o Movimento de 64 de “golpe”.

Houve também o “1968 e o AI-5”, o “golpe dentro do golpe”. Quando o Regime de 1964 estava para terminar pela via da eleição indireta do Colégio Eleitoral, alguns prosseguiram pela “luta pelas Diretas” (Folha de S. Paulo, PT etc.). Mas então, Tancredo já havia tramado sua vitória contra Maluf, o então candidato do partido do governo (que não era sequer apoiado por Figueiredo, o último presidente militar). Nessa hora, Tancredo, como a raposa política que era, declarou que “Diretas Já agora é golpe”! Estamos nessa até hoje.

Não paramos de identificar como “golpe” tudo aquilo que não se parece com a Revolução Francesa. Collor chamou seu Impeachment de golpe. FHC falou dos petistas como querendo articular um golpe. Os petistas falaram que FHC conseguiu o segundo mandato por meio de um golpe, o de ter comprado congressistas para aprovar sua possibilidade de reeleição. Quando estourou a crise do “mensalão”, em 2005, os petistas começaram a gritar que estava se articulando contra o governo um golpe, como se o culpado do problema não fossem eles mesmos. Agora, com o problema de Dilma ter dado suas “pedaladas fiscais”, qualquer movimentação da oposição, legítima ou não, é chamada de golpe.

Vivemos sob a síndrome antes do nome “golpe” que do evento factual que pode ser mesmo um golpe. Nossa tradição democrática é pequena, fraca, e de fato a ideia de golpe está ali e aqui. Mas não do mesmo tamanho da nossa vontade de chamar de golpe tudo que é movimento alheio ao nosso desejo. No fundo, não paramos de ecoar o imaginário inaugurado por Aristides Lobo: se não há povo junto com militares e sangue nas ruas, se não há fogo no palácio e se não há bombas de todo tipo e guilhotinas cantando, então, o que se está fazendo ao acusar alguém no poder, nada é senão golpe.

O liberalismo de Locke achava legítimo que o povo se revoltasse contra o governo, inclusive de modo armado, caso o governo não viesse a cumprir o prometido quanto aos direitos da Carta Liberal. Mas, é claro, Locke jamais disse como que deveria ser essa revolta para ser efetivamente legítima. Assim, desde então, no mundo moderno ficamos sob a guerra semântica: há de se chamar de golpe o movimento, popular ou não, que venha no sentido de fustigar o governo que nós apoiamos ou gostamos. Ao se unir com o liberalismo moderno, a democracia antiga se reformulou em democracia liberal, e criou então, no seu interior legal, a figura do movimento legítimo e institucional para derrubar um governo presidencialista: o Impeachment. Este, por sua vez, se tornou famoso no século XX com o episódio da tirada de Richard Nixon da presidência dos Estados Unidos. No Brasil aprendemos logo a palavra: “impedimento” ou “impeachment” mesmo. Todavia, é algo que vira “golpe”, se é apontado contra quem gostamos. E nem sempre gostamos das pessoas pelo respeito à lei, mas por razões políticas que envolvem, não raro, o ato de nos enganar. Afinal, participamos da política pelo desejo de sermos enganados.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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3 Responses “O Brasil do “Agora é golpe””

  1. Matheus
    01/10/2015 at 20:13

    Esses dias vi no Canal Livre, e me perdoe o não registro em minha memória, dos nomes das duas autoras do que seria “A biografia no Brasil”, corrijo-me após consultar o google (rs) Brasil – Uma biografia de Lilia Schwarcz e Helosia Starling, sobre não apenas a pequena experiência democrática, mas sobretudo a pequena experiência republicana, da res publica, já que a proclamação foi o evento mais particular e privativo que posso imaginar na história e as seguintes experiencias autoritarias, manutenção de padrões escravocratas e um libertarismo ainda preconceituoso e “racialmente-fóbico”. Fico me perguntando se de um lado há carência democrática/republicana em nossa experiência/ethos/cultura, diametralmente, do outro, parece haver um mecanismo de mercado, no estabelecimento de preferências (quanto aquilo que nos satisfaz de algum modo), e aí eis o que resta: se “atacar” a minha preferencia chamo de “golpe”. Engraçado porque o mercado sempre supõe uma racionalidade, mas como vc bem alerta, fazemos a política pra nos enganar, e de um modo muito objetivo e simplista, não haveria racionalidade nessa aparente armadilha.

    Se posso perguntar, nessa auto-enganação, se encaixa ainda algum aspecto de entretenimento ou “divertimento”?

    • 01/10/2015 at 20:48

      Sim, autoengano tem a ver com o jogo, lúdico, descanso da mente e entra sim no caráter lúdico repetitivo do contemporâneo.

  2. Denise
    01/10/2015 at 13:48

    Concordo, vivemos desde de sempre de golpe em golpe. Sendo variado o conceito de golpe ao longo da historia, com ou sem forças ocultas.
    Na expressão golpe, enquanto tomada de poder de forma ilegitima, hoje està também a tentativa de atingir o objetivo do impeachment, sem passar pelo procedimento (conjunto de atos formais) previsto pra esse fim. Este é a meu ver o sentido mais atual. Com a nuance de que, apesar de não respeitar o procedimento especifico do impeachment, é um golpe que parece querer ficar dentro dos procedimentos institucionais existentes. Do ponto de vista juridico e politico, a historia que està em curso de escrita nesse momento, é muito interessante.

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