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24/08/2017

Nós, os de 1957


Nenhuma geração foi jovem, exceto a que fez os sixties. Por isso, só ela envelheceu. Alguns souberam envelhecer bem, com dignidade. Souberam pensar diferente. Pensar diferente é tudo que se espera de uma pessoa inteligente. Pensar diferente é sempre pensar diferente, e não pensar diferente uma vez só, quando se sai da juventude, para então pensar igual para o resto da vida. Alguns que viveram e fizeram os sixties entenderam isso. A maior parte não. E pior, criaram filhos muito iguais. Os do eterno refrão da voz de Elis Regina em “como nossos pais”.

De todos os que não foram jovens “de marca”, a minha geração, que foi criança nos anos sessenta e jovem nos setenta, é talvez a mais complicada ou, digamos, a mais complexa, menos sujeita a classificações. Pode ser que nem existam “os de 1957”. Trata-se de um povo que cresceu achando que seria jovem, e não foi. A juventude já havia acabado quando esse povinho, o meu, se tornou jovem. Alguns perceberam isso e morreram realmente de overdose, decepcionados – ninguém queria pertencem a uma época em que os Beatles já estavam nas mãos de Yoko Ono. Outros, ao menos os que se tornaram intelectuais, se transformaram em gente que hoje faz ensaios por aí. Fomos salvos pelos Bee Gees, eu acho. Nós somos uma geração, os de 1957, que foi imediatamente seguida pelos que hoje se tornaram os ressentidos da direita.

Ficamos nós, os de 1957, aí então como herdeiros de um certo tipo de esquerda; nos vemos como os que não viveram os sixties como jovens, mas como os que sabem muito bem do se tratava, do que efetivamente aconteceu. Mas, os imediatamente mais novos, que não viveram e fingem saber dos sixties, não raro engrossaram a turminha dos ideólogos da direita. Essas três faixas de adultos comandam o Brasil. Os jovens dos anos oitenta e noventa não contam ainda, decisivamente. Talvez nunca venham a contar, não como “geração”. A não ser que um dia se possa, numa visão de longa distância, falar dos que nasceram com internet e os que a pegaram já jovens.

Como alguém de 1957, fiquei exatamente em uma situação de transição, e meu pensamento é exatamente um pensamento eternamente em transição. Não há possibilidade para os de 1957, ao menos os que tiveram alguma escolarização superior, ou seja, os últimos da boa escola pública, de escrever de outra maneira senão de modo a evitar dogmatismos. Há uma tendência nos de 1957 em acreditar que os anos cinquenta, a Guerra Fria, sempre foi coisa do passado, que os anos sessenta sempre significariam liberdade, e que os anos setenta deveriam saber usar da liberdade sem morrer na droga ou na adoção de algum tipo de guerrilha, terrorismo, “luta armada” ou coisa parecida. Falo de Brasil, mas no mundo todo os de 1957 se sentiram impelidos a serem diferentes. Ficamos com aquela coisa de ter de trabalhar, de ter uma simpatia pela esquerda por conta da política social, e ainda assim não ter nenhuma raiva dos hippies, que se recusaram de “entrar nos eixos”.

Quando escrevo hoje sinto esse peso de 1957 nos ombros. Ou seriam asas? Gente como eu ficou mais abalada com a morte de Robert Kennedy do que com a de John. Pessoas como eu ficaram mais atarantadas com o modo como a Guerra do Vietnã acabou do que com os protestos contra ela. Gente como eu soube de fato que o comunismo havia acabado em 1989. Nós, de 1957, nunca ficamos chorando nos cantinhos por conta desse fim, ao contrário de alguns dos protagonistas dos sixties. Muito menos ficamos aí, como os mais novos, de direita, chorando porque não possuem nada para combater a não ser … putz, o PT envelhecido e barrigudo!

Os de 1957 estão vivendo hoje exatamente com algo na cabeça, o ícone de seu tempo, a cachorra Laika, heroína da corrida espacial – o mais tolo projeto de marketing que a política já fez. Gente como eu tem algo de tonto da geração vegetariana e alternativa, e não suporta pensar que Laika nunca voltou do espaço.

Somos de um tempo que escolher a liberdade individual e ao mesmo tempo a igualdade de oportunidades não podiam ser dois projetos, não podiam ser coisas excludentes. Nisso, ficamos diferente mesmo dos mais velhos e dos mais novos.

Somos a primeira e última geração de republicanos ingênuos, nós os de 1957. Tanto é verdade que a maioria de nós sobrevive, mas não sabe ganhar dinheiro. A maioria de nós vive bem. Mas, sem uma boa mulher, vive meio que sem saber administrar o cartão de crédito. Nós de 1957 somos presas fáceis de amigos da onça.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez).

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3 Responses “Nós, os de 1957”

  1. Pepelawer
    02/05/2014 at 19:33

    É estranho por um lado ter a convicção da necessidade e da beleza pela humanidade ser feita da sucessão de gerações que a cada vez superam de modo inesperado e até fácil as dificuldades, receios e dúvidas existentes que por vezes pareciam insolucionáveis pelas gerações anterior. Estas novas gerações serão as que nos trarão soluções para as questões que hoje nos parecem difíceis de resolver.
    Por outro lado, é praticamente incontestável e triste que as gerações de 80 e 90 parecem não não nos ter trazido tanto assim e que não cumpriram este papel, pelo menos no que se refere às questões humanas.
    Cumprimentos, Fábio.
    J

    • 03/05/2014 at 01:53

      Não tenho nenhuma visão desse tipo, sobre soluções do futuro sobre o passado.

  2. Robson
    23/04/2014 at 21:53

    PQP! De verdade, fiquei sabendo só hoje que a Laika morreu no espaço, de estresse ou superaquecimento a coitadinha. Malditos comunistas! Eles conseguem estragar seu dia mesmo após o fim do comunismo.

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