Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/11/2017

O negro fantasma e o ensino da história


Nasci em 1957 e fui educado na escola pública paulista dos anos sessenta. Na minha escola praticamente não havia negros. A nossa sensibilidade diante da cultura negra era mínima e, não raro, voltada para aspectos exclusivamente folclóricos. Nossa população era tida como oficialmente branca. Para nós crianças da escola, o negro era como um ancestral primitivo, que havia existido, mas cuja genética e costumes havia se perdido na integração com o branco. 

Estudávamos a escravidão como algo próprio do negro. Só o negro havia sido escravo em toda a história. Mas era algo de um passado tão remoto, posto lá no início dos tempos, que nem víamos qualquer negro na rua como tendo alguma ligação com os escravos mostrados na escola, por meio de livros. Eu mesmo tinha uma irmã negra de criação, mais velha. Era a Berenice, que eu adorava, mas não fazia a mínima ideia de que ela era negra! Nossa alienação escolar e cultural em relação a nós mesmos e nossa história era alguma coisa fantástica e eficaz.

O que a escola dizia é que a Abolição da Escravatura, no distante Brasil Império, havia resolvido tudo. Dos negros, ou melhor, dos escravos, havia sobrado algumas palavras no nosso vocabulário, algumas comidas, o samba e a capoeira. Diziam para nós que na Bahia havia “ainda” muitos negros! Não tínhamos nenhuma chance, na escola pública, principalmente em cidades com poucos negros (visíveis), ter qualquer educação de sensibilidade para  com o negro, seus problemas e sua miséria crônica. Além do mais, se aparecia algum negro, logo ele era “branqueado”, obrigado a alisar o cabelo, se encher de perfume e não deixar escorregar nenhum “sambinha”. Para completar a harmonia, havia Pelé. Um sucesso. Quem não gostava do Pelé? Ele não era, afinal, a prova de que o negro aqui no Brasil não passava por nenhum problema?

Nunca os professores falaram da participação do negro na Guerra do Paraguai, no lugar do branco rico e covarde. Nem disseram alguma coisa sobre Zumbi. Os quilombos eram mencionados pelo nome, sem narrativas. Machado de Assis era, no máximo, escritor mulato. E, estranhamente, eu só vim a conhecer seu conto “Pai contra mãe” no colégio! As perversões contra os escravos eram contadas como obras do Capitão do Mato, também negro. Os senhores de escravos eram pessoas que, em geral, acolhiam os negros em suas casas. É certo que havia alguns donos de engenho que, lá no longínquo tempo do Império, açoitaram escravos, mas logo depois Deus se incumbiu desses homens maus. Nenhum professor nos disse que a tal justiça divina podia não ter ocorrido.

Se algum de nós, alunos, via que as datas não eram tão distantes, entre nós e o tal “Império”, logo nos era explicado que os negros haviam sido vendidos com nomes trocados, que ninguém sabia ao certo se os negros vistos na rua tinham a ver com algum escravo. Aliás, nos era dito que quando ocorreu a Abolição, já nem havia escravo mais, que outras leis já tinha libertado a maioria. Aliás, as figuras de Debret eram cuidadosamente escolhidas para serem mostradas. Conheci Debret mais fundo somente no colégio, e assim mesmo por iniciativa própria. A África nos era apresentada como um lugar protegido, um fim de mundo mágico. Tudo ali estava guardado graças ao Tarzan. Quem ele era? O campeão olímpico de natação Johnny Weissmuller, americano. Ora, se era americano, então tudo estava resolvido. Quem não iria gostar de um povo que terminava todos os filmes rindo, e em família? A cultura dos anos cinquenta ainda era hegemônica nos anos sessenta.

Em um Brasil desse tipo, é claro que não havia racismo ou preconceito racial. Não havia negros em lugar que os brancos de classe média pudessem ver e, portanto, como alguém iria se insurgir contra eles ou criar alguma confusão?

Um dia Berenice se formou normalista e foi embora de casa. Não entendi a razão. Ela disse que apesar do meu avô lhe arranjar escola para dar aulas, preferia não usar o diploma e tentar a vida na capital, longe de nós. Só muito mais tarde vim a compreender que ela procurou a cidade grande para ter “outros iguais” a ela e escapar do estigma da negra isolada. Claro que Berenice teve lá sua mágoas, mas ela jamais revelou ou deixou transparecer. Aliás, eu nem cheguei a notar que Berenice havia sido a única negra de toda a escola a se tornar normalista. Naquela época, começaram os protestos dos Direitos Civis americanos, e o Jornal da TV falava com orgulho de como nós, brasileiros, podíamos ensinar aos americanos o modo de viver sem qualquer conflito racial. A retórica da Ditadura Militar adorava pitacos nacionalistóides.

Quando me lembro disso tudo, torno-me consciente que temos sim de ter uma história e uma geografia com mais atenção à nossa antropologia, às nossas ligações com a África, e, agora, com a busca de encontrar formas de nós, brancos, termos o privilégio de poder conviver com os negros em todos os lugares do país.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Castigo em negro. 'Voyage Pittoresque et Historique au Bresil', 1835 por Debret, Jean Baptiste (1768-1848). Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.

Castigo em negro. ‘Voyage Pittoresque et Historique au Bresil’, 1835 por Debret, Jean Baptiste (1768-1848). Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.

Tags: , , ,

3 Responses “O negro fantasma e o ensino da história”

  1. Pedro
    22/12/2015 at 01:02

    Excelente depoimento e ótima reflexão. O branco brasileiro talvez seja o branco mais racista do mundo e este racismo se reflete, por exemplo, na ação da polícia (e no apoio que essa ação tem entre a população branca). Isso pode ser facilmente verificado ao se ler nos jornais qualquer notícia sobre abuso policial contra negros e os comentários que se seguem dos leitores:

    http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/04/oab-mg-questiona-corregedoria-da-pm-por-suposta-abordagem-racista.html

  2. Rony
    21/12/2015 at 14:12

    “Políticas de Cotas como uma oportunidade de o branco conviver com o negro.”

    Essa sua explicação é a que, de longe, faz mais sentido!!!

    Como sempre, show demais suas reflexões!!!

  3. Ana
    21/12/2015 at 04:16

    Excelente reflexão, Paulo… É de pensar que muito a de nós nem sequer pensamos na nossa herança biológica…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *