Go to ...

on YouTubeRSS Feed

28/02/2020

Qual a origem da nossa “festa de Natal”?


A “ceia de Natal” é mais velha do que normalmente supúnhamos, e esteve mais para última ceia que para festa de comemoração de nascimento. Essa é a informação que recebi da filósofa Francielle Chies.

Que o Natal não era a data provável do nascimento de Jesus, mas a data de uma festa pagã encoberta propositalmente pela cerimônia religiosa cristã, como tantas outras datas, isso eu sabia. O que eu não sabia é que uma tal festa, de troca de presentes e de jantar em família, nessa época do ano que é a de extremo frio no Norte, vinha de nossos ancestrais primitivos. Um terço da população morria a cada época do frio, desse modo, nossos ancestrais se reuniam para trocar comida e fazer uma ceia conjunta, pois terminado esse período, que em nosso calendário é o das “festas de final de ano”, as famílias estariam compostas de modo completamente diferente. Assim, justificava-se muito a troca do que havia sido estocado, pois seria a última vez que todos os que trabalharam e viveram juntos em um período, iriam se encontrar. Quando voltasse o calor, todas as relações familiares seriam outras.

Na maioria das culturas de povos do Norte, então já não mais na situação do homem primitivo, as festas religiosas da época do frio nunca deixaram de existir. Com as diversas invasões de povos do Norte sobre a Europa mediterrânea, mais essa tradição se firmou. Quando o cristianismo veio, não havia outra coisa a fazer, pelas mãos da Igreja, senão antes se apropriar dessa tradição que combatê-la. Claro que, para uma religião nova que celebrava o fim do destino e da lei de honra, que deveriam ser substituídas pela liberdade e pela lei do amor, ficava bem mais fácil comemorar o nascimento que a morte. Além disso, o Norte já havia se tornado capaz de enfrentar o frio, sendo este não mais um dizimador a ponto de criar a reestruturação familiar.

Também a chamada Árvore de Natal pouco tem a ver com as árvores que, em diversas culturas, se planta para acolher a placenta que vem junto com a criança, de modo a erigir vidas paralelas, a do homem e a do vegetal. Também aqui a tradição é de nossos ancestrais primitivos. A Árvore de Natal é um pinheiro que simboliza o que restou da imagem da pilha de mortos, todos vitimados pelo frio, feita ao longo do inverno. Quando o frio deixou de ser uma ameaça tão assustadora e a “festa de final de ano” ganhou outra conotação, então a relação imagética com o monte de cadáveres se perpetuou no formado especial do pinheiro, mais tarde absorvido também pelo cristianismo como Pinheiro de Natal.

Olhando para o que historiadores da chamada “grande história” dizem, cada vez mais essa narrativa faz sentido, uma vez que essas relações imagéticas, de transformação de fatos em situações simbólicas amenas é um processo nosso bem conhecido, e que nunca paramos de fazer. Desgraças são sublimadas e, para tal, contamos sempre com nossa capacidade simbólica e nossa facilidade de teatralização fora dos palcos. Aliás, sabemos bem, o palco inicial sempre foi a vida cotidiana.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Tags: , , ,

2 Responses “Qual a origem da nossa “festa de Natal”?”

  1. Guilherme Gouvêa
    24/12/2014 at 15:13

    Talvez a vecchia religione europeia que popularizou esse tipo de festivais tenha sido a saída pragmática para as respostas às necessidades prementes dos ancestrais pré-Históricos, de um modo que, reconhecendo a essência da psiquê por mero acidente, tenha registrado uma das primeiras fórmulas de produzir comoção em massa, mobilização e controle coletivo. De lá pra cá, a receita vem sido repetida com mudanças pontuais.
    *
    Os megálitos pré-celtas, como o de Stonehendge, ofereciam de novo, em contraste a sistemas deístas de outrora, um calendário fixo, previsível, fechado (com 8 festivais entrecortando o ano, coincidentes com fenômenos astronômicos) e mais ou menos confiável até então para lidar com as dificuldades igualmente cíclicas da vida, em todos os seus estágios e independente de natureza e situação do indivíduo. Tudo carregado num clima de deleite sensorial, na grandiosidade do espetáculo e no apelo ritualístico.

    *
    Assim, nem um pouco curiosa é a transmutação dos símbolos e a manutenção do princípio básico dos festivais que tinham como característica mover as massas e tocar sua consciência: o Yule, originalmente Solstício de Inverno, trazia os votos de renascimento, esperança, renovação, simbolizados pelo grande pinheiro decorado ao centro da roda ritual; o Samhaim, que modernamente também é invocado como o Halloween, correspondia ao período de consagrar as forças dos ancestrais e buscar deles alento, no lapso em que “diminuem os véus entre os mundos dos vivos e mortos” (coincidindo com a quaresma cristã).
    *
    Deleite sensorial, grandiosidade do espetáculo e apelo ritualístico, quando combinados a uma mensagem universal em resposta a necessidades mais profundas provenientes da própria natureza humana, continuarão movendo o dínamo (em roupagem nova ou velha, tanto faz), das grandes confraternizações coletivas e mobilizações em massa, enquanto o homem, como o conhecemos, caminhar sobre a Terra.

  2. 24/12/2014 at 13:28

    Lembra aquela brincadeira do telefone sem fio, começava-se com uma palavra e terminava com outra muito diferente, a história revela nossos costumes de épocas que estarão sempre em constante mudanças.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *