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26/09/2017

O 7 de setembro nos mostra mais ignorantes


Para o amigo Deonísio da Silva, da velha geração dos professores cultos

A “HISTÓRIA NÃO CONTADA”, inventada pela esquerda e agora reencarnada pela direita, tornou-se oficial. Politizamos a história de modo demasiado, à esquerda e à direita, e com isso ficamos estúpidos. Nossa juventude está estúpida. Como isso ocorreu?

Nos tempos da Ditadura Militar surgiu a versão do Brasil Grande, o país que havia “se salvado sozinho do comunismo”, a terra na qual Delfim Neto havia feito o “milagre econômico” (uma farsa, claro, com uma versão recentemente repetida por Lula). O ufanismo tornou-se obrigatório. Ora, então, como não se podia criticar essa propaganda da Ditadura, e esta nos enfiava a versão oficial goela abaixo por meio das disciplinas OSPB e Educação Moral e Cívica, surgiram os historiadores que resolveram optar por contar a história do Brasil Colônia ou do Brasil Império, e até mesmo a Proclamação da República, segundo uma versão não oficial, jocosa, como uma maneira de combater o ufanismo oficial. Não raro, nesse feito, projetava-se os erros crassos da Ditadura Militar sobre o passado, e a história então nada era senão um modo de paródia. A história transformou-se em instrumento político para falar do presente, da própria Ditadura Militar, e não um relato para a ampliação da cultura. Isso chegou nas escolas. Num primeiro momento, ajudou os alunos a ganharem consciência crítica. Mas os efeitos posteriores não foram bons.

Depois de um tempo, os alunos começaram a ficar ignorantes (por razões várias, inclusive o péssimo salário dos professores), e aquilo que era para ser uma história alternativa, crítica, irônica, começou a ser lida como sendo a própria história do Brasil. Muitos desses alunos se tornaram professores, e mantiveram essa distorção. D. Pedro não teria feito Independência alguma, mas apenas saído bêbado da casa de Domitila e balbuciado o tal Grito do Ipiranga sem qualquer pompa ou heroísmo. A República havia sido proclamada com algo até menos legítimo que uma quartelada. E o país nunca havia sido outra coisa senão um lugar de corruptos em todas as esferas. Foi assim que a esquerda deu um tiro que, com o tempo, se revelou como bala saindo pela culatra. Perdemos o respeito pelo nosso próprio país e por nós mesmos. Tornamo-nos crentes na mentira que criamos para, de início, promover uma crítica.

Junto disso, é claro, alguma coisa boa ficou. A esquerda conseguiu rever alguns episódios e trazer para a cena figuras antes amortecidas. Tirar da jogada a Princesa Isabel não foi boa coisa, mas mostrar que Zumbi merecia um pedestal à parte foi algo muito útil e correto.

Mas aí veio a direita, nas últimas décadas, tentando uma revanche. Para tal usou da fórmula da esquerda, mas com bem menos sofisticação. O exemplo mais tosco desse momento foram os livros da coleção da editora Leya referentes ao “politicamente correto”. Nessa coleção o politicamente incorreto surgiu como uma forma de desmascarar  a história oficial, tomando-a agora como a “história da esquerda”. E aí fatos verdadeiros foram contados de modo falso. Tudo foi preparado no sentido de forçar a parte boa da história crítica se tornar uma parte jocosa. Assim a direita começou a falar, sem contextualizar, de Zumbi como um simples proprietário de escravos. Tudo se fez para convencer estudantes ingênuos de que novamente os professores não sabiam o que estavam falando, mas agora, eram os professores de esquerda tomados como os representantes do mundo oficial, e eles, os analfabetos da coleção da Leya, os grandes sábios críticos. Novo estrago.

Hoje estamos assim: os estudantes sabem pouco da história, e uma massa de analfabetos aparece no Facebook para falar qualquer coisa que seus gurus dizem, e seus gurus são, eles mesmos, desescolarizados ou fanáticos políticos ou simplesmente piadistas da prática de auto-ajuda ou da prática de vendas de palestras. Contra eles, não raro, nem sempre estão professores competentes, mas um restolho da esquerda que não percebeu direito o quanto está também marcada por ideologias.

Não à toa o nosso Sete de Setembro nunca consegue se impor como uma festa legítima, como o Quatro de Julho americano. Passa como um feriadão, momento de pseudo-ironia de uns, gritinhos de outros e praia para todos. Cada um na sua praia, claro! Os pobres na deles, os ricos naquelas que eles roubaram da nação e privatizaram. Essa história é a que de fato todos sabem, mas não comentam.

Paulo Ghiraldelli Jr.,  60, filósofo. São Paulo 07/09/2017

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9 Responses “O 7 de setembro nos mostra mais ignorantes”

  1. Dalai Lama
    11/09/2017 at 20:07

    A novela, também da Globo, Novo mundo, que está chegando ao seu final, fugiu um pouco dessa abordagem farsesca…

  2. Bruno
    08/09/2017 at 17:51

    E a direita se fazendo de rebelde para vender suas ideias conservadoras, como o personagem principal do filme Bob Roberts.

  3. Bruno
    08/09/2017 at 17:50

    O vídeo merece aplausos de pé!

  4. Bruno
    07/09/2017 at 20:33

    E parece que grande parte dessa animalidade desses caras de direita ficou mais solta depois da publicação dessa coleção da Leya. Agora, uma pesquisa de verdade em Filosofia nenhum desses caras quer ler!

  5. Bruno
    07/09/2017 at 20:25

    Paulo, você soube de uma discussão envolvendo os Youtubers Nando Moura e o casal Coisa de Nerd? Acho que o assunto envolvia o nazismo. Quase a totalidade das fontes do Nando vinha desses “Guias Politicamente Incorretos” da Leya. Leya e fique burro!

    • 08/09/2017 at 07:42

      Sim, é o Pondé comandando uma massa de energúmenos.

    • Luciano
      08/09/2017 at 11:29

      O youtuber do coisa de nerd deu uma resposta ao Nando Moura que foi uma verdadeira aula. Rebateu ponto por ponto os ‘argumentos’ que a direita inculta insiste em repetir sobre o nazismo. O comando desses energúmenos que repetem feito papagaios o que o chefe diz, está mais nas mãos do Olavo, o tonto que disse que Hitler estava a serviço de Stalin. Está no YouTube essa pérola pra quem quiser ouvir.

    • 08/09/2017 at 12:58

      A contra resposta, usando o youtube, é válida. Mas isso é pouco. Os professores precisam mudar, precisam se despolitizar. A politização à direita e à esquerda está matando nosso ensino. É preciso voltar à pesquisa e colocar o youtube em segundo plano. Pondé, Karnal e outros lixos estão contribuindo para lixos maiores, como o tal Nando Moura.

  6. Thiago
    07/09/2017 at 13:56

    Exato. Apenas desserviços a educação. Como debates entre crentes e ateus.E quem está no meio dessa tralha toda, tendo que ensinar algo ou comprar pão e ouvir especialistas de nada falando merda, vive uma guerra de linguagem.

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